terça-feira, 7 de outubro de 2014

O encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas


Uma questão de hospitalidade - 2 


Santarém e a primeira lei da hospitalidade


Fiquei em dúvida sobre o título desta publicação. Uma vez que em 3 de setembro dei o título Uma questão de Hospitalidade ao texto que se referia ao que considero o "bem receber em casa", ou seja, a hospitalidade no espaço doméstico, hoje, eu bem que poderia entitular esse post como Uma questão de hospitalidade 2. Assunto que rende ainda muitos capitulos. 

Preferi dar título à situação que me levou a querer refletir sobre o que é hospitalidade.  Por isso, o encontro dos rios Tapajós e Amazonas foi escolhido. 

O encontro das águas


Na segunda-feira da semana passada (29/09), estávamos em Santarém, no Pará, por ocasião de um trabalho que o Silas foi chamado para fazer na Ufopa - Universidade Federal do Oeste do Pará. 

Imbuído da mais genuína generosidade, Anselmo, o vice-reitor, nos proporcionou um dos fins de tarde mais sensíveis que um anfitrião poderia promover diante de seus recursos disponíveis - que não eram poucos, mas, como verão, não tem muito a ver somente com questões econômicas e financeiras. Outrossim, a experiência que tivemos,  tem a ver com dádiva. Por defínição do dicionário, dádiva é um substantivo feminimo para o ato ao ação de oferecer, voluntariamente, alguma coisa valiosa a alguém.  Na literatura da hospitalidade, a dádiva desencadeia o ciclo de dar-receber-retribuir, e é, portanto, a primeira das seis leis da hospitalidade. 

Quando me referi aos recursos disponíveis, Anselmo é dono de um catamarã - uma embarcação com dois cascos, no caso dele, com propulsão a motor, que tem considerável estabilidade e pode atingir uma velocidade razoável durante a navegação. 

Além disso, Santarém é banhada pelo rio Tapajós, de águas cristalinas e areia branca e é ainda na faixa costeira dessa cidade que esse rio se encontra com o Amazonas, de águas barrentas.  

No período de estiagem nessa região, a natureza promove entardecederes cheios de luz que refletidas nas águas oferecem um lindo espetáculo ao por do sol. 

Pois bem, os recursos não eram poucos: uma embarcação, os rios, o sol, o entardecer... Porém, sem a dádiva do Anselmo, não haveria passeio. Foi ele quem nos concedeu a oportunidade de navegar no fim da tarde para vermos de perto o encontro das águas.  Isso é hospitalidade. Olhar para o visitante, perceber que há algo de si que pode ser ofertado, organizar seu tempo e seus recursos e oferecer de coração uma grande e memorável experiência.

Certamente, o Anselmo, que nem me conhecia, não tinha a mais vaga ideia do quanto eu sonhava ver o encontro das águas. Desde que ouvi pela primeira vez numa aula de geografia a descrição da professora sobre como as águas dos dois rios se encontram e não se misturam por muitos quilômetros, percorrendo lado a lado sem que haja a fusão de suas cores, devido a suas densidades diferentes, eu sempre tive a maior curiosidade de ver isso de perto. Além do que, pra mim, o rio Amazonas é mitico. Quase uma entidade e como tal deve ser respeitado. Chegar perto, ver, por os pés em sua água, foi para mim com um ato religioso, uma benção.
Nas águas do rio Amazonas

Em resumo, foi um sonho realizado que promoveu em mim uma profunda sensação de gratidão. Fiquei muito emocionada. Pode parecer exagero, especialmente para os que consideram isso pouco. É certo que para muitas pessoas, é só mais um rio, são águas que estão ali disponíveis como tantas outras. Não pra mim. É difícil por em palavras sentimentos tão profundos que têm significação histórica ou ideológica. No meu caso, estou certa de que o símbolo foi tão bem construído que permaneceu e não foi desfeito mesmo diante da realidade, ao contrário, teve amplo significado, gerou emoções e um forte sentimento de pertencimento a essa "Pátria, mãe gentil". 

Como diria minha amiga Fabíola:  "foi incrível, incrível!" Tudo graças ao sentido inato de hospitalidade do homem santareno, indivíduo que pertence ao povo paraense. 

Já que o assunto é a hospitalidade, cabe dizer que o estado do Pará, no que se refere à dimensão pública, preenche com louvor o quesito RECEBER, uma vez que é cheio de praias de rios de livre acesso aos visitantes e moradores.  Quanto a HOSPEDAR, Santarém tem uma rede hoteleira que precisa ser melhorada, receber um banho de profissionalismo, o que atrairia muitos mais visitantes de segunda viagem. A gastronomia local é farta de peixes e opções regionais, o que garante o bem ALIMENTAR mesmo sem renomados chefs de cozinha e amplas estruturas em restaurantes sofisticados.  E entretenimento não parece faltar em Santarém, já que o espírito hospitaleiro vem do berço de sua população. 

Se tiver oportunidade, vá ver o encontro das águas do Tapajós com o Amazonas, espero que você receba a mesma dádiva que nós, Silas e eu, recebemos. Estamos desta forma prontos para retribuir o presente recebido e assim reinstaurar a dávida da hospitalidade, perpetuando o ciclo dar-receber-retribuir, que ora estudamos. 

Em tempo: estiveram conosco nesse passeio de catamarã alguns professores da Ufopa, que, como eu, não são paraenses e, tiveram nessa ocasião a oportunidade de ver também de perto todo esse esplendor. Um grande e afetuoso abraço a esses novos amigos! 

Companheiros de viagem pelo Tapajós/Amazonas

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