terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Arroz de bacalhau

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

(trecho do poema Presságio de Fernando Pessoa, poeta português)



No domingo passado acordei determinada e cheia de vontade de comer bacalhau. Deve ter sido porque no dia anterior eu tive a companhia do meu querido amigo Márcio Fonseca com quem conversei bastante sobre Portugal e um dos principais focos da conversa é a comida. Naquela terra, a dos nossos colonizadores, se come mesmo muito, muito, muito bem!  Como disse ao meu amigo, eu voltaria para lá ontem, se pudesse, só para degustar novamente tantas delícias que vão à mesa dos lusitanos com fartura, digo, sem miséria nos tamanhos das porções. 


Não tenho dúvida de que a memória do sabor é muito forte em mim assim como o cheiro que é o grande aliado do paladar.  Por isso, talvez, eu tenha escolhido preparar para mim mesma um arroz de bacalhau. Note que não estou falando de um risoto (como até poderia ser chamado), me refiro a arroz feito na panela com algum molho de tomate para ficar vermelhinho cujo ingrediente chave é o bacalhau. Risoto leva outro tipo de arroz e os ingredientes diferem também. 

Minha mãe faz e minha avó fazia um arroz com frango na panela. Pra mim, não há melhor prato entre os que a minha mãe prepara. Ela não gosta muito porque o arroz fica grudado, meio "unidos venceremos", mas eu simplesmente adoro. Quando gruda no fundo da panela e ao raspar saem aqueles pedacinhos meio queimados, ai, que coisa deliciosa! Taí, outro dia fiquei pensando e acho que agora, ao escrever, descobri que esse é o prato que eu mais gosto na vasto cardápio da dona Neuza. O tempero é bom, tem cara de comida de mãe, dá pra comer mais quando sobra e fica ainda mais gostoso requentado. Enfim, a perfeição! 

Mas tudo isso é porque eu, no domingo, queria sentir o sabor de Portugal e o aconchego da casa da minha mãe. Eu estava sozinha e pensei que talvez fosse um abuso cozinhar tudo isso só pra mim. Mas foi então que veio um raio iluminador e eu decidi fazer sim, porque eu mereço! Os sozinhos de plantão têm que aprender o quão importante eles são para si mesmos e nunca deixar de fazer algo que querem de verdade só porque estão sós. Às vezes, os solitários se esquecem, de modo que é bom lembrar. 

Eu morei sozinha por vários anos. Minha casa sempre foi festiva com muita gente vindo passar temporadas, muita comemoração, comida e bebida, mas, posso dizer com muita clareza o que é viver só. Muitos foram os finais de semana em que eu não disse uma só palavra que não fosse pra mim mesma ou para agradecer o troco do supermercado ou da padaria. Parece que não, mas a solidão é uma presença na vida de muita gente.  Ela pode ser ruim ou boa, tudo depende de como a gente se trata. 

Atualmente, tenho o Silas que é meu grande companheiro. Não me sinto só e adoro estar com ele, principalmente porque sabemos nos manter como indivíduos. Ele está viajando e eu morrendo de saudade. Solidão é outra coisa. Quem nunca viveu só, pode imaginar, mas não sabe ao certo o que é isso, nem a dor, nem a delícia. 

Depois de tanta derivação, vamos ao preparo do prato que me deixou muito contente com o resultado. 



Arroz de bacalhau

Rendimento: 4 porções


Ingredientes

1 colher (sopa) de óleo de girassol
1 cebola média picada em brunoise
1 dente de alho amassado
250 gramas de bacalhau dessalgado, aferventado e desfiado
3 colheres (sopa) de molho de tomate (ou um tomate pelado picado)
1 1/2 xícara (chá) de arroz tipo 1 
3 xícaras de água fria
1 colher (chá) de sal
pimenta do reino o quanto baste
1 pimenta dedo de moça
1 ovo 
cheiro verde (salsa e cebolinha) picado para decorar
azeite extravirgem 


Modo de fazer


Numa panela alta, refogue em óleo a cebola e o alho. Em seguida, junte o bacalhau. Deixe pegar o tempero por uns 3 minutos e então acrescente o tomate e o arroz cru. Ponha o sal e mexa tudo muito bem. Deixe refogar até que esteja pegando o fundo da panela. Só nesse momento, despeje toda a água, baixe o fogo e mexa para acertar os ingredientes na panela.  Espere a água secar com a panela semi-tampada.  


Quando o arroz estive seco, estará pronto e soltinho. Não é essa a textura desse preparo. 

Por isso, desligue o fogo e quebre o ovo sobre o arroz que, ainda bem quente deve ser misturado ao ovo. Isso dará liga. Tampe a panela por 3 minutos.  Ao abrir, polvilhe a pimenta do reino. 
Sirva em porções individuais com pequenos pedaços da pimenta dedo de moça sem as sementes e o polvilhado com o cheiro verde.  Regue com azeite para realçar o sabor. 

Dica de harmonização - Que tal uma taça de cabernet sauvignon para acompanhar? 


Esse arroz tem gosto de comida de casa. Não há nele nenhum ingrediente que não seja familiar. No entanto, há uma sofisticação no paladar graças à textura que o arroz adquire com o ovo mexido. Fica muito interessante e é transformador o ovo no preparo. Sem ele, não é comida com sabor de vó! 

Faça para quem você ama. Faça pra você. Bom apetite! 





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