quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Pensar a alimentação, impressões

Em tempos de transição na vida, quando a gente dá um tempo para pensar em que quer fazer daqui pra frente e de que jeito pretende fazer, se ficar parado, nada rola, mas se der uma breve olhada em volta, acaba se envolvendo com assuntos diversos, arejando a cabeça e abrindo espaço para milhões de ideias. 

Por conta dessa minha fase, ontem e anteontem, estive no Seminário Alimentação Hoje - Entre Carências e Excessos, no Sesc Belenzinho. Para quem acompanha o blog, na terça, já compartilhei algumas informações a que tive acesso durante o evento. Entretanto, o que mais me interessa compartilhar no momento são impressões, muito mais do que meramente informações. 

Entre as minhas impressões, me pareceu que, no Brasil, o lado nutricional do  imenso universo da comida, diferentemente da Gastronomia que tem ares de moda passageira para alguns (não pra mim), está consolidado. Há articulação e planejamento entre os profissionais dessa área que estão bastante envolvidos inclusive com as políticas públicas que se referem à segurança alimentar e nutricional. 

Também me impressionou que venha sendo observada uma evolução positiva na administração dos principais problemas elencados por esse setor que não são poucos. Para dar uma ideia, questões relativas à fome endêmica, a desnutrição ou o aumento da obesidade, a  rotulagem de produtos, as legislações que permitem o abusivo uso de açúcar e sódio nos refrigerantes e sucos de caixinha, a publicidade sedutora de "besteiras" para comer, a alimentação nas escolas, a produção de transgênicos e outros tantos exemplificam as preocupações e ocupações desses profissionais. Mas, pelo que vi, há encaminhamentos para que esses assuntos sejam solucionados. Parece mesmo que há otimismo e atitude nas pessoas que lidam com esses entraves. Muito bacana de ver. 

Outro ponto de destaque é o preparo e a articulação dos participantes convidados para os paineis dos dois dias em que participei do seminário. Sem exceção, não houve gente mal preparada nas mesas. Ponto muito positivo para os que desenharam o encadeamento e a ementa do evento. Eu que fiz isso durante anos, me vejo bastante tranquila para julgar esse quesito. Foi tudo feito com muito profissionalismo. 

Entre as apresentações de ontem, o meu maior interesse estava focado na questão da identidade cultural da comida no Brasil, o último painel do dia. Pois não deixou a desejar. A participação do crítico da Folha de São Paulo, Josimar Melo, como mediador funcionou bem, mas numa mesa como aquela em que falaram Joana Pellerano e Mara Salles, respectivamente, jornalista professora de Gastronomia e História do Senac e cozinheira dona do restaurante Tordesilhas, nada tinha mesmo como dar errado. O debate foi de altíssimo nível. Nessa mesa, também estava Bela Gil, que tem feito um bom trabalho ao ensinar a cozinhar na GNT.

Joana é estudiosa, sabe conceituar e explicar a comida como cultura de maneira didática tornando compreensíveis os aspectos simbólicos das refeições, indo muito além do nutricional. Já Mara Salles é cozinheira e chef de cozinha envolvida em projetos de educação para pessoas que cozinham no dia a dia, ela transita habilmente nos ambientes gastronômico e da pesquisa alimentar, já que tem um restaurante reconhecidamente de qualidade nos Jardins em São Paulo e nem por isso deixa de pesquisar Brasil adentro a realidade da comida do país.  

Não deixando passar a oportunidade de mencionar outros excelentes momentos entre os muito bons que tive durante o seminário, perguntei ao palestrante Enrique Jacoby, representante da Organização Panamericana de Saúde em Washington, sobre o papel do gastrônomo no cenário da alimentação da América Latina. Ele respondeu que a contribuição desses profissionais é importantíssima para que a qualidade do alimento seja valorizada, uma vez que os chefs não admitem trabalhar com produtos abaixo de um determinado padrão. E, segundo ele, isso nada tem a ver com alimentos bonitos e uniformes produzidos em larga escala, mas, principalmente, com diversidade, valorização regional dos ingredientes e prevalência de sabor. Para exemplificar, mencionou que no Peru, a Associação de Gastronomia foi diretamente responsável por uma moratória de dez anos para a entrada de alimentos transgênicos no mercado consumidor.  

Em resumo, depois de ouvir Jacoby, minha avaliação é que temos ainda mais uma frente como profissionais da gastronomia que vai ainda além da preservação da comida como patrimônio em nosso país, que é a busca pela melhor qualidade alimentar em todos os níveis e isso se dá pelo nosso envolvimento nas questões de produção, mercado e consumo. Ou seja, fui ao seminário certo. 

Há ainda que se falar do Sesc Belenzinho. Um desses oásis que a gente descobre nesse deserto urbano em que vivemos. É bem público que sou fã do Sesc, mas o espaço ali é, de verdade, encantador. Amplo, funcional, leve. Um modelo de espaço bem criado e desenvolvido para a convivência plena de pessoas. Não sei quantas pessoas atende por dia ou por mês, mas com tantos recursos disponíveis acredito não sejam poucos os paulistanos e visitantes que se beneficiam da estrutura todos os dias. Sensacional mesmo. 

Só pra fechar o texto sobre as impressões que tive, a primeira foi a emoção que senti logo que cheguei. Os organizadores do evento prepararam uma recepção amável aos participantes. Havia no terceiro andar, no hall de entrada do salão, um casal, ele tocando violino e ela distribuindo breves excertos de textos da doceira Cora Coralina. Cada pessoa podia se aproximar e sortear um, como fazemos com aquele periquitinho que lê a sorte. O meu foi o seguinte: 
Sou mais cozinheira do que escritora, sendo a culinária a mais nobre de todas as Artes: objetiva, concreta, jamais abstrata a que está ligada à vida e à saúde humana






Chorei. 

Até amanhã.  

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Alimentação Hoje - Entre carências e excessos

Cá estou eu no Sesc Belenzinho entre encantada e apaixonada pelo espaço, que é tudo de bom, quem não conhece deveria conhecer (eu que nunca venho para esses lados de São Paulo, estou amando!), no Seminário Internacional ALIMENTAÇÃO HOJE - Entre carências e excessos, que vai de hoje até quinta-feira. Três dias inteiros para tratar de um assunto que diz respeito a todo mundo. Todo mundo mesmo porque afinal todos comem.

Sem me estender demasiadamente só queria registrar algumas informações que anotei e sobre as quais, pertinentemente nesse período, é válido refletir. Não são informações do Governo Federal, é bom dizer. São da FAO, que é o organismo internacional da ONU para agricultura e alimentação (ou comida).


Segundo o palestrante Alan Bojanic, da FAO, "o mundo está olhando para a redução da fome no Brasil". De acordo com o Relatório Mundial sobre Insegurança Alimentar (a sigla é SOFI), nós aqui das terras tupiniquins saimos do mapa da fome em 2014, o que significa que agora temos menos de 5% de famintos no Brasil. Para a organização, os países que chegam a um índice abaixo de 5% deixaram de ter um problema endêmico, entretanto, o desafio é manter esse número e erradicar definitivamente a fome. Há 10 anos, éramos 13% de brasileiros sem acesso à alimentação adequada, ou seja, com fome!

Em 2050, seremos 9,1 bilhões de pessoas no planeta e é estimado um crescimento 70% urbano. Dá pra pensar nisso? Se não dava, é bom achar que agora dá. Porque é gente pra caramba!

É fato que o problema da fome é o maior de todos os problemas solucionáveis do mundo. O que é produzido seria suficiente para todos os cidadãos. Entretanto, os grandes desafios em relação à alimentação são: como dar acesso para todas as pessoas aos alimentos produzidos; como melhorar a distribuição e como garantir o direito humano à alimentação.

Eu mencionei acima que o mundo está de olho no Brasil em função da redução da fome por aqui. Esse olhar está direcionado ao que chamamos de fatores de sucesso que levaram o país a essa nova condição. O primeiro em destaque diz respeito ao compromisso político com a erradicação da fome e da miséria numa bandeira controversa chamada Fome Zero levantada pelo presidente do país à época, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula conseguiu colocar a questão da fome em termos políticos, tema que era tratado como técnico até então. Foi ele também o responsável pelo aumento real do salário minímo e pelo programa de "1 milhão de cisternas", para tentar resolver a seca do semi-árido nordestino.

Além disso, houve, claramente, no Brasil, o envolvimento de diversos atores:  Governos, sociedade civil, setor privado e o meio acadêmico para que fossem articulados movimentos para reduzir a fome.

Em termos políticos, houve avanços e uma grande predisposição: além do Bolsa Família, 19 ministérios formam um comitê interministerial para combater a fome no Brasil. Ou seja, as decisões de cada ministério, bem ou mal, estão articuladas entre si e levam em conta a questão da fome no Brasil.  Além disso, a alimentação nas escolas é fundamental em todo o processo.

Dado que o modelo de produção de alimentos no mundo, incluindo o nosso do Brasil,  não é sustentável, como fazer para aumentar a produtividade para garantir o atendimento das demandas do futuro? A resposta é o crescimento vertical da produçao sustentavelmente.

Em resumo, parece simples. Para alimentar o mundo, há recursos, mas é preciso mais tecnologia adequada e menos nociva ao meio ambiente, mobilização política e vontade cidadã.  Fácil? Nenhum um pouco.

Agora à tarde tem mais. Até amanhã!

Em tempo: o seminário faz parte da comemoração dos 20 anos do programa Mesa Brasil - Sesc São Paulo, uma iniciativa vencedora. Vale um capítulo exclusivo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Massimo Ferrari e Domenico "Mimmopizza"

De caráter gastronômico e viajante, o Blog da Gavioli é um exercício prazeroso (sem perder a seriedade) praticamente diário de observar, pesquisar, se envolver e então escrever sobre assuntos que pipocam na vida da gente. Vamos então falar de eleições?

Não.  Dado que o voto é secreto e as mídias sociais deram espaço a todos para publicarem suas escolhas, racismos e preconceitos, hoje aproveito para mudar de assunto, já que tenho um episódio alegre e de muito aprendizado para compartilhar.

Na sexta passada, na Unip, tivemos a grata oportunidade de receber no laboratório de Alimentos e Bebidas, o alegre e sorridente Massimo Ferrari, que trouxe consigo o chef pizzaiolo Domenico, ou Mimmo, como o chamam, um profissional nota 10 diretamente de Milão.

Com o perdão da licença poética, pizza é comida internacional. Quem não conhece no mundo? Quem não gosta?  Se houver exceção é só mesmo pra confirmar a regra. No Brasil, mais ainda em São Paulo, pizza é uma paixão nacional.

Quando vim do interior para morar em São Paulo, em 1993, aprendi que paulistano tem loucura por pizza e que no domingo à noite sair para ir à pizzaria já foi um entretenimento obrigatório de muitas famílias.

A visita foi programada pelo coordenador do curso de Gastronomia, o professor Rodrigo Stolf e o modelo pretendido era o de palestra com degustação. Como palestrante, o chef Mimmo, e para traduzir da língua italiana, Massimo Ferrari. Depois, o chef com a ajuda de alguns dos nossos colegas de turmas mais avançadas nos serviu o resultado de sua longa experiência no mundo das pizzas!

Mimmo deu uma aula, ainda que breve porque todo público estava ansioso pelos preparos, sobre água, sal, fermento e farinha de trigo, os ingredientes indispensáveis para a massa da pizza. Surpreendente para muitos que uma comida que parece tão trivial em todos os bairros de São Paulo tenha tanta  sabedoria embutida para que seja realmente de boa qualidade e excelente paladar.

Domenico Mimmopizza Todisco, na Unip


Para o chef, que também participou na semana passada da 3a Semana Regional de Comida Italiana em São Paulo, de 18 a 25 de outubro (conforme eu divulguei na coluna Fast Food ainda em setembro), além dos bons ingredientes e do conhecimento necessário para combiná-los de acordo com a temperatura do ambiente, a boa pizza deve manter o equilíbrio perfeito entre massa e cobertura. Não se privilegia um ou outro jamais sob pena de estragar o produto final e o paladar.

A noite foi encantadora também porque Massimo Ferrari é um desses homens moldados para a delicadeza de bem receber. Um senhor a quem os suspensórios caem bem porque completam o estereótipo que temos do mafioso buona gente que vemos nos filmes da little italy de Nova York. Ele, pessoalmente, é dessas pessoas a quem não falta elegância,  simpatia e generosidade. Além do que é um italiano em essência, muito passional diante de uma plateia jovem a quem ele se dedicou em atender com palavras de estímulo e esperança na profissão. Uma graça!

No Brasil, quando prevemos um engodo, a gente tem o hábito de dizer que "tudo acaba em pizza". A noite de sexta é a prova de quem nem sempre isso é ruim. Neste caso, eu sou só elogios!

Nossos agradecimentos, portanto, ao Massimo Ferrari, ao chef Domenico e ao professor Rodrigo Stolf pela oportunidade.  E às queridas amigas Simone Exposito e Gabriela Kanashiro pelas fotos. As aqui publicadas são da Simone!
Massimo Ferrari, eu e chef Mimmo 

Obs: Para quem tem preguiça de pesquisar, Massimo Ferrari é o mesmo do lendário restaurante Massimo da Alameda Santos nos Jardins em São Paulo que fechou no ano passado. Ele atualmente é dono do restaurante Felice e Maria, no bairro do Itaim, ou, se preferir, aquele da Pizza do Faustão. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Economia criativa

Não é segredo que eu sou louca por comidinhas do tipo finger food. Sou adepta de receber em casa e que costumo, seja qual for o evento, inserir em parte dele o estilo coquetel informal. 

Ontem, estive no estúdio da eduK em São Paulo, no curso Cardápio para Buffet Infantil com a chef patissier Janaína Suconic

A experiência foi ótima porque além de rever estúdios de televisão que me fizeram lembrar e até sentir saudades do tempo em que fui coordenadora de produção na antiga rede Mulher, bem no início da minha vida profissional, tive a chance de ver de perto a atuação e a criatividade da professora Janaína. 

Que não estranhem a minha colocação os que sabem que sou aluna dela no curso de Gastronomia, mas em sala de aula, digo na cozinha laboratório, são os alunos os que cozinham sob a supervisão e o acompanhamento dos professores. Lá na Eduk, a Janaína executou todos os pratos, com habilidade e destreza invejáveis. 

Foram 16 preparos feitos em quatro horas. Não é pouco! 

Composição da mesa com os preparos

Águas saborizadas e drinks sem álcool



Embora o tema tenha sido o cardápio para buffet infantil, muitas das receitas e combinações são perfeitas para adultos. A maior parte delas é simples de fazer, mas tem um toque de sofisticação, o que eu chamaria de uma delicadeza essencial para quando se vai receber em casa.  

Acho que a Janaína acerta porque consegue alinhar criativamente a simplicidade de um preparo com o charme de uma boa apresentação e isso faz muita diferença. 

Talvez por conta do meu olhar, penso que tudo o que vi ontem, pode ser plenamente adaptado para comida de boteco, coquetel, brunch, aperitivo ou entrada e até mesmo para uma cesta de piquenique (exceto os fritos). Vou por em prática logo, logo. 

Quando cheguei no estúdio fiquei perplexa com a quantidade de material e ingredientes que estavam ali pré-organizados pelas profissionais que trabalham com a chef para que tudo transcorresse como um reloginho sincronizado. E foi isso exatamente o que aconteceu durante as quatro horas em que estive acompanhando na bancada de convidados o espetáculo criado para o público online e ao vivo. Embora a diretora do programa parecesse estressada (o que é recorrente nesses profissionais, sempre aturdidos e demonstrado excesso de seriedade) em alguns momentos a atuação da chef Suconic e de suas ajudantes mais parecia um balé sincronizado em que todo o corpo de baile sabe perfeitamente a marcação e a hora de entrar em cena. Se algo deu errado, não ficou evidente. Até porque uma das coisas que mais me agrada nos cursos da eduK é que os professores, mesmo sendo profissionais renomados e reconhecidos em suas atividades, não parecem celebridades, parecem gente falando com gente. De maneira que cabem na tela e no programa os pequenos desacertos que podem ocorrer na cozinha de qualquer um. Não que isso tenha ocorrido ontem, como já disse antes. 




Hoje tem mais. Serão apresentados os preparos de massas, saladas e doces para o cardápio de um buffet infantil. Isso porque a proposta é oferecer diferenciais para quem trabalha nessa área. 

Prometo publicar uma receita de doce e uma de salgado que eu tenha testado, mas pra isso preciso de alguns dias, já que os próximos estão lotados de atividades. Fica a promessa de que serão os preparos que eu mais tiver gostado. 

Não quero encerrar sem mencionar o quanto acho criativo e importante o que a eduK oferece. Sem dúvida isso é educação para o trabalho. Tem muita gente no Brasil inteiro acessando gratuitamente conteúdos online que, se postos em prática com as devidas adaptações para a realidade de cada um, podem mudar para melhor a vida das pessoas tanto financeiramente como em termos de autoestima e realização. Isso tudo compõe o que eu chamo de economia criativa. 

Bom fim de semana!  No domingo, vote consciente. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Temporada de Saladas

Este ano de 2014 tem sido muito atípico. Janeiro começou quente e sem chuva ao contrário do que sempre acontece aqui pela região sudeste.  Assim permaneceu o tempo durante todos os demais meses com alguma variação, claro. Mas puxando aqui os dias pela memória, no período da Copa do Mundo estava bem quente também. Nada de casacos pesados e cobertores muito quentes. Tudo mais ou menos para meia estação. 

Entretanto a primavera chega em setembro e com ela aquela vontade de ser verão. As árvores florescem, deixando tudo mais colorido nas cidades. O sol passa a  nascer mais cedo e se vai mais tarde, por isso já é regra que na noite do terceiro sábado para domingo do mês de outubro aumentamos uma hora no relógio. Começa o horário de verão que vai até o terceiro fim de semana de fevereiro do ano seguinte. 

Junto com isso, vem aquela disposição de comer de um jeito mais saudável. Aquela permissividade que a gente tem no inverno de ingerir mais calorias para ficar quentinho dá espaço para uma vontade de alimentos crus e refrescantes. Essa é a hora das saladas, entradinhas leves com terrines, patês e dos grelhados para os que nunca dispensam carnes ou peixes. 

Já faz muito tempo que as saladas se tornaram queridinhas das pessoas, principalmente, porque quase todo mundo quer ficar magrinho e bonito como nos impõem os padrões de beleza que nos são bombardeados todos os dias nas mais diversas mídias e publicidades. Independentemente disso, já vai longe o tempo que as saladas eram sinômimo de comidas sem gosto ou difíceis de comer. 

Eu sou uma comilona declarada, mas adoro salada. Por isso, desenvolvi várias combinações juntando algumas informações importantes que aprendi com o tempo e a reeducação alimentar que fiz com uma profissional maravilhosa lá de Itu, a dra. Roberta Cassani, há cerca de 10 anos. 

Um prato saudável não significa que terá elementos sem sabor, muito ao contrário. 

A partir de hoje e em algumas edições do blog vou me dedicar às saladas. Minha proposta é que, conforme forem sendo apresentadas as receitas e as combinações, alguns conceitos sobre como funcionam determinados alimentos no nosso organismo serão também mencionados. Espero que gostem.  

Para desmistificar o mundo maravilhoso da comida saudável com sabor, começaremos com vegetais que normalmente são muito facilmente encontrados nos supermercados, sacolões e em quitandas. Assim não tem desculpa para não tentar. O resultado pode ser supreendentemente bom.   

Para os que são veementemente contrários às folhas verdes, aos legumes crus e às oleaginosas sugiro tentar, quem sabe dá certo? 

Salada para iniciar

Importante: A porção de salada sugerida serve como uma refeição completa prescindindo de outros acompanhamentos. As medidas são caseiras para facilitar. 

Ingredientes
- 1 pires de rúcula
- 1 pires de alface crespa
- 1 colher (chá) cenoura ralada 
- 1/2 tomate fatiado em meias rodelas ou gomos
- 1 castanha do pará picada em lascas
- 1/2 pires de manga fatiada em julienne
- 1 colher de ricota temperada ou chancliche 
- 1 colher de azeite extravirgem
- 1 colher de aceto balsâmico ou suco de meio limão
- sal e pimenta do reino

Montagem
Faça uma caminha com as folhas verdes, por cima distribua a cenoura ralada. Monte os tomates e os pedaços de manga nas laterais. Polvilhe a castanha do pará e a ricota temperada. Tempere com azeite, aceto, sal e pimenta do reino. 


Nessa salada estão presentes fibras (folhas verdes), vitaminas (manga, tomate, cenoura), proteína (ricota) e selênio (castanha). O azeite extravirgem ajuda a reduzir o colesterol ruim (LDL) do organismo. Os elementos combinados dão saciedade suficiente para que a próxima refeição seja feita em 2 horas e meia ou 3 horas, ou seja, junto com a salada iniciante, iniciam-se também as refeições frugais a cada 3 horas. Isso é saúde!

Outras dicas e sugestões

Monte a salada em porções individuais. Se possível, use uma louça bonita, de preferência a mais elegante que tiver. Caso não tenha, use o que tem, mas monte a mesa completa, mesmo que seja só pra você. Faça da mesma forma com os talheres, copos e guardanapos. Por quê? Porque o momento de fazer uma refeição deve ser agradável. A gente não come só com a boca e para encher o estômago. Comer é um ritual que pode ser maravilhosamente bem aproveitado. Afinal, quem é mais importante que você para merecer uma mesa arrumadinha e uma refeição bem preparada? Costumamos dar mais valor às visitas do que a nós mesmos. Manter itens especiais para dias especiais é bem legal, mas já pensou que hoje pode ser um dia muito especial porque você está com você? 

Pense também na possíbilidade de comprar um ou dois pratos diferentes, talvez coloridos com alguma estampa mais arrojada, um xadrez, um folhagem, se lá! O que você gostar. Eu tenho todo um jogo de pratos rasos, fundos e de sobremesa comprados separadamente, um trio de cada vez. Até juntá-los, fiz assim: a cada mês eu comprava um de cada da mesma estampa, no mês seguinte mudava para outra padronagem. De modo que não pesou no orçamento conforme fui comprando. Quando recebo vários amigos e não tenho louça igual para todos, lanço mão dessa estratégia: sirvo em pratos totalmente desparceirados. Eles são bonitos individualmente e cada convidado fica com um diferente. É até lúdico. 



Eu penso que mudar a louça ou usar um jogo americano diferente à mesa, muda também o astral da refeição. Dá mais sabor, alegra a mesa e a vida. Tudo de bom!



sábado, 18 de outubro de 2014

Um desjejum à francesa: croque monsier

Depois de uma sexta-feira de muito calor e despedidas de pessoas muito queridas como Ian, Pablo e Julia, cada um seguindo seu caminho, seja voltando de férias para casa ou indo para mais uma etapa delas, fui para a faculdade e assunto é que não faltava entre os colegas.

Entre os hot topics, estava o episódio que vivemos juntos, Talita, Fernandes, Sandro e eu, na quinta-feira ao sair da aula de Técnicas de Cozinha. Estávamos no carro, eles de carona comigo, e em plena Marginal Pinheiros o meu veículo foi perdendo potência e parou de funcionar: pane seca!  Foi uma loucura. Acho que poucas vezes na vida estive diante de uma situação tão estressante. 

Ficamos mais de meia hora em pé em cima da muretinha ao lado do muro da raia da USP, aguardando o Silas chegar com um galão de gasolina. Isso porque nessas horas ficar dentro do carro é ainda muito mais perigoso porque pode vir um veículo em alta velocidade e atropelar o carro parado. 

Enquanto estivemos ali, a polícia parou. Desceram dois policiais com armas bem assustadoras em punho e vieram na nossa direção. Não para ajudar, mas para tirar satisfação. Especialmente porque não parece ser responsabilidade da polícia a segurança pública nessa cidade e nesse estado. Lamentável! A atitude dos policiais foi preconceituosa, uma vez que nosso colega Fernandes é negro. É melhor eu nem me deter nesse episódio para não sentir ainda mais raiva diante da "proteção" que temos com nossos policiais numa situação crítica como essa. Mas tudo pode piorar. Quando eu disse ao policial que estava com medo de ficar ali e que precisava de ajuda, ele me disse: 
- A senhora tem seguro do veículo? Ligue para o seu seguro para vir guinchar o seu carro. 
Ao que eu respondi: 
- Sim, posso ligar, mas os senhores me dão proteção até que o seguro chegue. 
Ele respondeu: 
- Nós estamos com um preso na viatura e não temos como ajudar. Isso é ainda mais perigoso do que ficar aqui esperando o resgate. É melhor saír do carro e chamar o seguro.
E foram embora!

Logo que o carro parou e identificamos que por falha do marcador o nosso problema era falta de combustível, o Sandro heroicamente saiu cominhando pela Marginal para buscar gasolina. Isso fez dele, diga-se de passagem com muita justiça, um dos protagonistas da história que vivemos juntos. 

Contar para os colegas de forma engraçada no dia seguinte, faz com que a gente entenda que ultrapassou a barreira do coleguismo com algumas pessoas e que agora nos transformamos em amigos. Como disse o Sandro, essa é uma história que vamos levar para sempre da nossa trajetória juntos na faculdade. Agradeço muito aos três: Tali, Fernandes e Sandro, vocês foram demais, obrigada!

Outro assunto era a prova da Higiene, cuja melhor nota da sala foi do Fernandes, que recebeu aplausos de todos os colegas de sala. Parabéns, querido! 

Aula reservada para revisão de prova significa chegar cedo em casa e isso me deu a ideia de preparar um croque monseir para lancharmos, Silas e eu.  Eu fiz adaptações na receita, usando ingredientes que tinha em casa, mas o resultado deu certo. 

Croque Monsier é um nome francês dado ao sanduíche de queijo e presunto quentes cujo pão "estala nos dentes" (faz croc! quando é mordido). A tradução de monsier é senhor. Assim... é o senhor sanduíche de presunto e queijo crocante.  Também existe o croque madame, mas esse fica para outra ocasião, mas só pra não haver confusão, o madame leva ovo frito com a gema mole. Outra delícia dos franceses, ah! como sabem fazer comida... 

Vou dividir a receita. 

Croque Monsier

Ingredientes

1 ovo inteiro
2 colheres de creme de ricota
noz moscada
sal e pimenta do reino
6 fatias de pão de forma integral ou de grãos
3 fatias de presunto 
3 fatias de muçarela 
50 gramas de queijo gruyere ralado
2 colheres de ricota defumada picante ralada 

Modo de fazer

Bata o ovo inteiro com o creme de ricota. Tempere com sal, pimenta do reino e noz moscada.  
Numa assadeira de bolo inglês untada com manteiga, coloque três fatias de pão e regue-as com a mistura recém-preparada do ovo e do creme de ricota. Coloque as fatias de presunto e muçarela uma sobre cada fatia de pão. Por cima ponha o queijo gruyere (eu pus também tomates cereja - só uma adaptaçãozinha básica). Cubra com as demais fatias de pão e regue o restante do creme, de modo a umidecê-las também. Cubra com a ricota ralada e leve ao forno pré-aquecido até que os queijos se derretam completamente e o pão fique crocante. 

Uma observação importante a ser feita é que a ricota e o tomate não existem na receita original. E eu usei queijo gouda e um pouco de gorgonzola, no lugar do gruyere, mas deu certo. Ficou bom. 

Hoje pela manhã, o que sobrou virou meu breakfast, bem no estilo francês. Gostoso demais! 



Desejo um ótimo fim de semana a todos e aproveito para dizer que tenham muito cuidado com o abastecimento de combustível em seus veículos. Pode ser muito arriscado parar na via pública por falta de gasolina. E além de tudo, isso é passível de multa prevista na legislação de trânsito. 

Em tempo: reduza racionalmente  o quanto puder o consumo de água, ela está acabando. 



terça-feira, 7 de outubro de 2014

O encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas


Uma questão de hospitalidade - 2 


Santarém e a primeira lei da hospitalidade


Fiquei em dúvida sobre o título desta publicação. Uma vez que em 3 de setembro dei o título Uma questão de Hospitalidade ao texto que se referia ao que considero o "bem receber em casa", ou seja, a hospitalidade no espaço doméstico, hoje, eu bem que poderia entitular esse post como Uma questão de hospitalidade 2. Assunto que rende ainda muitos capitulos. 

Preferi dar título à situação que me levou a querer refletir sobre o que é hospitalidade.  Por isso, o encontro dos rios Tapajós e Amazonas foi escolhido. 

O encontro das águas


Na segunda-feira da semana passada (29/09), estávamos em Santarém, no Pará, por ocasião de um trabalho que o Silas foi chamado para fazer na Ufopa - Universidade Federal do Oeste do Pará. 

Imbuído da mais genuína generosidade, Anselmo, o vice-reitor, nos proporcionou um dos fins de tarde mais sensíveis que um anfitrião poderia promover diante de seus recursos disponíveis - que não eram poucos, mas, como verão, não tem muito a ver somente com questões econômicas e financeiras. Outrossim, a experiência que tivemos,  tem a ver com dádiva. Por defínição do dicionário, dádiva é um substantivo feminimo para o ato ao ação de oferecer, voluntariamente, alguma coisa valiosa a alguém.  Na literatura da hospitalidade, a dádiva desencadeia o ciclo de dar-receber-retribuir, e é, portanto, a primeira das seis leis da hospitalidade. 

Quando me referi aos recursos disponíveis, Anselmo é dono de um catamarã - uma embarcação com dois cascos, no caso dele, com propulsão a motor, que tem considerável estabilidade e pode atingir uma velocidade razoável durante a navegação. 

Além disso, Santarém é banhada pelo rio Tapajós, de águas cristalinas e areia branca e é ainda na faixa costeira dessa cidade que esse rio se encontra com o Amazonas, de águas barrentas.  

No período de estiagem nessa região, a natureza promove entardecederes cheios de luz que refletidas nas águas oferecem um lindo espetáculo ao por do sol. 

Pois bem, os recursos não eram poucos: uma embarcação, os rios, o sol, o entardecer... Porém, sem a dádiva do Anselmo, não haveria passeio. Foi ele quem nos concedeu a oportunidade de navegar no fim da tarde para vermos de perto o encontro das águas.  Isso é hospitalidade. Olhar para o visitante, perceber que há algo de si que pode ser ofertado, organizar seu tempo e seus recursos e oferecer de coração uma grande e memorável experiência.

Certamente, o Anselmo, que nem me conhecia, não tinha a mais vaga ideia do quanto eu sonhava ver o encontro das águas. Desde que ouvi pela primeira vez numa aula de geografia a descrição da professora sobre como as águas dos dois rios se encontram e não se misturam por muitos quilômetros, percorrendo lado a lado sem que haja a fusão de suas cores, devido a suas densidades diferentes, eu sempre tive a maior curiosidade de ver isso de perto. Além do que, pra mim, o rio Amazonas é mitico. Quase uma entidade e como tal deve ser respeitado. Chegar perto, ver, por os pés em sua água, foi para mim com um ato religioso, uma benção.
Nas águas do rio Amazonas

Em resumo, foi um sonho realizado que promoveu em mim uma profunda sensação de gratidão. Fiquei muito emocionada. Pode parecer exagero, especialmente para os que consideram isso pouco. É certo que para muitas pessoas, é só mais um rio, são águas que estão ali disponíveis como tantas outras. Não pra mim. É difícil por em palavras sentimentos tão profundos que têm significação histórica ou ideológica. No meu caso, estou certa de que o símbolo foi tão bem construído que permaneceu e não foi desfeito mesmo diante da realidade, ao contrário, teve amplo significado, gerou emoções e um forte sentimento de pertencimento a essa "Pátria, mãe gentil". 

Como diria minha amiga Fabíola:  "foi incrível, incrível!" Tudo graças ao sentido inato de hospitalidade do homem santareno, indivíduo que pertence ao povo paraense. 

Já que o assunto é a hospitalidade, cabe dizer que o estado do Pará, no que se refere à dimensão pública, preenche com louvor o quesito RECEBER, uma vez que é cheio de praias de rios de livre acesso aos visitantes e moradores.  Quanto a HOSPEDAR, Santarém tem uma rede hoteleira que precisa ser melhorada, receber um banho de profissionalismo, o que atrairia muitos mais visitantes de segunda viagem. A gastronomia local é farta de peixes e opções regionais, o que garante o bem ALIMENTAR mesmo sem renomados chefs de cozinha e amplas estruturas em restaurantes sofisticados.  E entretenimento não parece faltar em Santarém, já que o espírito hospitaleiro vem do berço de sua população. 

Se tiver oportunidade, vá ver o encontro das águas do Tapajós com o Amazonas, espero que você receba a mesma dádiva que nós, Silas e eu, recebemos. Estamos desta forma prontos para retribuir o presente recebido e assim reinstaurar a dávida da hospitalidade, perpetuando o ciclo dar-receber-retribuir, que ora estudamos. 

Em tempo: estiveram conosco nesse passeio de catamarã alguns professores da Ufopa, que, como eu, não são paraenses e, tiveram nessa ocasião a oportunidade de ver também de perto todo esse esplendor. Um grande e afetuoso abraço a esses novos amigos! 

Companheiros de viagem pelo Tapajós/Amazonas

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tarefa de casa: frango desossado e recheado

Eu e meus colegas de classe fomos incumbidos na aula de Cortes de Carnes e Aves de repetir uma lição que tivemos em sala de aula, digo, na cozinha. Era nossa tarefa para ser entregue no máximo hoje ao professor Sérgio Teixeira Leite: desossar um frango inteiro, rechear e assar.

A técnica de desossa aprendemos e executamos no laboratório da faculdade. Só que o professor estava por perto, o frango estava descongelado, parcialmente limpo e sem os miúdos dentro. Tudo isso favorecia circunstancialmente nosso trabalho. Em casa já é bem diferente. Mas acho que deu certo. Nesse momento, está no forno assando. Vou saber mais tarde se o sabor ficou bom ou não. 

Quanto ao recheio, embora em aula tenhamos recebido uma receita, podíamos ousar e criar um preparo ao nosso modo ou até mesmo buscar uma outra receita já conhecida. 

A seguir a minha receita à qual dei um nome. Claro, é uma prática ou uma mania minha dar nomear às coisas. Sendo assim, nas receitas então, eu posso! 

Teixeirinha ou frango colorido do professor Sérgio

Ingredientes

Para o frango
1 frango inteiro limpo e em temperatura ambiente
Sal 
Pimenta do reino
Suco de 1/2 limão tahiti

Para o recheio
2 colheres de manteiga sem sal
100 gramas de cebola picada 
1 dente de alho amassado ou em fatias
1 cenoura média ralada
1 abobrinha italiana média ralada (só a parte sem semente)
1 pimentão vermelho pequeno picado
100 gramas de azeitonas verdes picadas 
150 gramas de ricota fresca
sal, pimenta, orégano e cheiro verde desidratados o quanto baste
suco de limão

Modo de fazer

Desosse o frango mantendo-o inteiro. Não deixe a pele arrebentar. Tempere com sal, pimenta do reino e o suco do limão. Reserve.  
Recheio: Numa panela, refogue a cebola e o alho na manteiga. Junte a cenoura e a abobrinha raladas e em seguida o pimentão e a azeitona cortados em brunoise*. Coloque os temperos e refogue tudo por cerca de 3 minutos. Tire do fogo e acrescente a ricota esfarelada. Mexa bem e deixe esfriar um pouco. 
Em seguida, pegue o frango desossado e temperado e recheie-o com abundância. Feche as extremidades do frango com palitos, se achar necessário. Depois de recheado, ponha-o numa assadeira forrada com papel aluminio untado com um fio de azeite ou óleo. Coloque pedaços de manteiga gelada sobre o frango antes de assar. Leve ao forno em temperatura de 180 a 200 graus por cerca de 1h15. 

Algumas fotos do Teixeirinha de acordo com suas etapas de preparo: 
Recém-desossado, prestes a ser temperado
Recheio colorido do frango

Recheado e espalhado na forma



Entrando no forno


Assado


Dá pra ver a fumacinha de tão quente

Servido

No prato

Na barriga! Humm... uma delícia. Comi! 

A seguir reproduzo um vídeo sobre como desossar o frango que encontrei no youtube. Parece fácil devido a habilidade do apresentador. Eu tive mais dificuldades, confesso. E além disso, retirei também os ossos das asas e das coxas. 






*Brunoise - nome dado ao corte em formato de cubo minúsculo de 3mm x 3mm x 3 mm. Ou seja, 27 mm cúbicos. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ah, o Pará! Eu estive lá

Terra de índio que fala corretamente português


Batizada com nome português, Santarém é uma cidade grande (300 mil habitantes) onde a cor das pessoas é linda: cor de índio. Que inveja eu tenho dessa pele bonita, dessa carne dura e desses olhos amendoados e negros como jabuticabas. 

Fiquei lá bem pouco tempo e deu pra ver como apesar das dificuldades de uma região que ainda é pobre (na nossa definição comum de pobreza), não existe coitadismo por ali.  O olhar das pessoas é firme seja para quem for e o que eu senti é que não há servilismo naquela terra, o que independe de generosidade e solicitude, dois bons substantivos abstratos para quem quer definir um povo hospitaleiro. 

Barcos de passageiros e pesqueiros em Santarém


Ganhei do Silas para ler durante a viagem que seria longa (e foi) o livro do Mia Couto, E se Obama fosse africano? , e digo que nada poderia ter sido mais propício para resumir o meu olhar durante minha breve permanência de quatro dias na região amazônica do que foi esse presente.  Lá pela página 103, encontrei o trecho que reproduzo a seguir: 
Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não leem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.



Não fui para ver a praia de Alter de Chão, que é linda, sem dúvida, uma joia do rio Tapajós com areia branca e água doce e quente para tomar banho.  Fui em busca de aventura e conhecimento do que é o Brasil, por curiosidade e oportunidade. Fui para ver de perto o rio Amazonas, sonho antigo, comparável a conhecer Roma, Paris, Foz do Iguaçu ou o Cristo Redentor. Voltei melhor, então valeu a pena. 

Dá para escrever capítulos longos de impressões, cheiros, cores e emoções. Hoje, como só tenho aqui comigo fotos do meio da viagem, escrevo sobre um pedaço da minha aventura que está mais para o fim do que para o começo dela. 

Na segunda-feira, depois de passar o fim de semana em Alter do Chão, estávamos em Santarém. O Silas foi cumprir o trabalho que nos levou até lá e eu fiquei no hotel sozinha com o dia todo para pesquisar e aprender aquela cidade.  

Lá pelas dez da manhã, perguntei na recepção do hotel se havia um ônibus que me levasse de onde estávamos até o mercado municipal porque eu sabia que esse seria um lugar que me traria experiências interessantes. A resposta foi a mais feliz. "Sim, bem aqui em frente, atravessando a rua, passa o Liberdade. É só perguntar ao cobrador o ponto mais próximo para descer bem perto do mercadão". 

Foi o que fiz. Descobri, não sem antes perguntar novamente para dois rapazes na rua em frente onde poderia pegar o ônibus, o ponto que não tinha placa ou qualquer tipo de sinalização. Uns 15 minutos de espera e subi pela porta de trás, diferente de São Paulo onde se sobe pela frente, no Liberdade. Pedi à cobradora, uma índia muito sisuda, se poderia me indicar o ponto mais próximo ao mercado para que descesse. Ela ascendeu a cabeça me mandando sentar com um simples olhar informando-me que me avisaria sem balbuciar uma só palavra. 

Entre tranquila e curiosa percorri 35 minutos o trajeto do ônibus até que vi novamente o prédio do hotel onde eu estava hospedada. A mulher me havia esquecido. Fui até ela e só naquele momento vi um sorriso que escapava um dente lateral brilhando uma ponte prateada, sinal de algum constrangimento por ter se perdido em sonhos e esquecido o pedido da passageira turista. Ela me disse que eu teria que dar outra volta.  Fiquei então ao lado dela e a cada cinco minutos eu a olhava indagando se não me havia esquecido novamente. 

Desci ao lado do mercado depois de ter deixado o hotel há mais de uma hora. Não perdi meu tempo, se é o que parece. Ao contrário, eu comecei a me sentir um pouco local, já que circular mais de uma vez pelo mesmo lugar me fez localizar onde estavam alguns pontos-chave. Eles me seriam úteis para que, caso eu não tivesse ajuda ou informação, pudesse voltar caminhando para o meu ponto inicial. 

Nas ruas de Santarém, corre esgoto a céu aberto em valas ao lado do meio fio. Algo entre chocante e fétido, o cenário não é nada hospitaleiro, nem agradável para quem vive lá ou para quem visita. As calçadas são estreitas, os ônibus e carros não respeitam muito a sinalização de parada que é quase inexistente, e o sol é incessante, não dá trégua em hora alguma do dia no período da estiagem. 

Pela primeira vez, eu permaneci alguns dias em local de clima equatorial. Diferente do tropical no verão apenas na umidade que é constante. Nem bem você terminou de tomar um banho refrescante em chuveiro frio (lá é atrativo dos hotéis os chuveiros quentes!) e já está suando e grudando. Graças ao ar condicionado, é possível tomar uns 30 choques térmicos por dia sem muito esforço. Sem reclamação alguma, o clima é quente! De dia e de noite. 

Voltemos ao mercado, um prédio cheio de lojinhas sem ordem definida sobre para que lado devem abrir suas portas, se para a direção da calçada ou pra dentro. Algumas são de um jeito, como as de roupas, viradas para a rua, outras de outro, como as dos vendedores de garrafadas, voltadas para onde passam pessoas que procuram farinha, frutas, peixes, camarões ou remédios para qualquer tipo de mal. 

Uma característica interessante é que o complexo de lojas que compõem o mercado municipal de Santarém mistura lojas empoeiradas de pé direito baixo fechadas por grades ou alambrados e espaços mais amplos com pé direito bem mais alto onde se distribuem os vendedores de frutas, legumes, verduras e farinhas de mandioca e de peixe. Há também um outro prédio conjugado com pequenos boxes azulejados onde se vende peixe fresco. Entre um lugar e outro ficam os vendedores de camarões que tanto podem ser secos, como limpos, mas não são frescos porque se fossem deveriam estar na área de azulejos onde escorria água e tinha gente de uniforme lavando com mangueira. 


Boxes de peixeiros

Camarões


Bem perto dali, atravessando a avenida da orla, bem à beira do rio, um prédio grande e vazado para que se tenha a brisa vinda da movimentação da água a que chamam Feira de Peixes, vende o que foi recém trazido do rio Tapajós: surubim, tambaqui, tucunaré, pirarucu e outros tantos fresquinhos, suculentos. Como eles dizem por lá, peixes lisos, que são os que não têm escamas. 


Feira de peixe, Santarém

Douradas sobre tucunaré

Na tábua do corte, costela de tambaqui

Próxima ao peixeiro, surubim. Em frente, diversos



Dei uma volta pela feira, fiz umas fotos, ainda um pouco tímida, perguntei algumas curiosidades sobre os peixes e a farinha feita deles para os vendedores, e voltei para o prédio do mercado. 

Chama a atenção o uso da farinha de mandioca nesse local. Há muitos comerciantes desse produto que é subdividido em diversos tipos dependendo do uso que se pretende. Eu vi uns 20 tipos diferentes, entre brancas e amarelas, finas e rugosas, leves e pesadas. Depois de vencer a timidez, me aproximei de duas jovens que compravam um dos tipos e perguntei para que servia. Uma delas me olhou com carinho e me explicou rapidamente usos diferentes para mingaus, para comer pura, para engrossar ensopados e molhos, para fazer bolo, tapioca, beiju... A outra me olhou de cima abaixo como se visse um extraterrestre. Deve ter pensado como alguém pode não conhecer uma simples farinha de mandioca. Conhecimentos e sabedorias diferem mesmo, é assim que é. Não me senti diminuída, mas me vi criança diante daquela sabedoria e me lembrei de outro trecho do livro do Mia Couto, quando ele fala de infância: 
... A infância não é um tempo, não é uma idade, uma coleçao de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis  para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar. 
Eu senti que não é "demasiado tarde" para aprender sobre as farinhas. 

Farinha de peixe

Variedade de farinhas de mandioca



Lá pelo meio do caminho, ouvi vozes com sotaque estrangeiro que anunciavam uma atração entre as frutas. Uma artista de circo subiu na banca de abacaxis e fez um espetáculo com bambolês. Surpreendente para uma feira a meu ver. Os homens que eram a maioria daquele lugar pareceram gostar do rebolado da estrangeira que habilmente jogava e dançava com as argolas que a ajudavam na performance atraindo olhares de cobiça. 


Performance com bambolês sobre a banca de abacaxis



Não poderia deixar de contar o episódio na grande banca das garrafadas. Estava eu com olhar curioso lendo os rótulos pregados em garrafas pet de coca-cola, outros em garrafas de vidro, alguns manuscritos, outros feitos no computador, alguns ainda já mais industrializados, quando chega um senhor e pede ao dono da barraca algo para impotência. O rapaz vai logo dizendo que tem excelente elixir e que vai resolver todos os problemas daquele cidadão. No meio da venda, vira-se para mim e pergunta com firmeza: 

- A senhorita quer mel puro de abelha? 
E eu respondo: 
- Não. Só busco informação. 
E ele, prontamente, me diz algo como: 
- Sim, eu tenho! Para inflamação, coisa de mulher? Tenho, sim, isso resolve qualquer mal relacionado a ciclo de mulher. 
E já foi pegando uma garrafinha pequena com rótulo industrializado com um desenho do aparelho reprodutor feminino ilustrando o vidro. Eu, por minha vez, tentei esclarecer que só buscava informação sobre as garrafadas.  E ele então devolveu o vidrinho para o seu local de origem e continuou a atender o tal homem que queria curar-se da impotência. 

Garrafada para "inflamação de mulher"


Fui me afastando quando percebi que ali tinha mais encenação para fazer a turista com cara de jornalista de máquina fotográfica em punho prestar atenção na conversa, do que realidade e busca de remédio para impotência.  Saí de perto pensando que os homens, diante de uma mulher desconhecida, agem mesmo como tolos muitas vezes. Não sei se eu é que fui preconceituosa, mas foi como senti a situação. De todo modo, tem garrafada que cura qualquer mal, de insônia a câncer.  Tenha o elixir apenas eficácia simbólica ou nem isso, está lá disponível dentro do vidro, pronto para quem quiser pagar entre dois e cinquenta ou cem reais. O preço vai depender do freguês.





Fiz uma lista de palavras para pesquisar quando parei diante de uma grande banca com saquinhos contendo lascas de árvores, chás, folhas de matos cheirosos, frutos secos e sementes. Entre as palavras estão: cafuasu, capeúba, uxi amarelo, jucá, andiroba, envirataia, jureia, barba limão, escada de jabuti, sacacá, sucuba, pau tenente, saracura mirá, carapana ubá, asaçu, imburama, jurema, mururé, unha de gato, juá e sucupira.  Trabalho não me falta. Mas devo recorrer à Neide Rigo, do blog come-se que, mais dedicada que eu aos nomes científicos e às eficácias desses elementos, esteve no Pará há pouco tempo e publicou informações detalhadas sobre plantas e ervas que encontrou na região. 

Depois desse passeio pelo mercado e de tantos cheiros, cores e sensações, parei na lojinha de produtos feitos de palha: cestos, potinhos, porta-joias, fruteiras, descansos de panelas para mesa, sousplats, bolsas, enfim, coisas bonitas de ver, empoeiradas e que, nem tão baratas atualmente por aquelas bandas, ainda são bem mais em conta do que quando são encontradas em lojas em São Paulo, como Etna e Tok&Stok. Certo é que são objetos produzidos pelos indígenas que têm bom gosto e funcionalidade para o dia-a-dia. 

Quando terminava minha compra, o telefone tocou e era o Silas, dizendo que ele e um pessoal da Ufopa - Universidade Federal do Oeste do Pará - me buscariam para almoçar. Terminou meu tempo no mercadão de Santarém, mas não as minhas emoções dessa segunda-feira, anteontem. 

Por hoje, paro por aqui com um trecho um pouco modificado que escrevi rapidamente para a Euzi numa troca de emails me referindo ao que vi nas pessoas que encontrei nas ruas de Santarém: 
Eu estive no Pará. Fiquei entre perplexa e feliz com a atitude deles lá. Preconceito meu, eu achava que lá entre o Pará e o Amazonas onde eu estive, as pessoas teriam uma aura de coitadismo que muitas vezes vemos nos nossos conterrâneos nordestinos. Ledo engano. Eles são o Brasil de fato e direito e sabem bem disso. Falam um português correto, bem pronunciado. São hospitaleiros. Comportam-se como cidadãos (apesar dos que também são preconceituosos demais com os paulistas brancos como eu e aumentam os preços dos peixes e da garrafada, há também os que jogam latinhas vazias pelo vidro do carro) e sabem que estão em cima do ouro mais ouro de todos: a água. A gente que não os respeite e eles dão de ombros para a nossa pseudo-sabedoria mais livresca e televisiva. Eles, apesar da pobreza das cidades, vivem no paraíso e lá é quente pra caramba!