domingo, 22 de fevereiro de 2015

Itu, uma viagem

Já faz tempo que não falo de viagens, não porque não goste de falar, mas é que nesse mês de fevereiro a ideia era mesmo ficar aqui por São Paulo, sem o stress do período do Carnaval nas estradas. 

Nem por isso escapamos de ficar algumas horas entre São Paulo e Itu. É que ir pra Itu, pra mim, não é viagem. É ir pra casa da mãe. No domingo passado, no entanto, estivemos por lá. 

Soa um pouco estranho fazer um relato de viagem de um lugar que pra mim é completamente comum. Mas Itu é uma cidade turística, embora seus moradores e governantes não prezem muito por essa sua característica. 

Para a prefeitura de um município, tornar-se uma estância turística significa que receberá incentivos (aporte financeiro) do Governo Estadual. No entanto, para que se torne estância turística é preciso preencher alguns requisitos como condições de lazer, recreação, recursos naturais e culturais específicos. Além de dispor de infraestrutura turística. 

No Estado de São Paulo, há 32 estâncias turísticas, 15 balneárias, 11 hidrominerais e 12 climáticas. A cidade de Itu está na primeira categoria, principalmente em função de seu caráter histórico, suas igrejas e casarões e, também, da pedreira de varvito. 

Fundada em 1610, pelos bandeirantes  Domingos Fernandes e Cristóvão Diniz, a cidade já teve grande importância histórica no Brasil. Nos primeiros anos, logo após sua fundação com a construção da igreja da Candelária (onde hoje é o Bom Jesus), serviu como  entreposto comercial na rota de mineração vinda de Goiás e Mato Grosso em direção ao litoral. Depois se tornou importante devido à cana-de-açúcar e, mais tarde, pelo cultivo do café. Até 1935, muitos barões do café tinham propriedades na região. 

Politicamente, em 1822, Itu fui declarada por D. Pedro I como "A Fidelíssima", por apoiar o movimento da Independência do Brasil. Ainda no século 19, foi lá que ocorreu a primeira "Convenção Republicana", que levou à proclamação da República em 1889.  Era um ituano o primeiro presidente civil do Brasil, Prudente de Morais. 

Essas lembranças, quase passam desapercebidas de quem nasce e cresce na cidade, exceto pelo fato de que, na escola, quando se inicia o aprendizado de geografia e história dos municípios, as crianças tenham acesso a essas informações. Como isso ocorre numa tenra idade na infância, nem sempre se atribui a importância devida ao que fica na memória. Talvez esse seja o motivo de os cidadãos ituanos não terem muito apego ao seu passado histórico. Destruir prédios e desfazer fachadas centenárias da cidade é só uma questão de oportunidade para seus proprietários, salvo exceções bem definidas. 

A ideia de progresso fez com que a cidade sofresse um retrocesso na manutenção de seu patrimônio cultural, o que não é um privilégio somente de Itu no estado de São Paulo, mas lá, isso fica mesmo muito evidente. Em menos de 40 anos, a cidade destruiu seus casarões e casas de taipa de pilão para erguer prédios comerciais sem qualquer charme, apenas com a funcionalidade de render aluguéis aos proprietários cujos imóveis estão habitados por instituições como Itaú, Bradesco, Lojas Pepê, Casas Bahia e outros. 

Na contramão dos fatos, a legislação ituana não prevê a retirada de outdoors e nem medidas padrão razoáveis para placas de identificação e propaganda nas fachadas. Isso torna ruas e avenidas, entre elas as centenárias Floriano Peixoto e Santa Rita, uma espécie de bazar a céu aberto de extremo mau gosto, depondo muito contra a beleza da cidade. Como diria Caetano: "a força da grana que ergue e destroi coisas belas". 

Anos de descaso político fizeram com que no ano de 2014, a cidade sofresse um trauma irreparável com a falta d'água. Para dar alguma dimensão das cenas desoladoras que a população enfrentou é preciso recorrer ao cinema. Mad Max, filme cuja trama se desenvolve num futuro em que a população guerreia por itens básicos de sobrevivência como a água, é um comparativo do que ocorreu em Itu no ano passado. A iminência dessa catástrofe voltar a ocorrer é um fantasma rondando os moradores uma vez que as obras de infraestrutura previstas para evitar que o problema recorra não estão andando. 

Como não conheço o prefeito, imagino que não seja ituano. Sinto que sua relação com a cidade é pautada no cargo que ocupa e não numa alma cidadã que faz com que nós, ituanos,  mesmo à distância, tenhamos orgulho inclusive do nosso sotaque arrastado e caipirão porque é isso que somos. 

Nem mesmo uma população devastada pela crise hídrica e com anseios de progresso, pode tirar o charme da "cidadezinha das pracinhas", como dizia uma antiga chefe que eu tive. Itu é cheia delas. É possível dizer que para cada igreja católica, há uma pracinha, ou quase. Como são muitas igrejas, já que Itu também tem o título de "Roma Brasileira", o número é mesmo significativo. 

Para quem não conhece e só ouviu falar de Itu como a "cidade das coisas grandes" pode pensar que o grande atrativo do turismo é só baseado nos objetos de tamanho gigante como o orelhão, o semáforo, os sorvetes e as peças de souveniers pelas quais as crianças ficam encantadas.  Mas, não. 



Devotos e andor de Santa Rita
Em Itu tem procissão de tudo que é santo: Santa Rita (a que mais atrai devotos), Santo Antonio, São Judas, São Benedito, Corpus Christi (essa com tapete nas ruas), Nossa Senhora da Candelária, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora Aparecida, além das procissões do período da Páscoa: procissão de Ramos, do enterro de Cristo e, também do Encontro de Nossa Senhora com o Cristo Redentor. Só isso, além de religioso já é bem turístico, pode acreditar, porque depois das rezas tem também barraquinhas e quermesse. Os andores são enfeitados de um jeito bem tradicional e há comissões de religiosos que cuidam de tudo. Muito interessante, para dizer o mínimo. 

Também foi lá na cidade, na rua Barão do Itaim, que foi feita a primeira carta de intenção para que o Brasil deixasse de ser império e passasse a república. Por isso, tem um Museu Republicano, que é da USP, como o Museu Paulista (do Ipiranga), na casa que foi do barão. Um pedaço do passado do país está ali, naquelas mesas, cadeiras e paredes. 
Matriz da Candelária, à esquerda o semáforo de Itu
Teto da Matriz de Itu

Nas igrejas tem um patrimônio de arte sacra comparável ao patrimônio das igrejas de Ouro Preto. Só que é o melhor do barroco paulista em lugar do barroco mineiro. Só na Matriz da Candelária, além da arquitetura e das esculturas barrocas, tem ainda as pinturas de Jesuíno do Monte Carmelo e também quadros de Almeida Jr.  




Pra mim, as igrejas do Carmo, do Bom Jesus, São Benedito e Nossa Senhora do Patrocinio, são daqueles lugares históricos e culturais que mereceriam a mesma preservação da Capela Sistina. Exagero? Ora, por que não merecem? Só porque somos brasileiros? 
Teto da Igreja do Carmo, de Jesuíno do Monte Carmelo

Na minha adolescência, em frente à minha casa, abrindo a janela, havia uma pracinha: a Almeida Júnior. É controversa a sua existência para mim. Tem dias que a vejo como um privilégio da juventude. Em outros, nela se refletem o descaso e a ignorância da minha gente lá de Itu. A praça é morada de mendigos, inclusive com barraca armada e uma velha brasília na garagem em frente à porta. 

Mas há compensações: o Museu do Quartel está bem preservado, a fachada da Casa Imperial também e agora temos um museu da música, salvo me engane, onde morava o Luiz Roberto, do Coral Vozes de Itu. 
Casa Imperial


De todos os meus lugares preferidos em Itu dois são intocáveis: o colégio Patrocínio, onde antes podíamos entrar pra visitar o túmulo de Madre Maria Teodora, e a Biblioteca Pública, na esquina do becão com a rua Paula Souza, antigo colégio Cesário Mota. Eu me referi a esses lugares como intocáveis porque temo tocá-los e saber que não existem mais como são na minha memória. 

Ainda na lista dos intocáveis: a Associação Atlética Ituana, o Convenção, o Regente e a igreja Redentorista. 



Pedreira do Varvito, foto Itu.com.br

Ainda falta falar da Pedreira do Varvito, que agora é Parque Ecológico; da Fábrica São Luiz (a primeira tecelagem do Brasil), dos campings e pesqueiros e das fazendas como a Capuava e a do Limoeiro da Concórdia, da amiga Débora Nunes e do Seu Clemente. 






Itu tem também bons restaurantes (todo mundo conhece o Bar do Alemão), numa das fazendas vende chocolates, pó de café gourmet e doces de frutas como goiabada, bananada e figada.  Na Praça Padre Miguel (a da Matriz) tem uma doceria chamada Senzala, onde paquerei e fui paquerada pela primeira vez e o prédio do Ituano Clube. 

Mas por lá como em São Paulo, tem Extra, Pão de Açúcar, Carrefour, Tenda, Dia, Walmart e Plaza Shopping. É o consumo que a consome, pobre cidade de minha infância.

Sobre o patrimônio imaterial: a barraca de doces da festa de Santa Rita; o benzimento de garganta no dia primeiro de fevereiro, dia de São Brás; a música do maestro Elias Lobo, as estórias mal contadas de Simplício, a lembrança do palhaço Pimentinha, o estouro do Judas, a comida da minha mãe, a geleia da minha avó, a memória da rua do Patrocinio na casa do Seu Gildo e dona Géssia... 

Entre as novidades, algumas nem tão novas assim, o kartódromo e os grupos de bike, são os que me lembro de bate-pronto. 

No link Itu dá pra encontrar os pontos turísticos a serem visitados na cidade. Que cada pessoa, turista ou não, possa olhá-los com carinho e instinto de preservação. Que o futuro venha, sem tanta devastação e sem que se destrua o melhor do passado.  

Apesar de amar São Paulo de todo meu coração, sou ituana, oras! Em Itu, eu nunca seria turista, mas, às vezes, sou. O que faz uma cidade ser turística não é o seu título, é o que ela desperta na gente. É ter a partir dela um novo olhar. 

2 comentários:

  1. Muito bom Claudia, como sempre!!! Bjos

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  2. Obrigada, Rafael! Um beijão pra vc. Compartilhe aí com os amigos ituanos.

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