sexta-feira, 27 de maio de 2016

Fomos violentadas coletivamente, mas...

não é nos estuprando que vocês vão tomar os nossos corpos para si. Não é nos tirando da presidência da república e dos ministérios, que vocês
 vão retomar para sempre o que pensam que só a vocês é merecido, 
não é nos expondo na internet em 
pleno ato de violência que vocês nos assustarão. 



Há mais de duas semanas não escrevo no blog. Contratempos, prioridades, chame-se o que quiser, mas fato é que o meu grande companheiro de todas as palavras, o meu exercício de falar de amor por meio da comida e das boas coisas da vida, o meu maior orgulho dos últimos dois anos, tem estado calado. 

Há dias penso em escrever, mas hei de confessar o quanto é difícil falar de amor em ambiente tão hostil como o que temos aqui no Brasil por esses tempos. O que me consola é que ainda sou capaz de me indignar, mesmo estando chocada, perplexa, catatônica diante do que temos sido submetidos nesse país no último ano. Parece não haver saída e a cada dia algo ainda pior acontece. Enquanto conseguimos manter a indignação ainda não morremos na alma!

Embora esse espaço seja de alegria, hoje, seria quase indecência, ou melhor, quase desonestidade estar alegre já que sou mulher. Exceto pelo fato que, apesar de toda a violência a que somos expostas, tocadas, vilipendiadas, não nos será tirada a alegria, porque isso é nosso, é a nossa capacidade de renovação a cada instante. Só que hoje o dia é de dor e sofrimento para quem é mulher no Rio, no Brasil e no mundo porque uma de nós sofre na pele, na vagina, na boca, na alma, o que todas nós sentimos no coração. 

Hoje minha vontade é dizer mansamente, de um jeito muito feminino, muito educado, gentil, mas nem de longe submisso, para que todos os homens (e também para mulheres), tanto aos machistas declarados, como aos que escorregam no machismo de vez em quando, como aos que já entenderam e já sentem de outra forma (porque eles existem, graças a Deus e a nossa luta constante) que não é nos estuprando que vocês vão tomar os nossos corpos para si. Que não é nos tirando da presidência da república e dos ministérios, que vocês vão retomar para sempre o que pensam que só a vocês é merecido, que não é nos expondo na internet em pleno ato de violência que vocês nos assustarão.  

Estamos tristes, sim. Fomos violentadas coletivamente.  Por 33 e  por Rafinha Bastos (o maior de todos os preconceituosos e machistas travestidos de inteligente e engraçado que a TV já manteve no ar, uma vergonha!), e por Alexandre Frota, e por Michel Temer, e por muitos dos nossos chefes, e muitas vezes por nossos pais, muitas vezes por nossos irmãos dentro de casa, muitas vezes por nossos namorados, nossos maridos, pelo encanador que veio consertar a torneira pingando... Fomos violentadas, mas isso não será para sempre. Isso começa a acabar hoje, mais do que ontem, amanhã, mais do que hoje. 

Não há desculpa, não há justificativa. Mas o mais triste é que não há punição para esses machos indecentes, criminosos sem perdão. Eu não os perdoo. Jamais os perdoarei. Estamos de luto, mas em luta constante.

Eis o nosso aviso. Estamos mais que nunca unidas, de mãos dadas, prontas para nos defender e para ocupar o que é nosso. Porque somos "belas, recatadas e do lar", sim, se quisermos! Mas caso nossa escolha seja outra, não haverá estupro coletivo a nos deter.  A nossa resposta é não. Vocês não nos dão as regras. Nós escolhemos o que queremos e é assim que será daqui pra frente. 

Repito mentalmente e reescrevo as palavras da minha amiga e nora Julia Henriques lidas ontem à noite numa publicação no Facebook, como se fossem minhas: "Nós não aceitaremos mais isso. Vou lutar da maneira que eu puder, pelo resto da minha vida, para que coisas desse nível não aconteçam mais!!"

A seguir um texto e uma foto que me (nos) representa. Não deixe de ler, compartilhar, viralizar! 




30 homens tomaram o corpo de uma de nós. Tomaremos suas almas.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Uma canja para os dias tristes


Não há tristeza nessa vida que uma boa canja de galinha feita pela mãe ou a avó não diminua. 

Eu, na minha vida toda, quando estive triste, de tristeza profunda, de perda, de solidão, de traição, de injustiça e de depressão, sempre pude contar com um bom prato de sopa que me trouxe momentos de aconchego, carinho e acalanto. De mãe, principalmente. 

Lembro-me que, logo depois que minha avó Angelina morreu, meu tio Aldemir, filho dela, fazia canja de frango todas as tardes para que bem no início da noite, na hora da novela das seis, a sopinha estivesse pronta, cheirosa como ela só. 



Ele desenvolveu uma técnica própria e o caldo que fazia era espesso, não um caldinho ralo de hospital. A canja era bem amarelinha, quase laranja, grossa da cenoura e da batatinha batidas no liquidificador para espessar o caldo, tinha o arroz molinho e o frango em fiapos, além de miúdos: coração, figado e moela tenros e bem cozidos. 

Não era claro para o meu tio que ele tinha poderes mágicos, alguns podem chamar de bruxaria, e que no seu caldeirão (ou panela de pressão) ele cozia afeto, delicadeza e cuidado com as pessoas da família. Ele andava triste, disso eu sei, e a alquimia da sopa o fazia arrefecer a dor e a falta que a minha avó fazia para todos nós. 

Hoje, o Brasil parece aliviado. Apesar da noite passada em claro, como as dos velórios em cidades como Itu, o país sente o mesmo alívio das famílias quando retornam do cemitério após enterrarem seus mortos. Depois de deixar para a terra seus entes queridos que se foram depois de anos de sofrimento, doentes, moribundos, débeis e  já sem condições de continuar nessa luta insana que é viver. 

Apesar do alívio e dos fogos de artifício (desde às 6h35 a cada pouco vem uma rajada ecoando por São Paulo) que simbolizam a vitória, como numa última partida do campeonato brasileiro, há também uma dor profunda na alma de muitos cidadãos. 

Há também, hoje, os que se sentem roubados em seu sonho de democracia, vilipendiados em sua luta por igualdade de gênero, destituídos de sua cidadania, desacreditados definitivamente de uma possível justiça cega e de julgamento justo e humano. 

Apesar de essa ser uma dor profunda, ela não traz consigo a clemência que traz a morte. Por essa dor não somos acalentados. É melhor não falar dela porque ao lidar com isso em público podemos ser confundidos com petistas, esquerdistas, criminosos.  Não nos perdoam as lágrimas porque não é de bom tom que escorram nos nossos rostos lágrimas no meio do dia, como nos é permitido quando perdemos alguém que amamos. Mas nem por isso a dor não existe, ela está ali, presente! No peito. Na sua alma cidadã! 

Eu tenho chorado pelo Brasil nos últimos tempos porque vivemos um momento devastadoramente triste.  Chego a sentir inveja dos alienados porque eles, nem de longe, sabem porque eu sofro. 

Pela primeira vez, declaro que me sinto envergonhada pela arrogância demonstrada por muitos de meus conterrâneos paulistas, por sua postura nefasta, segregadora, ímpia, burra e egoísta.  Também lamento o degradante espetáculo produzido por colegas de profissão na Imprensa nos últimos meses, no mínimo, a atuação foi chocante para quem jurou honrar os princípios da justiça e da democracia.  

Como pessoa toco a vida pra frente, que não me resta outra saída, mas como cidadã, sofro de uma dor de quem vê muita erva daninha instalada numa plantação que demoramos tanto tempo cultivando para que pudesse começar a germinar. 

Vivemos um tempo em que falta cordialidade, zelo e empatia. Acusamos o outro, mas não olhamos a nossa atitude diária, nossos pequenos e grandes delitos. 

Hoje, o Brasil, como eu nos dias tristes, merece uma tigela fumegante de uma boa canja de galinha, daquelas da avó,  que alimenta o corpo, acalma e enternece o coração e dá coragem. Isso para nos ajudar a ter uma boa noite de sono depois de tanta turbulência e especulação. Amanhã, voltamos à luta por um lugar melhor, mais honesto e verdadeiro, apesar do futuro cinza que nos parece nesse momento reservado.  

Ah! Pensei em usar uma bandeira verde e amarela nessa postagem, mas ela foi tão mal empregada ultimamente que desisti. Será que conseguiremos recuperar a ideia de que a bandeira do Brasil ainda é de todos os brasileiros? A angústia está nesse grau, deu pra entender?  

É isso. 

Só pra constar: eu não apoiei o golpe! 




quarta-feira, 4 de maio de 2016

Fast food - dicas rápidas e imperdíveis


Já faz um tempinho que a coluna Fast Food anda  sem dicas bacanas. Acho que quem acompanha o blog deve ter percebido isso. Pra me redimir hoje tenho dicas quentíssimas de boas atividades nos próximos dias. Vamos a elas! 



Negócios de Gastronomia em Domicílio é tema de curso


Amanhã e depois (5 e 6/maio) no portal Eduk, a chef de cozinha Adriana Bausells vai tratar do assunto que eu mais gosto na vida: a arte de bem receber! 
O nome do curso é Chef em domicílio: transforme a arte de receber bem em negócios. O curso completo tem duração de 8 horas e é ministrado online. Para quem não conhece o Eduk é uma plataforma de ensino à distância com aulas muito interessantes. Para assistir é preciso se cadastrar ou ser assinante. 

Mais informações: www.eduk.com.br 




Lá em casa pra jantar

A próxima edição do evento ocorre dia 21/05, sábado
Desta vez o menu é vegetariano, mas com muito sabor. Inspirado no livro Cozinha Natural Gourmet - a culinária de Tatiana Cardoso e o restaurante Moinho de Pedra, o jantar custa R$ 100 por pessoa e já inclui a bebida. Para participar é preciso reservar pelo e-mail laemcasaprajantar@gmail.com . As vagas são limitadas. Para conhecer o menu completo e obter mais dados do evento acesse: Lá em casa pra jantar / menu vegetariano 
Reserve já!!


Oficina  Comer é Mais, no Sesc



No Sesc Belenzinho, amanhã, 5/maio, às 14h, abre inscrição para a oficina Cozinhando com Quiabo e Jiló, que será no dia 18/maio, às 19h30, dentro do projeto de oficinas Comer é Mais cuja curadoria é de Neide Rigo, do blog Come-seSão reflexões e troca de conhecimento para além do simples ato de comer.  O chef convidado para a oficina é Marcelo Corrêa Bastos, do restaurante Jiquitaia.  É grátis. Inscrições no local ou pela internet.  Super dica essa!


Dica de leitura sobre Azeites

Há tempos não gostava tanto de uma leitura como a minha atual.
O autor é Luciano Percussi, do restaurante Vinheria Percussi, e o título é Azeites - História, Produtores, Receitas.  Eu peguei na biblioteca a edição de 2006 da editora Senac, mas é fácil de encontrar em livrarias que valorizam títulos de Gastronomia. Na Amazon custa R$ 24,90. Mas vale muito mais, eu garanto! 
O livro é um passeio incrível pelo mundo dos azeites. 
Como eu mesma diria, azeite, vinho, queijo e pão são as melhores comidas do universo. O livro, portanto, se tornou o meu queridinho. Acho que vou me especializar em azeites!



Série Cooked 


Não deixe de ver quando tiver um tempinho a série Cooked na Netflix. São 4 capítulos, narrados e enredados por Michael Pollan,  cujos títulos são: fogo, terra, ar e água. Para mim, o que é imperdível mesmo é o episódio Ar, que tem como tema o pão. Cheguei a escrever um post. Vale dar uma lida.



Aplicativo de comida 


Quer comer de um jeito diferente?  Experimente baixar o aplicativo Apptite no seu celular. Para o Dia das Mães há promoções muito bacanas de pratos preparados por chefs que atuam em suas próprias casas. 

Você acessa e vê o que tem disponível perto de você. São essas iniciativas que tornam os negócios mais sustentáveis porque valorizam "a produção e a arte" gastronômica local. 

Eu sou uma das chefs que está lá. Recomendo conhecer. Pode ser surpreendente a qualidade do que você vai encontrar por preços bem razoáveis, próprios para girar a economia em tempos de crise!


A coluna Fast Food voltou com a corda toda, não é não? 

Até breve!!!