sexta-feira, 24 de março de 2017

Rumo a Belém

Há mais de 20 anos cultivo a vontade de ir a Belém no Pará.  Só e oportunamente porque é a capital do Pará!

Estranho é pensar que quando muito menina nem imaginava que a ideia de ir a essa cidade tanto me encantaria tempos depois. Não me lembro de, na escola, os professores mencionarem o Pará com alguma grande deferência.  Há estados que são assim tratados com menor ênfase. Não é assim com Bahia, Rio de Janeiro ou Pernambuco...

tags: Belém do Pará, culinária do Pará, Carajás, Belo Monte, rio Amazonas

Ocorre que o Pará fica na região Norte e por lá tem também o estado do Amazonas, que leva o mesmo nome do maior rio do planeta. Quero crer que é por isso que nem se lembravam de nos dizer quando estudantes do primário e do ginásio que o Amazonas é rio de verdade, desses com enorme volume d'água, também no Pará. Até que, pensando bem, deviam sim falar, mas, como a gente só guarda o que nos parece mais fácil, na minha memória não ficou esse registro. Pareceu que nunca havia sido dito. 




Tem outras coisas também. Aqui em São Paulo a gente tem "a pretensão de ter certeza" que somos o umbigo do mundo (ou pelo menos do país).  Só que o Brasil é bem mais do que o nosso quintal. Prova disso pra nós, os "arrogantes motores da nação", é que,  de vez em quando, vinha o Pará para o noticiário paulista. 

Um exemplo foi o período da exploração mineral na Serra Pelada, uma "corrida do ouro" contemporânea no sudeste do estado, quando o lugar se transfigurou num formigueiro humano em busca de riqueza. O garimpo atraiu tanta gente que a montanha sumiu. Hoje, por lá, resta um vale contaminado por mercúrio. Contudo algumas imagens ficam pra sempre como a da chacrete Rita Cadillac que, com certa frequência, ia pra lá a fim de alegrar com seus shows de rebolado e insinuação sexual os 60 mil garimpeiros da Serra Pelada. Desses, uns enricaram. Outros, só perderam. Entre as perdas, a saúde e a família. A chacrete se tornou musa, mas isso é outra história que não cabe aqui. 





Depois, tempos depois, veio o massacre em Eldorado do Carajás. quando 17 homens do Movimento Sem Terra foram mortos violentamente pela polícia do estado a mando de fazendeiros.  Tristes tempos que, de vez em quando, a gente revive nesse país de um jeito ou de outro para lembrar quem manda e tem direito. E, claro, quem não.

Mas não é do noticiário que vem  a minha vontade de conhecer Belém. Primeiro foi de uma moça que conheci há alguns anos num evento no qual trabalhei em Salvador. Ela era da capital paraense, se não me falha a memória, seu nome era Paula. Dividimos um quarto no hotel por questão de economia e solidariedade. Ela me encantou com o que contou sobre sua cidade. Apaixonei-me pela ideia de visitar.

Pra quem não sabe, trabalhei tempos com projetos de infraestrutura, em especial, com Energia. Então, no Pará, estão as usinas hidreléticas (e toda a polêmica de seus efeitos sobre a natureza e o meio ambiente) de Belo Monte, Cachoeira dos Patos, Tucuruí e Tapajós, entre outras que não me lembro agora. 




Vão-se anos desde estes episódios e, oras, quando começo estudar gastronomia com mais seriedade e disciplina, logo vem o Pará como referência indelével. 

Em resumo, como se pode falar de comida brasileira sem se deter ao menos por instantes em como se come no Pará?  

Há quem diga que por lá está a genuína formação da culinária brasileira, coisa que eu não comungo e explico o motivo. Há tantos brasis nesse que a gente vive que batizar uma só raiz é pouco para a formação do nosso paladar. Somos o misto do índio, do preto e do branco? Talvez, mas não só.  Isso é apenas o resumo e nem sempre se aprende a verdade lendo a apresentação em power point, há mais a ser pesquisado para poder compreender. 

Estive em Santarém e Alter do Chão dois anos e pouco atrás, mas em Belém só fiz uma pausa no aeroporto sem descer do avião.  

Hoje embarco rumo ao sonho de conhecer a capital do Pará, rapidamente, só um fim de semana. Mas é um desejo de muitos anos que se concretize e isso me deixa feliz e ansiosa.

Quando comecei a pesquisar o que quero fazer nesses poucos dias que estarei por lá, de modo a garantir o melhor aproveitamento da minha viagem, eis que encontro numa matéria do iG Turismo uma pérola escrita por Mario de Andrade, em 1927, sobre Belém. Com ela fecho o texto para poder terminar a arrumação da mala. Quando voltar, fica a promessa de que conto um pouco do que vivi por aquelas terras.


Bom fim de semana. Aproveitem o que escreveu na carta enviada a Manuel Bandeira o mestre modernista Mário de Andrade: 


“Manu, estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois dos nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém, me conquistar mesmo, a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terraça em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa melhor do que isso, Manu? (...). Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita, mas verdadeira, que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim”.
Fonte: Turismo - iG @ http://turismo.ig.com.br/destinos-nacionais/2012-05-27/15-motivos-para-visitar-belem-do-para.html


Créditos das fotos pela ordem em que aparecem: 

Rita Cadillac - O Globo
Serra Pelada - Compartilhando.net
Massacre de Carajás - jornal A Verdade
Usina de Belo Monte  - Portal Brasil
Mario de Andrade - Tribuna do Norte


Leia também: 


sexta-feira, 10 de março de 2017

Cebola roxa com molho de nozes


Salada sofisticada que impressiona


Cá estou eu nas novas empreitadas da vida. Ora invento uma novidade, ora outra. E assim os dias não são monótonos e nem tampouco sem tempero.

Ando pesquisando ingredientes e sabores para um menu novo do Lá em casa pra jantar. 
Na terça passada, como minha cunhada viria jantar conosco e estamos com o Arthur de férias aqui pela nossa casa até o fim de março, usei ambos para um teste de degustação desta cebola caramelizada no forno e servida como salada. 


tags: comida de verdade, receita, salada, cebola caramelizada, molho de nozes

É essa experiência que divido agora com vocês, contando os ajustes que fiz, bem como a criatividade que usei na substituição de ingredientes de uma receita que, se não fosse por essas substituições, eu diria que copiei completamente.  Vamos lá.

Já que disse que minha inspiração veio de algo já existente, é melhor não contar apenas o milagre, mas também o santo. Até porque, o livro de onde saiu a receita é uma delícia de publicação, repleta de informações preciosas, fotos incríveis e que faz parte do novo selo da Companhia das Letras, que é o Companhia de Mesa.


Foto: Companhia de Mesa
De autoria de Yotam Ottolenghi, um chef conhecidíssimo que fazia um programa de comida mediterrânea na GNT um tempo atrás, a obra se chama Comida de Verdade - Ingredientes frescos e receitas vibrantes para a cozinha diária.  

Foto: Yotam Ottolenghi - The New York Times

Como um assunto puxa outro, o chef Ottolenghi vive na Inglaterra, em Londres, mas nasceu em Israel e também é cidadão italiano. Não sei se puro marketing, mas ele é desses personagens apaixonantes do mundo da gastronomia aparentemente sem segredos. Dá a impressão de que, de perto, a vida dele é super interessante. É chef de cozinha, tem programa de TV,  tem uma coluna na The New York Times Magazine,  tem vários livros publicados e é dono ou sócio de alguns restaurantes e delis na capital britânica. Dá até pra invejar, não dá? 

Fato é que no livro Comida de Verdade, cuja tradução foi feita por Isabella Pacheco, o que deve ajudar um bocado para nos dar impressão de que o autor é muito simpático, Ottolenghi mistura ingredientes meio inusitados e promove uma reflexão sobre o processo de criação dos pratos, bem como do uso de técnicas bem simples de culinária.  


Foto: Rita Lobo - Panelinha
Palmas para a Companhia das Letras, que bem antenada no mercado crescente de títulos da área de gastronomia, lançou o selo Companhia de Mesa. Meus aplausos são porque eu acredito que, em tempos de rapidez de informação, quando a maioria das pessoas acredita que pode buscar qualquer tipo de receita em programinhas editados para o youtube, criar um selo para publicar livros tendo o cuidado de eleger autores, bem como de prezar pela qualidade editorial da publicação, é mesmo uma atitude digna de admiração.  Não que seja novidade para a editora lançar cobiçáveis títulos de culinária. Antes, a Companhia da Letras tinha uma parceria com a editora Panelinha da Rita Lobo, que agora está parceira da editora Senac.  De qualquer maneira, é inegável a qualidade que é posta nas livrarias por ambos. Melhor pra nós! 

Voltando ao assunto da salada, ou da cebola que é a grande atração desse prato, a receita original está na página 176 do livro do Ottolenghi. Procure lá. Essa é uma boa chance de folhear deliciosas receitas e encher os olhos com as fotos. A minha, uma versão bem adaptada, é assim: 



Salada de cebola roxa com molho de nozes




Molho

1/2 xícara de nozes levemente assadas e picadas em pedaços não muito miúdos
1 pimenta dedo de moça sem sementes e picada bem miudinha
1 dente de alho amassado
1 colher (sopa) de vinagre de arroz
2 colheres (sopa) de vinho tinto seco
1 colher (sopa) de azeite extravirgem

Modo de fazer: Misture todos os ingredientes e reserve. Deixe descansar por, no mínimo, 20 minutos. 



Ricota temperada 

100 gramas de ricota fresca 
1 colher (sopa) de creme de leite (pode ser UHT ou fresco)
1 colher (sopa) de alcaparras 
1 colher (sopa) de azeitonas verdes sem caroço
Sal
Pimenta do reino 

Modo de fazer: Esfarele a ricota e leve ao multiprocessador juntamente com o creme de leite. Processe para que dê liga. Acrescente os demais ingredientes e tempere sem parar de processar. Quando estiver tudo bem misturado, desligue o processador e envolva o conteúdo em filme plástico, fazendo uma espécie de rolo, isto é, dê um formato cilíndrico amarrando as pontas como se estivesse embalando uma bala, ou seja, dos dois lados. Dobre as extremidades e leve ao congelador até que fique bem firme. 

Obs: Na receita original o queijo usado era feta ou queijo de cabra cremoso.



Cebola caramelizada

4 cebolas roxas grandes 
Sal, pimenta do reino e azeite

Modo de fazer 

Descasque as cebolas e corte cada uma em 3 rodelas de mais ou menos 2 centímetros de espessura. Distribua sobre uma assadeira antiaderente ou com um Silpat. Polvilhe sal e pimenta do reino. Pincele levemente com azeite e leve ao forno em temperatura de 200 graus por cerca de 45 minutos. Ao final desse tempo, as cebolas devem estar tenras e coradas, quase chamuscadas, na aparência. Se precisar aumente o tempo no forno ou a temperatura. 


Demais da salada 

1 maço de rúcula lavada, escorrida e rasgada, sem os talinhos compridos 
1/2 maço de salsinha crespa picada grosseiramente


Montagem


Quando as cebolas caramelizadas estiverem mornas, monte uma travessa com os vegetais verdes, o queijo (ricota) cortada em fatias e as cebolas. Tome cuidado para não desmanchá-las. Regue com o molho de nozes reservado. Sirva imediatamente. 




Usos dessa receita


Sirva como entrada.  Esse é um prato para ser comer à mesa. Não dá pra servir num coquetel, por exemplo. As cebolas terão que ser cortada e o molho precisa ser bem misturado para que haja a melhor harmonização entre os ingredientes.  


Funciona bem com uma harmonização feita com vinho branco verde. Apesar do vinho tinto no tempero, a cebola prevalece e com a textura das nozes e o sabor picante da pimenta dedo de moça há um perfeito equilíbrio adocicado e ardido que combina com o frisante do vinho verde. 


Sugeri como entrada porque essa é uma comida que abre o paladar. Pode, no entanto, ser um segundo prato, desde que o primeiro não seja também picante. Por exemplo, se antes houver um canapé ou um patê cremoso, sem erro. 


Essa salada também pode servir de acompanhamento de uma carne ou preceder uma comida vegetariana.  


Entre os diversos usos, use mais que tudo a sua criatividade. Monte do seu jeito e seja feliz porque regras existem para serem quebradas, certo?  

O que posso dizer é que fica um prato lindo, colorido, apetitoso e nos dá oportunidade de sentir algo bem diferente na boca. Os ingredientes são baratos e qualquer pessoa pode fazer sem gastar muito, exceto o tempo, porque demora um pouco para executar todos esses processos. Mas isso é culinária, isso é gastronomia! 

Faça no fim de semana, depois deixe aqui um recadinho contando a experiência. 

Gostou? Compartilhe! Comente. Blogs se alimentam de comentários. 

Grande abraço!!! 

Publicado em Clube das Comadres

quarta-feira, 8 de março de 2017

Em duas orações, o resumo




"Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre."

Simone de Beauvoir

terça-feira, 7 de março de 2017

Coluna no site Plena Mulher

Olá! 

Está pensando em dar uma festa? Ah! Não, só vai receber alguns amigos chegados em casa? A cunhada vem pra jantar? 

Se qualquer das perguntas tiver resposta sim, você vai ter trabalho. Para ajudar,  hoje estreei como colunista no portal Plena Mulhermais uma vez, escrevendo sobre Hospitalidade & Gastronomia.  





Nessa primeira publicação, resgatei umas dicas sobre como exercitar a arte de bem receber convidados em casa. 

tags: festa em casa, comida e bebida, @plenamulher, bem receber
Espero que gostem e curtam o site Plena Mulher cuja missão é contribuir com o crescimento pessoal das mulheres, apoiando e estimulando a valorização da mulher contemporânea.  Ideal sempre necessário! 

Segue o link com o texto publicado na íntegra: Exercite o bem receber

Grande abraço! 






Lá em casa pra jantar: Confirme sua reserva



Comida leve de verão - Uma experiência, digamos, diferente!  

Já fez sua reserva?  Você só tem um jeito de garantir seu lugar à mesa...