segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Barcelona, a porta de entrada

Férias de julho 2016 - Capítulo 2


Espanha que não é Espanha: comunidades autônomas


Depois do dia agradável e da conexão feita em Frankfurt, chegamos bem ao nosso destino e, como esperado depois de cerca de 36 horas acordados, dormimos copiosamente mais de dez na nossa estalagem temporária na capital da Catalunha, Barcelona!

Como a hospedagem de Airbnb sempre reserva surpresas, encontramos um excelente anfitrião, um carioca sorridente e prestativo, numa localização ótima com instalações, nem tanto. Mas, quatro noites seriam dormidas naquele colchão de molas um tanto velho numa cama sem cabeceira de um quarto cuja janela dava para o fosso interno do prédio. Ventanas fechadas = calor insuportável; janelas abertas = aquela mistura de cheiro de cigarro e poeira de prédio antigo meio mal cuidado em região central de cidade grande. 

Sou entusiasta do jeito Airbnb de hospedar, mas devo confessar que minha experiência em Nova Iorque não foi das melhores, o mesmo rolou agora em Barcelona. Na mesma casa havia quartos de condição diferente. Demos azar. Ponto. 

Preâmbulos pra entender e depois não se fala mais nisso

Basta olhar o mapa da Europa para verificar que a Espanha tem um território grande. São mais de 500 mil quilômetros quadrados. Só pra comparar, todo o estado de São Paulo dá metade disso. Esse vasto território conta com 17 comunidades autônomas, que são, mal comparando, como os nossos 27 estados no Brasil, mas com muito mais autonomia
Uma comunidade autônoma é uma entidade territorial que, no ordenamento constitucional de Espanha, é dotada de autonomia legislativa e competências executivas, bem como da faculdade de se administrar mediante representantes próprios.
Vale lembrar que a Espanha é uma monarquia parlamentarista. Desde 2014, quando o rei Juan Carlos abdicou, seu filho Filipe, o sexto, é o rei e chefe de Estado. O chefe de Governo é o primeiro-ministro, seu nome é Mariano Rajoy.

Na Espanha é histórica a questão separatista. Várias regiões do país, apesar do que reza a Constituição de 1978 feita no período de Transição Espanhola, depois de tantos anos de ditadura de Franco, não se sentem espanhóis. É o caso de cidadãos nascidos, por exemplo, no País Basco e na Catalunha. Eles se identificam como bascos e catalães, respectivamente. Dizem que só são Espanha pela imposição de conveniências políticas e econômicas. A língua que é fator fundamental para o sentimento de pertencimento de um povo num estado-nação,  no País Basco é euskera, na Catalunha, catalão. Embora seja obrigatório o espanhol para ambos. 

Então... apesar de um destino na Espanha, Barcelona é, basicamente, a capital de um outro país. Lá, as pessoas falam catalão e o idioma, que também é oficial, é escrito nas placas, nos mapas e em praticamente todas as publicações. Há estações de rádio e canais de TV nessa língua. 

Também por lá, há características que, para um turista, por mais sensível que seja, em apenas três ou quatro dias, não será possível definir se são regionalidades ou traços de uma outra nação ou outro povo. Situação difícil pra quem vê de fora.  Eu, de minha parte, exceto pela língua, não conseguiria distinguir um catalão de um basco, mas eles juram que são diferentes em tudo! E cada qual, é ainda mais diferente do espanhol de Castela, Aragão ou da Andaluzia. 

Eles dizem que cozinham e comem de um jeito diferente, plantam de forma diferente e, quando perguntados, respondem que são absolutamente autônomos e autossuficientes financeira e economicamente para que sejam um país também diferente. 

Conversando com um catalão ele me enfatizou que não vê qualquer sentido em render honras ao rei de Espanha. "Ele não é rei para nós na Cataluñya", disse. 

Quatro dias em Barcelona 

Sem planejamento, só ideias e memórias, fizemos coisas de montão. Primeiro dia: reconhecimento da cidade, começando com a padaria onde tomamos o primeiro café da manhã, passando pelo sistema de metrô e ônibus, passeio pelas Ramblas e suas travessas de Bairro Gótico


Uma parada no mercado La Boqueria com toda a sua variedade de cores, sabores, sons, e um susto: as bancas fecham à tarde! Sim, lá pelas 14 horas o movimento cessa nas vendas de cerejas, castanhas, sucos, jamons e pimentos diversos. Ainda assim, brindamos o meu aniversário com cerveja de barril acompanhando batatas bravas e um farta porção de jamon serrano e pão com tomate. 


Ah! Os tomates mais deliciosos que já comi foram os da Espanha: doces, firmes e suculentos, bem vermelhos, nunca amarelados ou empedrados.  


  






Fomos à Catedral e ao seu entorno, descobrimos praças que já não nos lembrávamos que existiam porque a memória é seletiva e o tempo apaga ou torna turvas algumas lembranças e, entre um aqui e um ali,  logo começamos a entender o que é e porque há o período da sesta (siesta em castelhano) na Espanha. Essa tradição nos rendeu risadas, mas também muita irritação já que nossos horários (fora a questão do fuso e o irremediável jet lag) como turistas brasileiros não batem com os da fome espanhola. 

Fazia calor, muito sol e nas ruas da pulsante Barcelona, andamos, andamos, andamos... andamos. 

Chegamos ainda com muito sol à região portuária, onde está o monumento a Colón (Cristóvão Colombo) e é lá que se deitam estacionadas "pequenas embarcações" cujo tamanho e o luxo derrubam o queixo de qualquer pseudo-rico por aí viajando de primeira classe. São iates muito mais que luxuosos de milionários, sabe-se lá se do petróleo ou das grandes indústrias das tecnologias. Lugares onde, no meu imaginário, rolam festas, recepções e muita, muita, muita grana per capta.   

Nesse dia, fomos também ao Aquário, paramos um pouco para ver ao voo das gaivotas. Elas dão show nessa região. Gente, Barcelona tem mar e praia. E gaivotas. 

Nesses quatro dias, ainda "turistamos como manda o figuro" na terra de Gaudí, Picasso e Miró. Fomos à Sagrada Familia, ao Parque Guel, relembramos a Casa Batló, e a Milá ou La Pedrera, estivemos no Parque Olimpíco de Monjuic, passeamos pelas ruas do comércio chiquérrimo e também do popular com rebajas* e segundas rebajas...  Ah! Não dá pra esquecer que teve também a fonte de águas coloridas e dançantes. 





Na sexta-feira, alugamos bicicletas e isso  foi um ponto alto dessa nossa viagem. Como Barcelona é muito grande e há mais turistas no mundo do que eu gostaria, nem sempre é fácil estar numa cidade como essa em transporte convencional, digo, carro, ônibus e  metrô. A bike é uma aliada. Cansa menos do que andar, rende grandes distâncias, alivia o calor porque sempre vem um vento no rosto e dá uma sensação de liberdade, um empoderamento que só pedalando pra saber! 

Com o magrela fomos à praia,  não sem antes parar num centro cultural que já foi mercado, passando pelo arco do triunfo catalão.  Praças, parques cheios de crianças, muita gente vivendo o verão. 

Sabe, na Europa, as pessoas não se sentem culpadas por ter férias, por trabalhar menos horas, por parar num bar para tomar uma sangria com os amigos e comer umas tapas. Eles têm direito a curtir o verão e fazem isso de verdade. Sem pudores. Com crise ou sem. Nós precisamos aprender isso. 




A estada em Barcelona nos fez decidir que não seria nossa intenção ficar em cidades muito grandes, por isso, excluímos Madri do roteiro e, embora tenhamos ido a cidades grandes como Saragoça, Segóvia e Burgos, nosso foco foi visitar lugares menos tumultuados. Vimos uma Espanha delicada, gentil, solícita, cheia de gente sorridente, com vontade e disposição para um dedinho de prosa, mesmo com turistas que parecem italianos ou franceses e falam portunhol. 

Depois de Barcelona, seguimos de carro até o fim da viagem.  Primeiro, a Catalunha, os Pirineus, depois chegamos a Andorra e  fomos ao País Basco. Tem história pra vários capítulos... 

Leia também: 

  >>> Vamos falar de viagem - Férias de julho Capítulo 1


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