domingo, 31 de agosto de 2014

Doce brasileiro que todo mundo gosta

Qual é o doce que todo brasileiro gosta, não pode faltar nas festas de aniversário, batizado e casamento e supre aquela vontadezinha que surge de doce no meio dia como nenhum outro?

Não é dificil a resposta: brigadeiro, oras!

O docinho é tão aclamado que quase todo mundo sabe fazer. Ele é o preferido das meninas-moças que, quando se juntam na casa de uma das amigas da turma quase sempre é comido de colher. Quem é que quer esperar esfriar e enrolar para comer depois afinal? Isso já ocorria quando eu era menina e aconteceu com todas as minhas sobrinhas. É líquido e certo. 

Nos últimos tempos, em que tudo é gourmet, brigadeiro também se tornou requintado.  Deixou de ser feito com nescau ou toddy e margarina e as receitas agora são com chocolate do padre e manteiga. O resultado não é o mesmo, evidente. A qualidade do ingrediente reflete diretamente no resultado do produto, quanto a isso não há dúvida. 

Tenho tanta história de brigadeiro pra contar que precisaria de um livro se me arriscasse a dizer detalhes. Então queria propor uma brincadeira, do tipo concurso. Quem tiver uma história boa sobre brigadeiro pra contar, manda e eu publico. Quem sabe a gente não consegue tantas que vira um livro? rsrs

Só de memória breve, me lembro de um aniversário da Giovana que a Cris, minha irmã e mãe dela, fez brigadeiros que ficaram tão duros, tão duros, que só puderam ser chupados como porque viraram balas daquelas mais que puxa-puxa ou quebra-dente. O sabor sempre é bom. Como diria o cunhado de uma grande amiga minha, o Carlinhos,  com todo aquele jeito interiorano e amável que ele tem, "também como é que não vai ficar bom? Tem leite condensado, tem chocolate, tem manteiga... "

É isso mesmo, como é  que não vai ficar bom? 

No sul do Brasil, o brigadeiro é chamado de negrinho. Diz a lenda, segundo pesquisa, que o nome brigadeiro surgiu nos anos 40, em tempos de campanha eleitoral, em homenagem ao então candidato o Brigadeiro Eduardo Gomes, um militar que queria ser presidente da república. Um grupo de fãs do candidato em São Paulo criou um doce feito de leite, açúcar, ovos, manteiga e chocolate, o negrinho, que era vendido a fim de ajudar a arrecadar fundos para a campanha. Dá para imaginar quantos doces teriam que ser vendidos para arrecadar dinheiro para as propagandas eleitorais atuais? As doceiras teriam trabalho em fim! 

Para concluir a história do batismo do negrinho como brigadeiro, isso aconteceu porque os demais candidatos começaram a fazer graça com o concorrente e dizer que as pessoas iam comer o "docinho do brigadeiro". Embora o militar não tenha vencido a eleição, o doce ganhou o nome de brigadeiro. Alta patente merecida na hierarquia das guloseimas, vale dizer. 

Doce bem brasileiro, o brigadeiro tem hoje uma família grande. São seus parentes os beijinhos de coco, os cajuzinhos de amendoim, um tanto fora de moda atualmente, o bicho-de-pé (que é cor de rosa, feito com gelatina) e toda sorte de sabores como café, capuccino, paçoquinha, milho, chá verde, capim santo, pistache, queijo e dá-lhe mais de 70 invenções. Como requer um preparo simples, a criatividade comanda a variedade existente e sempre tem alguém inventando uma nova combinação e conseguindo um sabor diferente. 

Além disso, o brigadeiro também tem as variações quanto à textura e ao ponto de cozimento. Há quem prefira mais macio, outros que o doce esteja enrugado, ou seja, com mais com "pelotinhos". Assim como, tem os que gostam mais molinho para comer de colher e os que preferem enrolados mesmo. O doce também é usado em cobertura de bolos e tortas ou como recheio em diversas sobremesas. Não tem muito erro. 

O modo de fazer não difere muito quando se trata de levá-lo pra panela, mas a receita já foi super bem adaptada para o microondas. 

Como qualquer preparo, o brigadeiro, embora fácil, tem lá seus segredinhos. Conforme a gente vai fazendo, repetindo a receita, ganhando experiência, descobre o ponto certinho, o tipo de panela mais adequado, quando aumenta ou diminue o fogo e se já pode interromper o cozimento ou não. Ainda tem aquelas coisas que nem dá pra ensinar, porque a gente sente e só. O cheiro do ponto, por exemplo. É algo parecido com o cheiro da comida com sal ou insossa. Há quem saiba se já foi posto sal na comida, sem olhar pra ela e sem experimentar também, só pelo odor. 

Muito bem. Como hoje é domingo, a chuva deu o ar da graça lá fora, graças a Deus (espero que chova a semana inteira sem parar e na cabeceira da represa), vou parar por aqui, deixando o convite para que você me mande a sua história de brigadeiro. Pode ter foto também, se quiser.  Prometo que vou olhar tudo com carinho e publicar bem bonitinho. 

Outras muitas delicadezas para transformar o brigadeiro em um doce gourmet poderiam ser contadas aqui. Mas eu só faço isso, se receber, no mínimo 10 histórias. Combinado? 

Por enquanto, divido só a receita que faço desde criança. 







Receita básica de brigadeiro

Ingredientes
1 lata de leite condensado
1 colher de sopa de manteiga ou margarina
4 colheres de chocolate em pó ou achocolatado

Modo de fazer
Leve todos os ingredientes para o fogo, mexa sempre até desprender do fundo da panela. Despeje o conteúdo em prato untado com manteiga ou margarina. Deixe esfriar e enrole em formato de bolinhas. Passe pelo chocolate granulado e ponha em forminhas para servir. 


Que a nossa semana seja doce e alegre! 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Eu achei o MoDi

A alegre surpresa de uma visita anunciada alguns dias antes da Maria, amiga querida  carioca, em São Paulo, tornou-se ainda mais agradável porque decidimos, ela e eu, ir ao restaurante MoDi, na rua Alagoas, ao lado do Parque Buenos Aires, em Higienópolis. 

A sugestão foi minha porque já há alguns meses eu planejava ir ao restaurante, desde quando o descobri num domingo de manhã passeando pelas imediações do parque. Só que na ocasião, havíamos acabado de sair de um super breakfast em casa. A fome só viria, portanto, horas depois. Mas mesmo naquele dia, eu já achava que tinha feito um achado!

De uns tempos pra cá - não sei se foi o meu bolso que ficou mais vazio - ir a restaurantes em São Paulo ficou muito caro. Você pisa no lugar, especialmente se for uma dessas casas do tipo boteco, pede um chopp, divide uma porção das mais baratas, e deixa no lugar, brincando, R$ 40.  Fora o estacionamento ou o guardador de carros. Então, quando você descobre um lugar, que é bonito, bem localizado, que tem um astral descontraído e um cardápio enxuto e honesto, é um achado, sim! 

Dá até medo de contar pra muita gente porque assim que o lugar cai nas graças do público, a casa vai ficar lotada, a fila vai aumentar e, obviamente, os preços vão subir, subir, e aí o céu é o limite. Você, então, perdeu o que tinha achado. 

O MoDi fica no piso térreo do Edifício Paquita, o que já um charme. Nesse momento em que os prédios que são construídos estão cada vez mais dentro de altos muros fechados, mas que tem um plano diretor rolando na cidade para que essa realidade mude e haja integração entre comércio de rua e moradores, encontrar uma proposta tão simpática quanto um restaurante que fica em frente à praça e embaixo de um edifício de gente bacana, é sensacional! 




Vale fazer algumas considerações sobre o local: 

Reserva - Eu liguei à tarde para fazer reserva, mas eles não trabalham com reservas. Fui avisada que normalmente às quartas não é muito cheio, mas que no almoço daquele dia a procura tinha sido acima da média. 

Estacionamento - Não tem.

Atendimento - Minha amiga e eu nos encontramos às nove da noite porque eu demorei um pouco para conseguir estacionar (depois de duas voltas, bem em frente ao restaurante, que sorte!). Ela estava com uma mala e já havia pedido uma mesa para duas pessoas para o Leandro. Ele informou que várias mesas haviam chegado por volta de 19h30, de modo que logo vagariam lugares. Enquanto isso, tentou nos ajudar com a mala, embora o lugar não tenha uma chapelaria (nem é a proposta). 

Pedimos para ver o cardápio de drinks e decidimos deixar a mala no carro, ao voltarmos, coisa de dois minutos, a nossa mesa estava pronta. 

Fomos atendidos pelo Rafael, um garoto bom de papo, novinho e descontraído, com quem eu puxei conversa sobre gastronomia. Ele disse que já está na área há sete anos. Soube explicar bem os pratos e na sugestão de vinhos, deu umas escorregadas, mas arriscou bem. Ele, como eu, está treinando, só que um como cliente-critico e outro como pretenso futuro sommelier. 

Dois pontos negativos sobre o atendimento - O rapaz era descontraído e me deixou bem à vontade, mas ele não me levou a sério quando degustei o vinho. Talvez tenha pensado que era jogo de cena sentir o aroma, rodar o copo e provar duas vezes seguidas. Porque uma casa oferece meia garrafa com um preço razoável e o cliente opta por isso, o garçom pode achar que o cliente não sabe o que está pedindo? Eu senti que ele não me levou a sério, mas tudo bem.

Outro ponto foi no momento que chegaram os pratos e um outro garçom veio trazer à mesa. Ele não sabia de quem eram os pedidos e, simplesmente os colocou de qualquer jeito. Não foi legal isso. 

Comida
Couvert - Baratinho, apenas R$ 5 por pessoa, vem com um vasinho de pãozinho caseiro e uma tigelinha de caponata difícil de ser servida naquele tipo de pão. Simpático, mas sem muito gosto. 

Pratos - Ambas pedimos informação sobre o varenique, mas eu não me animei e pedi o tortelli de cordeiro. A Maria foi pela explicação e ficou com varenique sbagliato. 

As massas vieram no ponto e os molhos sem muito detalhes não deixaram a desejar. Ela amou o prato, disse que estava perfeito, em temperatura, textura e no paladar. Eu já não fiquei tão contente. O recheio do meu tortelli era pastoso e o prato não foi servido na temperatura que eu gosto, mais pra quente que pra frio. 
A apresentação era bonita, com mini legumes decorando a massa, que estavam com uma textura muito apropriada. O molho não era nada tão especial. 
Tortelli de cordeiro


Varenique Sbagliato


Mise en place - sem toalhas nas mesas, o restaurante tem uma proposta lúdica com jogo americano em papel craft no qual está desenhado o mapa da Itália e há informações sobre as comidas de cada região. Eu até trouxe pra casa. Bem interessante.  Os guardanapos eram descartáveis de papel branco e os talheres de qualidade boa, os copos da mesma forma.  

Decoração e ambiente - Embora não seja um espaço muito grande e tenha um mesanino, portanto o pé direito é alto, o barulho não é exagerado. O salão estava animado com muita gente falando já que estava cheio, mas nada que comprometesse. 
Na entrada, um bar bem estiloso com banquetas no balcão, lembrando ambientação dos bares das novelas que víamos nos anos 70.  
Para a espera, mesinhas e cadeiras baixas num estilo art noveau, leves, bonitinhas e coloridas, misturadas com outras mais anos 70 também baixinhas. Divertidas peças garimpadas por alguém de bom gosto ousado. 
As cadeiras e mesas de madeira, algumas com opção em frente à parede com sofá. 
O pé direito alto dá muito charme ao local, assim como a grande pilastra revestida de pastilhas com brilho, um toque do passado. 
Ficamos na parte de baixo, numa mesinha com sofá. O casal ao nosso lado estava realmente bem perto, mas nada que pudesse comprometer a nossa proposta de um jantar descolado entre amigas. 


Preço - Como disse no ínicio, bem honesto. Independentemente do meu prato não ter sido incrível, o menu oferece outras opções com preços muito razoáveis. Eu diria, inclusive, baratos para tudo o que envolve um cardápio dessa envergadura. A massa empratada vai de R$ 25 a 44.  

Nosso tempo de permanência foi de 1h30, já com o café. Inclusive o descafeinado eles têm. Não comemos sobremesa porque eu tinha brigadeiros gourmet feitos por mim nos aguardando em casa. A Maria era minha hóspede naquele dia. 


Brigadeiros tradicionais, de café e beijinho


Fomos bem acolhidas, não houve espera, o preço é bom, o atendimento jovem e o local descontraído. Tudo bom. 

Soube enquanto pesquisava sobre o MoDi, que eles oferecem cestas de piquenique como o Kit Comidinhas, que eu criei. Boa ideia! 

Espero que meu achado continue e melhore nos itens que pode melhorar para que eu vá e leve muitos amigos, como fazia em tempos que morava ao lado da Vila Madalena e tinha cadeira cativa em bares da região, porque eram achados. Agora estão perdidos, como é o caso do Genésio, do Filial e do Genial. 

Bom fim de semana. O MoDi pode ser uma boa sugestão para o almoço do sábado, por exemplo. 

Serviço

MoDi 

Rua Alagoas, 475 - Higienópolis - São Paulo 
Telefone: 11 3564-7031 


Kit Comidinhas
Encomende brigadeiros  e alugue cestas de piquenique

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Carbone, muito atendimento é exagero e sufoca

Desde que abriu em maio deste ano o Silas vinha me falando que devíamos ir ao restaurante Carbone. Ele já conhecia o empreendimento porque um dos colegas dele de pedal, o Leandro (Leandro Tavares, do buffet Planet Kids), é um dos sócios no negócio.  

Fadado ao sucesso, o restaurante reúne elementos básicos que qualquer marqueteiro sugeriria facilmente a fim de garantir um resultado, no mínimo, satisfatório. 

Antes de tudo, o restaurante está diretamente vinculado ao nome do chef Carlos Bertolazzi, que entre tantas mídias que frequenta tem a graça e o mérito de pertencer aos Homens Gourmet, do canal Fox Life. O programa é uma dessas boas ideias para televisão que junta a graça de ter rapazes bonitos na cozinha, preparando comidas gostosas de um jeito prático, que qualquer um se sente apto a fazer o mesmo.  Mas Bertolazzi nem de longe é só essa figura. Ele teve várias outras sacadas que o fizeram ser um sujeito conhecido na mídia, fruto de muita criatividade, empenho e envolvimento na gastronomia. Foi ele quem resolveu vender coxinhas numa feira de comida no Brooklin, em Nova York. Nada mais brasileiro. Só que em vez de frango, ele usou um ingrediente mais sofisticados, o pato, e ganhou notoriedade. Na Virada Cultural deste ano, na feira de comida, para conseguir comer uma dessas coxinhas era preciso enfrentar um fila bem desanimadora, tamanho é o sucesso do produto Carlos Bertolazzi. Ele, por si só, nesse momento, faz vender. Não deixemos  escapar o fato de que o chef tem seu nome atrelado a dois outros restaurantes de sucesso em São Paulo: o PerPaolo e o Zena Caffé. 

Outro elemento é o outro sócio, Paulo Baroni. Experiente no ramo, ele já foi sócio de Sérgio Arno, no La Pasta Gialla. Os restaurantes Per Paolo são frutos vindos de sementes plantadas durante essa sociedade. 

Se tudo o que foi dito nos dois parágrafos anteriores pudesse ser deixado de lado, ainda valeria como diferencial do Carbone, a tecnologia que foi importada para o preparo especial das carnes. O Josper, um equipamento que combina carvão vegetal e grelha. Não entendo muito da tecnologia, mas, segundo pesquisei, é um "forno" que grelha, doura, defuma, sela, assa, enfim, faz tudo. E rapidinho. Nem bem terminamos de fazer o pedido, quando começávamos a comer o couvert, já chegaram as carnes prontas. Por sinal, antes que chegassem as bebidas. 

Não acaba aí. A localização do restaurante na Avenida Cerro Corá é muito convidativa. Fácil de chegar, a casa fica numa esquina cuja travessa é bem simpática, tem uma escola, dá pra arriscar parar o carro ali, sem que venham guardadores cercando imediatamente. 

Outro coisa interessante é o espaço do restaurante. Amplo, mas aconchegante e não muito barulhento. É uma churrascaria, mas não tem astral de churrascaria. Inclusive porque o rodízio é invertido. Não são rodiziadas as carnes e sim os acompanhamentos. Então, talvez seja melhor chamá-lo de um restaurante de carnes. 

E por falar delas, muito bem servidas. Embora os pedidos sejam individuais, é inegável  que os cortes são mais que suficientes para duas pessoas.  Estávamos em quatro pessoas, dois casais, e decidimos por pedir somente duas opções de carnes, um T-bone e um fraldinha, uma vez que eu não tinha mesmo intenção de exagerar mais do que o que era oferecido como acompanhamento e a Raquel não come muita carne. 

É a partir desse ponto que quero fazer algumas considerações sobre o restaurante como um todo. 

Reserva - É possível reservar por telefone ou fazer a reserva on-line. Havíamos feito reserva por telefone e nos foi informado que deveríamos chegar cedo para evitar perdê-la. Por isso, atrasados que estávamos, ficamos muito preocupados e ansiosos, mas para nossa surpresa, a casa tinha muitos lugares disponíveis.  

Serviço - Embora muito atencioso, o serviço do Carbone não é bom. Quando chegamos, a casa não estava cheia.  Ao contrário, eram apenas quatro ou cinco mesas ocupadas e o restante, vazio. Pudemos escolher entre uma ou outra mesa do salão de entrada, ou entre várias no segundo salão, onde se pode ver o imenso forno do lugar. 

Como se não houvesse amanhã, várias pessoas vieram nos atender ao mesmo tempo. Sem que pudéssemos sequer observar o restaurante e onde ficaríamos nos sugeriam esta e também aquela mesa, num frenesi afoito de fazer os clientes se sentarem e logo comerem e, logo irem embora.  

Era domingo, estávamos em família, o filho do Silas nos visitando em São Paulo, tínhamos acabado de nos encontrar.  Era nossa intenção fazer as coisas num ritmo mais lento, mais devagar. Mas ali, não seria possível. 

Eu apontei a mesa que preferia e me dirigi ao toalete para lavar as mãos. Quando voltei à mesa, já tinha um couvert servido e duas pessoas anotando os pedidos e falando sem parar conosco. Eu não consegui olhar o cardápio. Não deu tempo. Eu me senti tão pressionada que sequer vi o que havia para beber. Logo, pedi uma coca-cola light. E ouvi, coca zero! Não, eu não gosto de coca zero, gosto de coca light. Zero, senhora, zero. Pedimos duas cocas Zero, veio uma! Pedimos duas águas com gás, vieram duas sem gás. 

Enquanto isso, o Silas e o Ian escolhiam a carne. E o garçom pressionando! Aí, decidimos, Raquel e eu, só pelos acompanhamentos que já começaram a ser servidos. Eu não pude nem iniciar a degustação do couvert que, inclusive achei que fazia parte dos acompanhamentos, só soube depois que foi pago à parte, e as comidas estavam sendo servidas. Nem bem começaram a vir as comidas, o garçom quis retirar o couvert. Oras... 

A brigada deve ter sido planejada para casa cheia. Como estava vazia, não havia um segundo de sossego. Os meninos, muito inseguros, diga-se de passagem, por falta treinamento para servir, nos entuchavam comida sem trégua.  Assim que começou a ser servida a comida, chegou também a carne.  Antes que tivesse sido escolhida a cerveja ou o vinho.

E o momento escolha das cervejas? Meu Deus! Que confusão. Ninguém as conhecia. Não entendiam nada de cervejas; se pilsen, se stout, se clara ou se escura. Um samba. Vieram três pessoas para tentar responder sobre um assunto que todos deveriam saber de cor e salteado, como se dizia na minha terra quando eu era criança.  Com tantos rótulos no cardápio, só não perderam vendas porque os homens da mesa estavam mesmo muito a fim de tomar cerveja e eles se viraram para escolher.  Meio na vale-tudo, sabe? 

Pra resumir, a comida pode ser boa, mas o serviço é confuso e atrapalhado e isso mela o meio de campo. Fomos atendidos prioritariamente por um garçom com forte sotaque português. Ele foi muito atencioso, mais do que devia. 

Quando achávamos que teríamos um respiro, lá chegava novamente um acompanhamento.  E tudo servido junto e misturado no prato. Difícil! Bem complicado mesmo. 

Estacionamento - Não usamos, mas há serviço de manobrista pago na porta. (R$ 15)

Comida e bebida

Carnes - Não há o que dizer quanto à qualidade. Realmente muito boa. A maminha, por ser um corte bem alto, veio sangrando demais no meio. Pedimos para assar mais um pouco e fomos prontamente atendidos. 

Acompanhamentos - Saladas -  Eu esperava que viesse salada, uma vez que carne combina com salada. Só uma nos foi servida. Não era maravilhosa e o garçom tinha medo de derrubar, então foi econômico... Só veio uma vez à mesa. 

Massas e guarnições  - O risoto de camarão estava gostoso, mas foi servido imediatamente  junto com o nhoque, o que definitivamente não orna! Na sequência, veio o ravioli com amendoas. Divino! Tenro, delicado, a massa estava no ponto exato, o recheio era certeiro em quantidade e sabor. A manteiga e as amendoas em perfeita harmonia.  
Os legumes estavam passados demais, bem moles e o garçom não os conhecia. Então, você pedia que ele lhe servisse sem abobrinha e ele não sabia o que fazer. Coitado!  Para salvar a situação, dois tipos de batatas. Eu só comi uma delas, a que não era gratinada.  O corte lascado dava o nome ao prato: selvagem. Gostosa, mas servida na ordem errada.  
Ponto alto para a mandioca frita. Sequinha por fora, bem cozidinha por dentro. Repeti e tive que pedir para o garçom ser mais generoso. 

Bebida - O restaurante conta com um cardápio de cervejas artesanais bem diversificado. Há opções claras, escuras e vermelhas. É preciso mais treinamento e menos pressa para que o cliente possa harmonizar adequadamente essa bebida com o que pretende comer.  A carta de vinhos é enxuta, mas com  opções que como disse o Ian: "as baratas não são muito boas e boas são muito caras para o que são". 

Sobremesas -  Nos foi sugerido o petit gateau de doce de leite, mas reservamos o espaço na barriga para o pudim de leite da Dona Dora e os brigadeiros que eu tinha feito para o aniversário da Raquel. Declinamos, portanto. Na insistência, também nos foi sugerido o petit gateau de chocolate. Pelo mesmo motivo, foi não. 

Café - Ainda estavam bebendo cerveja quando foi sugerido o café. Nem sei porque dissemos que precisávamos de algum tempo. Depois só pedimos a conta, pagamos e fomos embora, sem tomar café. 

Preço - Nossa conta resultou num preço médio de R$ 85. Não é caro para o padrão-São Paulo. Mas não é barato considerando que não comemos sobremesa, só duas pessoas pediram carne e somente duas beberam alcoolicos. 

Mise en place - A mesa era pequena para tudo o que foi posto em cima dela. Quando chegamos havia uma disposição básica dos elementos que compõem a mise en place básica. 

Decoração e ambiente - Embora bem aconchegante a decoração é meio confusa, assim como é confuso o ambiente. Pense: você vai a um restaurante de carnes, com antepastos mediterrâneos, tem prioritariamente massas como acompanhamento, quase não te oferecem salada, para beber você tem cervejas artesanais e não é priorizado o chopp tradicional, é servido por garçons que falam português de Portugal e nas paredes têm Elvis Presley, Marilin Monroe, no piso ladrilho hidráulico com cara de casa antiga e toque retrô, além de outros tantos elementos que fazem uma confusão danada. É muito diversificado.   

Para não ser injusta, a casa merece uma segunda visita, mas pode melhorar bastante. Especialmente se levar em conta a experiência dos que a conduzem.  

Ao combinar tantas variáveis é difícil acertar tudo imediatamente, mas o caminho é promissor. Cortar excessos, rever alguns preços, deixar o cliente a vontade, treinar a brigada e tudo vai bem. A comida é feita com o coração. 

E se você estiver se perguntando: "se eles queriam conversar por que foram num rodízio?", eu vou responder que não fomos num rodízio fomos a um restaurante de carnes nobres. Não fosse para comer carne, o Silas não teria ido lá. Entendeu o que é um diferencial competitivo? 





Serviço

Carbone Carnes Nobres 
Rua Cerro Corá, 1556 - Alto da Lapa - São Paulo
Tel. 11 2935 0266 

Obs: Não encontrei site do local. Só Restorando, Vejasp, Foursquare etc

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Um cassoulet adaptado, mas que deu certo

O Silas insiste em chamar de puchero, exagerando no sotaque. Eu sempre chamei de cassoulet e lá na casa da minha mãe o nome era mesmo feijoada branca. A base, como aprendi em História da Gastronomia, é a mesma. Trata-se de um cozido cuja base é feijão que mistura ingredientes diversos e fica uma delícia. 

No Brasil, a tradicional feijoada é feita com feijão preto e carnes variadas. De origem europeia carrega consigo aqui em terras tupiniquins a pecha de ter sido criada pelos escravos negros com os restos das mesas da nobre. Bobagem. A feijoada junta ingredientes que originariamente foram trazidos pelos portugueses para a colônia. A ideia de que só o que a nobreza desprezava era usado num enorme cozido feito pelos negros talvez se deva ao fato de que as escravas é que cozinhavam e levavam da casa grande à senzala e vice-versa modos, temperos e aprendizados culinários. Mas é pura lenda acreditar que a nobreza não comia orelha, pé, couro, linguiça e outros tantos ingredientes da feijuca. Nunca foram bobos os nossos colonizadores e não perderiam essas delícias. 

O puchero é o cozido da culinária espanhola, mais propriamente da região da Andaluzia. Feito com grão de bico em vez de feijão é uma outra variação do mesmo prato. Como se origina de determinado lugar tem tempero característico e suas carnes serão também as mais consumidas naquela área. 

O cassoulet tem o nariz mais empinado de todos, só porque é o francês. É o que é preparado com feijão branco. Leva toucinho, linguiça defumada, paio, carnes suína e bovina, frango e, segundo pesquisei, originalmente, confit de pato. Nas receitas mais recentes e abrasileiradas esse não é um ingrediente recorrente. 

Há inúmeras outras variações de cozidos cujas origens são atribuídas a regiões diversas, como as caldeiradas e o goulash, por exemplo. Há receitas com cevada, aveia, trigo em grãos e muitos outros. Os legumes enobrecem e colorem os cozidos, costumam dar graça e amenizar os sabores mais fortes dos grãos combinados com as carnes e embutidos. 

Ontem, Dia dos Pais, fizemos um almoço aqui em casa no qual estavam o irmão gêmeo do Silas com a família (que é toda vegetariana),  os pais deles, minha cunhada Nícia, o Arthur e nós dois. Depois de pensar muito no cardápio que seria servido, decidimos fazer um cassoulet. 

A ideia partiu de um princípio simples que era o de fazer o mesmo prato para quem come e para quem não come carne.  Assim, fizemos todo o processo como se toda a comida fosse ser feita sem qualquer proteína de origem animal. 

Vamos à receita. 




Cassoulet Adaptado 

Ingredientes

Geral
1 kg de feijão branco (grãos grandes)
água para cozinhar o feijão
1 fio de óleo de milho para cozinhar o feijão
2 colheres de óleo de soja para refogar 
4 dentes de alho esmagados
2 cebolas médias picadas
1 batata doce 
1 batata roxa
2 batatas 
2 mandioquinhas médias
4 cenouras
1 chuchu grande
2 carás
2 abobrinhas italianas sem sementes
150 gramas de abóbora kabocha
150 gramas de vagem
sal 
pimenta do reino
2 colheres de sopa de páprica picante
10 sementes de cardamomo
200 gramas de azeitonas pretas grandes
1/2 maço de cheiro verde picado

Para os não vegetarianos
1 peito de frango cozido sem pele e sem osso desfiado
2 linguiças calabreza picadas em fatias
150 gramas de carne de músculo cozida e picada em cubos

Modo de preparar
Deixe o feijão de molho em água por duas horas. Despreze a água, coloque o feijão na panela de pressão, cubra com água e um fio de óleo. Tampe a panela, assim que começar a ferver, conte 5 minutos, desligue e mantenha a panela fechada. 
Lave os legumes, retire a casca e corte todos os ingredientes em cubos de modo a ter uma certa uniformidade de tamanho entre eles. Cozinhe-os todos juntos na água com um pouco de sal, sem deixar que amoleçam. O tempo de cozimento será de menos de 3 minutos após  levantar fervura. Desligue o fogo e mantenha a panela tampada. 
Refogue o alho e a cebola no óleo, acrescente o feijão e os legumes sem desprezar a água em foram cozidos. Se necessário acrescente mais água. Deixe engrossar um pouco, prestando atenção para que não os ingredientes não fiquem demasiadamente cozidos a ponto de desmanchar. Todos os ingredientes deve manter suas texturas embora estejam cozidos.  Acerte o sal, acrescente pimenta do reino, a páprica picante e o cardamomo. Por último, ponha as azeitonas pretas e polvilhe na hora de servir com cheiro verde fresco.

A variação que inclue as carnes se dá no momento de refogar a cebola e alho, hora em que devem ser acrescentadas a linguiça e as carnes de frango e bovina. 

Esse cassoulet adaptado ao paladar da nossa casa, em que alguns são vegetarianos e outros não gostam de bacon, toucinho ou panceta, nem do forte sabor do paio e das partes do porco como pé, orelha e rabo, funcionou perfeitamente. Foi servido com um arroz de sete cereais e couve cortada fininha refogada com cebola. 

Para acompanhar bebemos um Pinot Noir da Borgonha. 

A sobremesa ficou por conta da minha sogra que trouxe um delicioso pudim de leite condensado. Nada mais brasileiro para os netos alemães. Eu também fiz brigadeiros e beijinhos que enrolamos todos juntos, Samya, Yuri, Elfie e eu, numa deliciosa integração culinária no sábado à noite. 

Com muita saudade do meu pai, eu me sentei à mesa ao lado do Sr. Raphael, o patriarca dos Guerriero. Eles, meu pai e ele, não se parecem em nada, mas eu fingi que sim. Só porque não pude ontem levar sequer uma florzinha para enfeitar o túmulo do Sr. Antonio, única homenagem que ainda posso fazer para ele, além das minhas preces e do meu amor eterno. 

Parabéns a todos os pais. 

Bom início de semana a todos! 

sábado, 9 de agosto de 2014

Risoto de abobrinha com queijo brie

Quando a gente volta de uma viagem como a que eu fiz nessas férias demora um pouco para compreender porque alguns produtos no Brasil são tão absurdamente caros.

Ontem fui ao supermercado Pão de Açúcar para comprar umas coisinhas já que teria visitas em casa nesse fim de semana de Dia dos Pais. Meu cunhado veio com a família da Alemanha de férias para cá, rumo ao Pantanal de Mato Grosso. Com escala de voo e família em São Paulo, embarcam na segunda-feira para ver as belezas naturais do nosso Cerrado e tentar apreciar a fauna pantaneira. Enquanto estão por aqui a nossa casa é também a casa deles.

Inevitavelmente comparei os preços de alguns produtos, entre eles, os dos queijos à venda nesse supermercado em relação aos que vimos e compramos durante a viagem, tanto na Holanda quanto na Alemanha. Claro que guardadas as devidas proporções, as conversões de moeda e a origem dos alimentos, aqui teríamos queijos camembert, gouda, brie, roquefort, emmental e outros tantos, com preços mais altos do que na Europa. Contudo, nada justifica o completo absurdo de se pagar R$ 99 (noventa e nove reais) por um quilo de queijo brie, preço que é praticado no Pão de Açúcar sem qualquer pudor.

Eu comprei queijo brie no interior da Alemanha por menos de 7 euros o quilo. Um disparate mesmo se sobre esse valor fossem colocados a conversão da moeda, todos os impostos e mais todo o preço do "glamour" que o brasileiro, especialmente o mediano, se digna a pagar. Ainda pior que isso é notar que a maioria dos queijos vendidos no mercado brasileiro são nacionais, ou seja, são tipo gouda, tipo camembert, tipo parmesão, enfim, não são necessariamente importados. Mesmo assim por eles são cobrados preços acintosamente  vergonhosos. 

Contudo, estudando um pouco de política agrícola internacional, coisa que fiz há muitos anos (hoje em dia sou apenas curiosa), é possível dar um desconto para o produtor nacional. A política agrícola europeia, diferentemente da nossa, valoriza a permanência do produtor rural em seu lugar de origem. Existem subsídios e vantagens para que o produtor rural europeu, não o latifundiário, mas aquele da propriedade média que nasceu no campo e tem um pasto ou uma pequena área de terra plantada com girassois ou trigo, não abandone sua atividade de família. Ao contrário,  ele é valorizado e tem todas as condições para continuar sua produção. 

A Política Agricola Comum (PAC) da Europa tem como objetivo garantir um bom nível de vida à população agrícola e o fornecimento regular com preços razoáveis para o consumidor, com isso visa estabilizar os mercados, sem deixar de se preocupar com o aumento da produtividade da agricultura, sem perder a qualidade. 




Tudo muito diferente do que é feito no Brasil. Aqui, os fazendeiros têm grandes propriedades e são altamente produtivos, mas produzem para exportação. Esses, apesar de reclamarem muito sobre o custo-Brasil, são ricos e fomentam com suas fortunas o consumo de carros caríssimos, roupas de grifes internacionais, bebidas importadas e também de queijos tão caros. Mas, se você quiser comer o queijinho produzido pela dona Maria, aquele que ela faz na sua pequena propriedade, sem escala e sem subsídio, terá que ser um amigo da familia dela para ganhar um ou, caso esse queijo chegue a uma queijaria de São Paulo, vai custar bem caro para o padrão de qualidade oferecido. Isso só para dar exemplo.  Sem contar que para a dona Maria é impossível vender num rede de supermercados, mesmo que regional. O preço que se paga no Brasil para poder ter um produto na gôndola do supermercado é desanimador. Para entrar numa grande rede é preciso suar, dar o sangue e derramar muitas lágrimas. Com o perdão da licença poética, se você tiver um produto e quiser vender no Pão de Açúcar, vão te arrancar o couro!

Diante de toda essa desproporção existente, continuamos na nossa batalha por um ambiente mais saudável nos negócios brasileiros no qual existam melhores oportunidades para os pequenos produtores. 

Sem mais derivações quanto ao assunto de hoje que é risoto de abobrinha com queijo brie, esse foi o prato escolhido para o almoço de ontem, sexta-feira.  Fiz o suficiente para sete pessoas. 

Risoto de abobrinha com queijo brie

Ingredientes
1 cebola média picada em pedaços pequenos
2 colheres de sopa de azeite de oliva extra virgem
1 dente de alho amassado
500 gramas de arroz arbório
3 abobrinhas italianas médias picadas em cubos pequenos (com casca)
1/2 xícara de azeitonas verdes sem caroço picadas
sal 
pimenta do reino
1 colher de chá de açafrão
200 ml de vinho branco seco
1 litro de caldo de legumes (carne ou frango)
200 gramas de queijo brie cortado em cubinhos
200 gramas de queijo parmesão ralado
1 colher de manteiga 

Modo de fazer
Numa panela wok, refogue a cebola e o alho no azeite de oliva, acrescente o arroz arboreo e deixe fritar por cerca de 2 minutos, mexendo sempre. Acrescente a abobrinha e as azeitonas picadas, misture. Tempere com sal,  pimenta do reino e o açafrão.  Em seguida ponha o vinho branco e deixe começar a reduzir, mexendo de vez em quando em movimento para risoto (dos lados para dentro, sem deixar grudar na panela e nem quebrar o arroz). Aos poucos vá acrescentando o caldo e mexendo para dar liga. Quando estiver al dente, caso tenha sobrado caldo, dispense.  Distribua igualmente o  queijo brie por todo o risoto e misture com movimentos delicados para não deixar que o queijo se junte. Desligue a panela, acrescente a manteiga e mexa com movimentos circulares do centro para as laterais. Polvilhe o queijo parmesão e tampe a panela por pelo menos 5 minutos antes de servir. 




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Para acompanhar esse risoto fizemos também uma escarola "abafadinha" (como diz minha mãe) na panela com alho e regada com azeite. 

Minha sugestão para harmonizar é um vinho branco. Tenho preferência pelo Chardonnay, mas um Riesling um pouco mais encorpado pode ser uma boa companhia para o prato. 

O risoto é uma solução interessante de prato único para ser servido em ocasiões diversas, inclusive num coquetel em pé. Nesse caso, pequenas porções servidas em panelinhas com um garfo pequeno do tipo de sobremesa ficará bem charmoso. 

Esse prato é sustante e delicado ao mesmo tempo. No nosso almoço de ontem, decidi por esse risoto porque ele não exige nenhum tipo de carne, já que meus convidados são vegetarianos. 

Na receita original, não é necessário acrescentar o açafrão, mas eu gosto de um pouco de cor nos pratos e também do cheiro, por isso aderi à especiaria. 

Bom fim de semana! 

Aproveitando, duas dicas: faça compras conscientes no supermercado, privilegie o produto regional e não se deixe levar pelo entusiasmo de comprar sempre os importados, muitas vezes ele são caros demais. Produtos de temporada na feira são mais baratos e tendem a ser melhores dos que os que são forçados a amadurecer. 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Autostadt - A Disneylandia da Volkswagen

Na Alemanha, terra na qual os carros são uma grande paixão, tanto quando se pensa na indústria, já que lá estão Volkswagen,  Mercedes-Benz, Porsche, Opel, BMW, Audi, quanto em razão do virtuosismo de pilotos como Michael Schumacher (heptacampeão de Fórmula 1), Sebastian Vettel (tetra) e Nico Rosberg (líder atual do campeonato 2014 de F1), isso só para citar alguns dos nomes mais contemporaneamente conhecidos. 

Não é à toa, portanto, que lá existe um parque completamente voltado a essa declarada paixão nacional, juntamente com a cerveja e o futebol (tratemos de pular essa parte!). 

O local é incrível já que a Volkswagen não poupa esforços e recursos financeiros para garantir que a melhor tecnologia de última geração seja usada para encantar o visitante, visando que sua atenção permaneça totalmente voltada a um só assunto. 









Você deve estar se perguntando: é um parque de diversão? Sim, é também um parque de diversão! Mas, mais que isso é um grande complexo de entretenimento, cultura, gastronomia e convivência, cujo foco são os carros. Tem muitas atrações que envolvem crianças,  embora o principal encantamento se dê com os adultos. São eles que compram carros, afinal.

Alex Candeira, nosso anfitrião e jovem executivo brasileiro atuando na Volkswagen da Alemanha, define o local como o cartão de visitas da empresa.  O parque fica ao lado da grande fábrica da Volks em Wolfsburg (ou Wob), local onde mais de 49 mil pessoas trabalham produzindo mais de 3 mil unidades automobilísticas ao dia. 

Quando planejamos nossa viagem para a Alemanha, nosso roteiro previa dias de visita aos nossos amigos Euzi, Alex e Rafael, em Wob.  Eu, especialmente, não via a hora de encontrá-los. Sabíamos que iríamos à cidade da Volkswagen e pretendíamos conhecer a fábrica de carros mais famosa do mundo pra mim. Eu tinha a imagem das chaminés na minha cabeça. O que não sabíamos era que a Autostadt era tão interessante e que lá passaríamos várias horas divertidas e agradáveis.  




Além de um complexo educativo sobre desenvolvimento sustentável e um museu de automóveis, o Zeithaus Museum, com modelos marcantes de todos os tempos (esse não é o museu da VW, existe um museu pequeno em Wob só da marca - também estivemos lá), há pavilhões específicos para as marcas Porsche, Skoda, Seat, Lamborghini, Volkswagen e o Premium Club House onde está a Bugatti. 




Cada um desses prédios atrai o público com mais e mais tecnologia e bom gosto. Por si só,  são espetaculares tanto em conceito como em construção. Disputam entre si em termos de arquitetura inovadora. Neles, além dos carros-conceito representantes de cada marca e seus shows e atrações sensacionais, está também a oportunidade quase única de transformar sonho em realidade. Ou seja, dá para experimentar ao menos por alguns instantes alguns dos carros. É o imaginário concretizado.  Eu, por exemplo, caí na real totalmente: eu nasci para ter um porsche! 



E não pára por aí.  Na Autostadt também tem um centro de atendimento ao cliente onde é possível comprar carros novos. Caso você compre o seu zero km lá, poderá retirá-lo numa das duas torres de vidro e aço galvanizado de 60 metros de altura que abrigam 400 carros cada. Essas torres são ligadas à fábrica por um túnel subterrâneo de 700 metros por onde os veículos acabados são enviados diretamente da linha de produção por um sistema de correias transportadoras. Quando chegam às torres são levantados por braços mecânicos que giram  a partir de uma viga central para deixar cada carro em sua baia suspensa.  Um jeito no mínimo interessante de realmente pegar um carro com o odômetro marcando zero. 




Só de ver subir e descer os carros, já é uma diversão, mas também dá para subir por um elevador com capacidade para até dez pessoas sentadas que mais parece uma nave futurista até onde está o seu carro no alto da torre. Demais, rapaz! 

Para visitar a Autostadt é preciso comprar um ingresso que custa 15 euros. Nele está incluída também uma visita à fábrica. Essa parte do entretenimento começa com um breve passeio de barco pelo rio Aller (canalizado/retificado na área da fábrica para atendê-la e - diga-se - completamente limpo). Depois os navegantes descem da embarcação e entram num ônibus especial que percorre a linha de produção. No nosso caso, visitamos a do golf. Poderia ter sido na linha de produção do Touareg. Demos sorte de conseguir agendar essa visita guiada em inglês porque só há um horário nessa língua por dia. Todas as demais são visitas guiadas em alemão. O que para mim poderia até ser russo ou grego, tanto faz já que eu não entendo mesmo. 




Na Autostadt, há 10 restaurantes, todos voltados a atender com alta qualidade qualquer das expectativas dos clientes, sejam os que os frequentam como ambientes de negócios ou lazer. Também atendem aqueles que querem apenas uma pausa para um café e os que vão para relaxar ou só para matar a fominha entre as atividades oferecidos no lugar. Para cada restaurante valeria toda uma matéria especial.  Pena que eu só conheci um deles. Entretanto, o que sei e vi é que o nível do serviço e da comida é alto. Os chefs são premiados, a decoração e o ambiente são impecáveis, o atendimento de primeira (embora nem sempre bilíngue) e as opções de comida vão do trivial (como um latte machiatto) a sofisticadas preparações gourmet. No bojo de todo sse cuidado, há lá dentro uma escola de gastronomia para eventos especiais. Para se aprofundar nesse assunto, no site da Autostadt há uma área que traz até receitas sugeridas pelos chefs. Vale a pena dar uma navegada. 

Lá dentro tem também uma padaria,  a Autostadt Bakery: das Brot. Por sinal, eu aprendi (consumindo, graças a Deus, sem culpa!) que os pães são o melhor produto feito na Alemanha. Não há nada igual. Dos que provei, todos estavam deliciosos, desde os mais comuns aos mais sofisticados, tanto os comprados nos locais mais simples como os provados em restaurantes de hotéis de padrão internacional. 

Nessa Disneylandia da Volkswagen, tem ainda uma escola de direção para crianças, uma praça cultural que serve de ponto de encontro, teatro e anfiteatro, cinema, área para shows com concha acústica e espelhos d`água onde anualmente é promovido um show de águas e um largo espaço para passear. À beira do rio tem uma praia, dentro do parque. Também é possível fazer test drives de veículos numa pista especializada. 

O estrelado hotel Ritz-Carlton Wolfsburg fica à direita da fábrica e seu acesso se dá por uma área do parque. 

Como estivemos na Autostadt no verão, algumas atrações especiais estavam rolando. Pudemos navegar pelo rio num barco-deck muito confortável no qual o Silas foi o barqueiro e curtir um bungee jump sentado (de cadeirinha) que balançava por cima do rio. Tudo graças ao sol brilhando e o entardecer da Baixa Saxônia no verão que ocorre lá pelas 21h45. Dias longos ensolarados. Pura curtição! 



Para descrever todo esse complexo empreendimento que junta diversão e negócios seriam necessárias muitas páginas, mas o grande lance é perceber como pode ser construído um belíssimo cartão de visitas. A Volkswagen na Alemanha é ousada, tecnológica, divertida. Diferente da austera unidade de São Bernardo no Brasil, tão fechada, rígida. Certa vez estive lá para uma visita de negócios e fiquei confinada numa salinha de dois por dois metros, sem janelas. Fui atendida tão rapidamente que parecia estar atrapalhando a gerente de marketing que me recebeu. Antes disso, tive que mostrar documentos, passar por um longo processo para fazer o agendamento, apresentando versões detalhadas do assunto da visita, enfim, um saco! 

A austeridade da fábrica na Alemanha está representada nas quatro colossais chaminés que, em última instância, servem como cartão postal da cidade. No mais, a impressão não poderia ter sido melhor, nem mais leve, divertida e saborosa. 


Serviço: 

Autostadt

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Encontros fortuitos e encontros marcados

Ontem escrevi rapidamente sobre o encontro fortuito que tivemos durante a viagem de bicicleta de Amsterdã para Leiden com a adorável professora de gastronomia Suzanne Korevaar. De repente, graças à chuva, paramos no primeiro estabelecimento aberto que avistamos para dar um tempo aguardando que diminuísse o ritmo da pancada e que surpresa boa!

Hoje, um mês exato depois do tal episódio, peguei o cartão que a Suzan me deu e fiz uma pesquisa no site. O Kook Lokaal é o que podemos chamar de estúdio de culinária. Fica entre Kaag & Braasem, duas localidades que formam uma pequena cidade no interior da Holanda. À beira de um canal, na WB Marina, portanto parada propícia para os que têm barcos, numa privilegiada localização em relação a Amsterdã, Leiden e Haia, a escola que também é chamada por eles de taverna é um espaço para aprender a cozinhar, fazer eventos gastronômicos ou festas entre amigos, casamentos, batizados, o que seja.  Durante o ano, eles oferecem um vasto calendário de cursos e oportunidades de convivência. Tudo em torno da gastronomia. 






Acredito que esse é o sonho de consumo de muita gente que lida com comida no Brasil. Um paraíso sonhado por muitos, mas ainda bem distante. Para criar um empreendimento como esse é preciso ter, no Brasil, um belo sócio investidor. Não basta saber cozinhar bem e ter bom gosto. Não sei como é na Holanda, mas não deve ser muito diferente, embora pareça mais fácil, visto de fora, claro. 

O lugar também funciona como restaurante comum e café entre meio-dia e oito da noite. Uma parada facilitada para os barcos atracarem, com estacionamento amplo para carros e uma bela vista das águas do canal e da bucólica vida interiorana holandesa. Para quem pedala ou caminha, o local está entre dois vilarejos muito charmosos, distantes entre si de cinco a oito quilômetros. 

Tirando como base a postura cordial e delicada da Suzan parece que todo o staff é bastante feliz trabalhando no kook lokaal. 

Durante a conversa com ela soube de sua preferência pelos pratos da cozinha mediterrânea e enquanto visitei a cozinha senti o cheiro agradável de massa assando no forno e pude ver uma aluna manipulando uma massa verde que se tornaria uma torta.  Segundo minha anfitriã, na Holanda, os cursos oferecidos de gastronomia têm características semelhantes ao que faço aqui na Unip em São Paulo, são técnicos. Para ela, embora esse tipo de curso seja bem abrangente e dê uma miríade de conhecimentos técnicos aos alunos, não os ensina a ter paladar. Eu concordo com a Susan. Se a compreendi corretamente falta-nos aprender a degustar, experimentar e selecionar o que é bom ao paladar ou não, é o que em inglês se define como "tasting". Em português, as palavras são gosto, paladar, degustação, sabor, experimentar, e eu diria, experienciar.  

Quando viajamos um dos momentos mais críticos que enfrentamos sempre diz respeito à comida. A hora de decidir diante de um cardápio escrito numa lingua que não dominamos o que vamos comer é delicada, isso para dizer o mínimo. É preciso espírito aberto para enfrentar o que pode resultar da escolha feita. 

Há restaurantes que cientes dessa condição do cliente estrangeiro têm cardápios também em inglês. O que, caso você também não seja familiarizado com o menu local, não resolve muito. De modo que resta a escolha entre frequentar restaurantes que ofereçam opções internacionais, que lhe garantem que saberá o que vai comer, ou, em busca da novidade, da experimentação, atrever-se a escolher algo que você não conhece perfeitamente, mas que pode lhe trazer um indescritível novo sabor pelo qual poderá se apaixonar completamente. Uma vez iniciado o processo de se abrir para o novo testando novos paladares, dificilmente você vai querer ficar toda a sua viagem só no que já conhece. Se ficar, perde a chance de ser muito, muito, muito feliz. Tá bom, com as novidades pode ter também alguns desencantamentos. Isso faz parte. 

Lembrei-me agora de uma torta de limão que comi certa vez num café de um clube em Punta del Este. Que sabor inigualável! Nunca havia comido nada igual em toda a minha vida. Nem tampouco consegui repeti-lo depois de deixar aquele lugar em que estive somente por dois dias. Adoraria ter a receita, mas precisaria de uma certa manobra logística internacional para conseguir. Não tenho sequer o endereço do lugar onde estive, por isso acredito que até poderia conseguir a receita, mas o esforço não seria dos mais fáceis. 

Ter encontrado a Suzan, a taverna e a escola de culinária quando esperávamos a chuva passar foi mesmo um momento mágico, uma surpresa fortuita. Comparativamente, foi como a torta de limão no Uruguai, algo novo, desconhecido, mas bem agradável. 

Há também os encontros marcados nas viagens. Aqueles pelos quais aguardamos dias e dias até que cheguem. Foi o aconteceu quando chegamos à Alemanha, em Fallersleben, Wolfsburg, na casa da Euzi e lá nos esperavam ela, o Alex e o Rafael. O que estava previamente agendado, cheio de ansiedade, me deu um prazer tão grande, uma sensação tão familiar de encontrar pessoas amadas, cuja história pregressa nos une com o melhor dos afetos, o amor. 

Ver o Rafa falando uma lingua toda dele e poder entrar naquela comunicação, vê-lo rindo, correndo, brincando, escapando de nós quando menos esperávamos... Encontro marcado para ser feliz. E fomos! 




Sobre essa parte da viagem, terei capítulos específicos. 
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Ah! Devido às novas atividades do semestre, possivelmente, a periodicidade do blog deverá mudar. Estou pensando em escrever dia - sim, dia - não.  

Serviço:

Kook Lokaal - www.kooklokaal.nl - Plantage 87 - 2377AE Oude Wetering - Tel. 085-877 11 18 

domingo, 3 de agosto de 2014

Um dia de bike na Holanda, nem tão fácil como se pensa

O território holandês tem 27% , ou seja, pouco mais de um quarto de suas terras abaixo do nível do mar. Como isso é possível? 

As Holandas são duas, a do Norte e a do Sul, que, na verdade, são duas das províncias dos doze Países Baixos, embora comumente chamemos a todos os que lá nascem de holandeses sem atentar muito para o que achamos que seja um mero detalhe. Detalhes à parte, gigante é mesmo a nossa falta de informação, claro! A capital é Amsterdã e a sede do Governo fica em Haia (The Hague ou Den Haag).  Quem é natural desses lugares deveria ser chamado corretamente de neerlandês, mas para não gerar mais controvérsias continuemos a lembrar disso quando nos referirmos aos holandeses. Ok! 

Cerca de 60% da população dos Países Baixos vive numa área formada por um grande delta, o delta do Reno e Mosa, boa parte do território existe devido a um sistema sofisticado de pôlderes e diques que preserva as cidades controlando a entrada das águas, evitando que fiquem submersas. Quase todo o território está a apenas um metro acima do nível do mar. São, portanto, terras muito planas. O ponto mais alto dos Países Baixos está a apenas 321 metros de altitude em relação ao mar. 

Muitas das cidades contam com lindos canais que são usados para navegação, tanto tranportando mercadorias, como há pessoas cujas residências são barcos. Eles também são usados para levar turistas, como eu, que se maravilham com a oportunidade de poder olhar as construções de cidades tão lindas e majestosas a partir de um ângulo bem diferente.  E claro, sonhar que um dia São Paulo possa ter navegação no Tietê e no Pinheiros também!

O fato de ser uma grande área plana faz com que as bicicletas sejam o mais querido meio de transporte na região e assim o ciclista é prioridade em relação, inclusive, ao pedestre, que dizer dos motorizados ônibus, bonde e do carro. Esse último quase não tem vez. 

Por isso tudo, decidimos que, como gostamos muito de bikes, parte da nossa viagem seria feita nesse tipo de veículo. 

Alugamos duas magrelas em Amsterdã ao preço inicial de 15 euros ao dia cada, mas como ficaríamos vários dias esse valor diminui facilitando a vida do ciclista. Também é preciso fazer um seguro, que não é caro.  Somados os valores, por três dias, duas pessoas, pagamos algo em torno de 80 euros. O preço de nos sentimos muito felizes e eu diria mais: completamente livres porque a sensação de liberdade que nos dá uma bicicleta, desde que somos crianças, é inigualável. Esse prazer só é possível pedalando e ele aumenta ambiciosamente quando você coloca uma mochila nas costas na qual estão apenas poucas peças de roupa e alguns víveres e toma rumo! Nenhum outro veículo proporciona essa leveza e facilidade, é felicidade! Quem anda de bicicleta sabe do que estou falando. 




Sendo assim, terreno todo plano e as bicicletas como companheiras, deixamos Amsterdã no domingo, 6/julho, de manhã, rumo a Leiden, uma cidade cerca de 35 quilômetros distante da capital. 

Fora o fato de que não tínhamos um mapa em mãos, tínhamos um GPS novinho em folha que o Silas ainda não sabia usar direito e no qual não estava registrado o nosso trajeto. Mas isso não é significativo, afinal. Nada de preocupação porque naquele país todos os caminhos contam com ciclovia. Não há lugar para onde se vá e não exista um lugar especial para que a bicicleta deslize. Isso para o holandês é algo comum. Tão comum quanto nós de São Paulo termos trânsito na capital. Além disso, nas estradinhas, beirando lindos e bucólicos canais, a cada 300 metros no máximo, há um mapa informando onde você está e com as direções para onde ir ou voltar. 



Fácil, não?  Nem tanto. 

A direção que escolhemos tinha um aeroporto no caminho: o Schipol. Um dos mais movimentados da Europa e o 9o. mais usado do mundo. Nos últimos dias, infelizmente, ouvi-se muito falar dele devido ao voo que decolou de Amsterdã rumo a Kuala Lumpur, na Malásia, e foi derrubado na Ucrânia, matando 298 pessoas. 

A extensão do Schipol é bem longa e, como não pode deixar de ser, é um grande descampado e venta muito! O passeio bucólico por campos verdes iria, portanto, demorar um pouco mais para começar. Só depois que vencêssemos grande parte do perímetro do aeroporto. Até então com um sol bem quente nas nossas cabeças. 





Isso demorou umas três horas inevitáveis.  Depois paramos, fizemos um piquenique no caminho e seguimos viagem. Para mim, não estava sendo muito divertido, não. Tenho que confessar que ficava sempre muito atrás do Silas, que é um pedalante recorrente, diferentemente de mim. Isso me fazia ter que acelerar para alcançá-lo. E ele, por sua vez, tinha que me esperar pedalando devagar como eu e depois precisava ler os mapas. Ele ama mapas! Não houve um só em todo o caminho que ele não tenha verificado. Se eu o alcançava, tinha que parar para saber se o caminho estava correto, mesmo que naquele momento eu estivesse no embalo. 

Contra mim ainda veio o vento. Soube depois de já ter feito os 54 km, que foi a distância percorrida nesse domingo a que me refiro, que pedalar contra o vento pode ser muito pior do que pedalar na subida. É mais pesado muitas vezes. 

Minhas pernas doíam muito! Eu sentia frio todo o tempo. Quando eu achava que nada poderia piorar porque o vento não desanimava em nos empurrar para o lado contrário ao que queríamos ir, começou a chover. Ui! Dureza, gente, dureza! Amar é isso. Vamos lá! 

No meio da jornada, quando a chuva começou, paramos e encontramos um oásis. Entramos numa propriedade que parecia um restaurante e era. Lá, fomos recebidos por uma mulher muito simpática que nos viu pedalando e logo nos acolheu. Ofereceu água e conversa vai, conversa vem, ela me disse que dava aulas de culinária ali mesmo. Eu contei a ela sobre o curso de Gastronomia e minha atual paixão e ela então me levou para conhecer sua linda cozinha, toda colorida, cheia de vida, de cheiros, de sabores. 





O nome dela é Susan. Conversamos um pouco sobre o privilégio que ela admitiu ter por viver ali e ter um restaurante e uma escola de culinária mediterrânea, numa estrutura tão agradável à beira de um canal maravilhoso onde estavam atracados barcos lindíssimos e obviamente muito caros. O lugar era simplesmente sensacional. Eu adorei a Susan. Falamos também dos queijos produzidos na Holanda e quão rica é a culinária brasileira. 

Um dedo de conversa depois, precisávamos voltar à ciclovia e seguir rumo a Leiden. 

Embora o caminho tenha tido vastos campos de trigo, de milho e de girassóis, além dos moinhos, marca registrada da Holanda, eu não consegui curtir. Esse foi um dia muito difícil da viagem pra mim. Quando chegamos a um hotel já em tempo de anoitecer (note-se que é verão na Europa e anoitece perto das 22 horas por lá nesse período do ano) numa cidade ao lado de Leiden, graças a uma informação incorreta que nos foi dada, eu queria tentar me secar, me esquentar, tomar um super dorflex para diminuir a dor nas pernas, comer algo e desmaiar na cama. 





No dia seguinte, haveria mais viagem de bicicleta. Deus haveria de me ajudar a conseguir vencer mais essa. E ajudou mesmo. Depois conto essa parte. A segunda-feira foi ensolarada, Leiden é uma cidade linda, linda, linda. A mais bonita que visitei na Europa nessa viagem. 

À parte, preciso contar brevemente o episódio da chegada na cidade no domingo no fim da tarde. Na Europa, especialmente em cidades pequenas, domingo não é dia de trabalho. As lojas, graças a Deus, não estão todas abertas. São respeitados o descanso e o lazer das pessoas no domingão. Então, como além disso ainda estava chovendo, não havia pessoas nas ruas para perguntarmos sobre uma hospedagem. Foi esse o motivo de entrarmos completamente molhados num café todo chique repleto de senhoras finas tomando o chá das cinco em belas xícaras cheias de design. Todas - digo, todas mesmo! - as pessoas se viraram para nós. Parecia cena de novela, mas éramos extraterrestres enxarcados entrando num recinto inapropriado. Que vexame! Agora dá até pra rir, mas na hora... vou te contar! Teve mais um episódio além desse, mas esse foi o pior. 

Enfim, conseguimos chegar num hotel Ibis, ao lado de um MacDonald's, que o Silas nem viu, tamanha era a pressa de sairmos da chuva. Ali nos instalamos. Nessa noite, eu tomei uma sopinha de tomates, muito comum na região. Foi gostoso!

Como eu estava com o Silas, valeu a pena! Para dizer a verdade, apesar de tudo, eu faria de novo! 

Por isso é que embora nem tão fácil como se pensa, um dia de bike é sempre memorável na Holanda.