terça-feira, 2 de agosto de 2016

Can Margarit: jantando com os locais

Férias de julho 2016 - Capítulo 3

Era 29 de junho, meu aniversário e estávamos em Barcelona. Combinamos um jantar especial. 

Nossa ideia era ir ao restaurante Quatre Gats.  Há mais de 15 anos estive em Barcelona e jantei nesse lugar. Por isso, cheguei até a reservar mesa. O 4Gats é badalado e super conhecido porque era o lugar frequentado por Pablo Picasso, um dos mais ilustres barceloneses de todos os tempos. Foi ele quem desenhou a capa do cardápio do restaurante em tempos de sua inspiração boêmia. 



O jantar é o que interessa



Por fim, decidimos mudar. Queríamos algo mais despojado, com um jeito catalão de verdade, isto é, menos pra turista. Sempre buscamos isso nas nossas viagens, mas é difícil encontrar sem a referência de alguém que vive ali. Por sorte, o Silas tinha lido sobre o Can Margarit num blog e quando leu o post pra mim, sentimos que era esse. 

Ponto pra intuição! 

Fomos caminhando até o lugar que, aparentemente, não nos pareceu uma rua badalada, a calle de la Concordia, embora o bairro Poble Sec tenha tido uma afeição especial do público alternativo e "in" de Barcelona. O caminho nos pareceu distante do turistal  (um jeito meio maldoso pelo qual chamamos o turista típico da CVC e seus semelhantes em viagens pelo mundo todo). Aliás, andando pra chegar lá, comentamos que as ruas pareciam com o Palermo em Buenos Aires, mas com menos pessoas. 


Em plena quarta-feira, lá pelas nove da noite (que lá ainda era de tarde porque os dias estavam longos de verão europeu) chegamos a uma taverna das mais simples e simpáticas. 

Mesa pra dois. Antes de sentar nos mandaram pegar um copo cada um que era para nos servirmos de vinho diretamente nos barris de madeira que ficam na área de espera bem na entrada do restaurante. 

Mesmo sem espera, já que ainda estava meio vazio, só com umas três mesas ocupadas, não nos tiraram o prazer de "abrir os serviços" com um copinho de vinho. Que gentil! 

De cara você se sente abraçado com essa demonstração de hospitalidade. Soa como generosidade dos donos. Aqui pelo Brasil, deixamos há tempos essas gentilezas. Tudo é cobrado, até a água da torneira. Aliás, agora há muitos restaurantes e bares em São Paulo que cobram 13 a 15% de taxa de garçom. Inflação em número percentual! Mas esse é assunto pra outra conversa.

No Can Margarit conhecemos literalmente uma taverna rústica. Sem nenhuma frescura, das cadeiras e mesas de madeira sem toalha, aos pequenos copos que mais pareciam com "cristais de geleia cica" (só que sem a borda grossa), e às louças e cerâmicas nas quais nossos pedidos vieram servidos, até a decoração nas paredes, tudo bem com cara de celeiro de sítio de antigamente. `



A iluminação, que sempre é uma preocupação para quem tem restaurante, era clara, mas tinha umas velinhas e não dava aquela sensação de branco hospital, que é desagradável demais. 

Pra ser sincera, senti como se esses elementos todos não tivessem qualquer importância. Tudo parecia tão casa da avó, que foi uma delícia passar quase três horas lá sentada na cadeirinha com assento de taboa. 

Comemos uma salada de bacalhau com batatas, pimentões e azeitonas de entrada. Que coisa gostosa! Melhor ainda porque também pedimos pão com tomate. Por sinal, comemos esse pãozinho com tomate praticamente em todas as principais refeições que fizemos na Espanha, não só na Catalunha.  




Depois veio a estrela da noite, o prato principal, o carro-chefe da casa. No cardápio está em caixa alta, digo, letras maiúsculas: conill a la Jumillana. Uma receita de coelho frito com cebola, alho, louro, hortelã, tomilho, alecrim, orégano, erva-doce. Digna, muito digna! 



Eu não gosto de alho. Se posso não comer, não como. Já o Silas, é o meu oposto. Ama! Nesse prato, que eu continuo elogiando, tinha tantos dentes de alho fritos em imersão de gordura que o Silas se esbaldou. Mais de 20, ainda com a casquinha em volta, era só tirar e degustar, como um creme, segundo ele. Eu fiquei com as cebolas caramelizadas. Boas que só vendo! E o coelho, qual é o jeito de fazer? Pela explicação do chef,  "a passarinho", só que como é coelho...  


Bebemos vinho rosado e água gasosa (ambos em copinhos como os de nutella) para acompanhar essa iguaria da cozinha do sul da Espanha, que é feita com esmero nessa taverna quase rural em plena cidade grande do nordeste do país. 





Sobremesa: creme catalão? Não, um pudim. O meu de laranja, o do Silas de coco. Nada a ser ufanado, deveras! 

Na taverna não tem café expresso, mas tem um licorzinho de vinho como digestivo... Hummm, bom! 








A conta foi bem econômica. Cerca de 40 euros para nós dois. Já o jantar foi memorável, pra dizer o mínimo. 

Ah! Se todos aprendêssemos que a graça está na simplicidade, no sorriso, na generosidade. Tudo iria bem melhor. 

Saímos de lá alegres pelo vinho, pela comida, pela comemoração, pela viagem e, mais que tudo, pela delicadeza com que fomos tratados. Pense num lugar que você não se vê como cliente, mas como um amigo distante que é bem vindo. Pensou? 

Pra quem vai a Barcelona e quer fugir do burburinho, a taverna Can Margarit é uma boa recomendação. Mas é bom saber que quando nós já íamos embora, o lugar estava com as mesas todas ocupadas. Merecido sucesso de um lugar que, depois pesquisei, tem 40 anos. 


Serviço: 

Taverna Can Margarit
Calle de la Concordia, 21. Barcelona 
Tel. +34934416723

De segunda a sábado, desde 20h30. 

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