sexta-feira, 28 de abril de 2017

A complicada classificação dos vinhos de Bordeaux

Parceria Viva o Vinho




Uma das informações mais tradicionais e ao mesmo tempo complicada para nós, brasileiros, entendermos sobre os vinhos de Bordeaux é a sua classificação. Quem conhece um pouco mais de vinhos sabe que um Grand Cru é excelente – mas o que significa exatamente?

Por meio dessa classificação pode-se compreender melhor a história de Bordeaux.

Vale lembrar que, durante muito tempo, os vinhos das diversas propriedades eram vendidos em barris sem identificação, no máximo com a indicação da cidade ou região de onde vinham. E os produtores bordaleses foram uns dos primeiros a entender a importância do marketing em torno de seus nomes, criando, no século XVII, o conceito de valorizar os vinhos de determinado produtor.


Vinhedos de Bordeaux, França
Com o passar do tempo, o paladar dos ingleses – um dos mercados-chave para os franceses – foi incrementando e eles se tornaram mais precisos em relação ao local em que os vinhos de melhor qualidade eram produzidos. De uma visão geral de Bordeaux, passaram a focar na sub-região de Médoc e, mais tarde, a levar em conta também o produtor em questão. E, neste quesito, quatro se destacavam: Château Margaux, Château Latour, Château Lafite e Château Haut-Brion (o único que não ficava no Médoc, mas sim em Graves, e que foi o primeiro a fazer fama no mercado inglês). Por conta do altíssimo nível destes vinhos – e também seus preços descomunais – eles ficaram conhecidos como vinhos de “primeira propriedade”.


Napoleão III

Outras vinícolas começaram a notar como as primeiras estavam dando certo financeiramente e como valia o esforço de se empenhar na qualidade do vinho. Elas conseguiram criar um reconhecimento similar e ficaram conhecidas como “segundas propriedades” – afinal, seus preços não eram tão altos quanto os das primeiras.

Em 1787 já se tinha definido uma terceira denominação, das “terceiras propriedades”. O sucesso comercial dessa classificação fez com que fosse criada ainda uma quarta classe. Por volta de 1850, havia cinco classes bem definidas nessa hierarquia comercial, abrangendo cerca de 60 produtores.

Finalmente, em 1855, ocorre a Exposição Universal de Paris, que reunia itens de toda a França e do mundo. Para a ocasião, Napoleão III pediu a cada região vinícola que estabelecesse uma classificação de seus vinhos. Foi confiado à Câmara de Comércio e de Indústria (CCI) de Bordeaux o processo envolvendo os vinhos da região.


O que vale mesmo é o preço



Château em Bordeaux, França

O sistema de ranqueamento dos vinhos de Bordeaux foi feito pelos negociantes e foi baseado em resultados comerciais dos vinhos de cada propriedade durante longos períodos de tempo e não na qualidade do vinho apresentado na Exposição Universal ou mesmo da safra anterior – tanto que muitos sequer enviaram vinhos para serem provados na feira.

O que contava era a tradição, a reputação construída em torno dos valores obtidos pelos produtos durante anos. Assim, as categorias foram definidas por faixas de preço, o que fez com que os consumidores já tivessem uma ideia dos valores que seriam cobrados pelos vinhos de cada propriedade. A classificação, na época, contava com 58 propriedades, classificadas em Premiers Crus, Deuxièmes Crus, Troisièmes Crus, Quatrièmes Crus e Cinquièmes Crus.


Thomas Jefferson
Classificações “não oficiais” dos principais vinhos de Bordeaux sempre existiram antes da lista apresentada em 1855. Muitos grandes enófilos da história fizeram suas próprias classificações dos melhores produtores e um dos mais célebres a citar os grandes châteaux em seus apontamentos foi Thomas Jefferson, quando foi embaixador norte-americano na França em 1787. O futuro presidente dos Estados Unidos ficou fascinado com os vinhos ao viver no país europeu. Ao visitar Bordeaux, fez uma lista dos produtos que mais gostou e ela continha vários dos nomes que ficaram eternizados na classificação de 1855.

A lista oficial sofreu pouquíssimas alterações. A primeira ocorreu um ano após a classificação, em 1856, quando o Château Cantemerle entrou para os Cinquièmes Crus. Em 1970, houve a eliminação do Château Dubignon, vendido e incorporado ao Château Malescot St. Exupéry. Depois disso, em 1973, a mais notória inclusão: Château Mouton Rothschild, até então um Deuxièmes Cru, conseguiu, devido à influência política e econômica de seu proprietário, entrar para o seleto grupo dos Premiers Crus, por decreto presidencial de Charles de Gaulle.

A classificação de 1855 alcançou uma autoridade e longevidade e, mesmo com outras versões – efêmeras –, apenas essa lista se mantém válida até hoje. Atualmente, ela conta com 61 propriedades.

Com a classificação – e na verdade, por causa dela – as décadas de 1860 e 1870 ganharam o nome de “A Idade de Ouro”, pois os produtores obtiveram lucros incríveis. A época em si não era nada promissora: o oídio, doença provocada por um fungo, assolava a região e trazia escassez aos vinhos, o que automaticamente aumentava seus preços.Mapa de Bordeaux, França


A construção de uma ferrovia, que ligava Bordeaux à Paris e fora projetada como um escape para o porto marítimo, não foi muito útil para a região mas, mesmo assim, colaborou para os mercados de Paris e cidades da Alemanha e Bélgica.

O efeito mais interessante dessa ligação foi o aumento do número de parisienses que iam visitar Bordeaux. Muitos deles, inclusive, após conhecer a região, se interessaram em comprar terras por ali. Bordeaux se tornou ainda mais glamorosa, a ponto de muitos chamarem a região de uma “extensão da Champs-Élysées”, em menção à avenida mais famosa de Paris.



Como ficaram os vinhos “normais”

Claro que nem só de Crus vive Bordeaux. Aliás, os vinhos “genéricos” respondem por 45% da produção local. Mas como são denominados esses vinhos? Como podemos reconhecê-los ao comprarmos um vinho de Bordeaux.

Só pelo fato de ser produzido em Bordeaux, o vinho já segue uma série de regras, que são mais rígidas quanto mais alta for a sua classificação. A seguir comentamos um pouco sobre cada uma delas. 


Bordeaux, França

Appellation genérica


Um vinho que recebe a Appellation Bordeaux Contrôlée (Bordeaux AC ou AOC) pode ser produzido em qualquer parte da região, desde que use as uvas permitidas e tenha rendimento de, no máximo, 55 hl por hectare. Além disso, o produto final deve ter um teor alcoólico entre 10° e 13°. Aqui podemos encontrar alguns vinhos de boa qualidade, com preços relativamente acessíveis, que devem ser tomados jovens, entre três a quatro anos.

Caso o rendimento seja inferior a 50 hl/ha, o vinho pode ser enquadrado na classificação Bordeaux Supérieur, um degrau acima. São vinhos da mesma região, mas com maior exigência de qualidade, mesma norma de teor de álcool e exigência de envelhecer por pelo menos 9 meses antes de ser comercializado. São vinhos, normalmente, de maior qualidade, com uma enorme variação de preços. Mais estruturados e concentrados, são fechados quando jovens, podendo ser guardados por cerca de 6 a 7 anos.

Os espumantes também ficam na categoria genérica, com o nome Crémant de Bordeaux.

Os vinhos de Appellation Genérica correspondem a cerca de 45% do total produzido na região.


Solo no Pomerol, Bordeaux

Appellation regional


A região de Bordeaux apresenta diversos tipos de solo. Outros fatores, como proximidade do mar e insolação também são importantes para definir a personalidade do vinho. Assim, ao se restringir a área da qual podem ser colhidas as uvas, a probabilidade de se obter um vinho com mais características do terroir aumenta. Por isso, as denominações regionais agrupam áreas com características de solo, microclima, uvas e tipos de vinho produzidos similares.


Appellation comunal


Algumas das denominações regionais incluem classificações ainda mais específicas, de acordo com a comuna ou distrito de origem das uvas usadas. Logo, espera-se que um vinho de Appelation Comunal seja de alta qualidade – até porque o preço certamente será alto. Alguns dos grandes châteaux de Bordeaux possuem uma reputação tão alta que acabaram nomeando toda uma comuna: o Château Margaux, por exemplo, é classificado como Appellation Margaux Contrôlée.


Os Crus Classés


Dentro das AOC Comunais distinguem-se os vinhos de qualidade excepcional, reconhecidos oficialmente, que são classificados como Crus de diferentes níveis (de 1 a 5). O Cru sempre recebe a AOC Comunal da sub-região na qual se localiza e é elaborado por um único vinicultor cuja propriedade denomina-se, geralmente, Château. Por exemplo, na AOC Pauillac existem dezenas de Châteaux, mas os vinhos do Château Latour, do Château Mouton-Rotschild e do Château Lafite-Rotschild são considerados os três melhores Crus, pois são produzidos nos melhores terroirs de Pauillac.


Embora a relação de vinhos classificados como crus na lista de 1855 tenha ajudado a reorganizar as avaliações de preços e o mercado de exportações de vinhos da região, muitos produtores saíram descontentes com o resultado. Isso porque a seleção dos vinhos Crus Classés foi feita apenas entre aqueles produzidos nas regiões de Médoc e de Sauternes.


Vinhedos em Bordeaux
Hierarquia dos crus classés do Médoc:


  • 5 Premiers (4 do Médoc e 1 de Graves)
  • 14 Deuxièmes (ou Séconds)
  • 14 Troisièmes
  • 10 Quatrièmes
  • 18 Cinquièmes





Os Crus Bourgeois e outras classificações


Em oposição às regras rígidas da classificação de 1855, o sindicato de produtores do Médoc criou a classificação dos Crus Bourgeois (crus burgueses, já que os classés seriam “aristocráticos”) em 1932 para tentar reverter os maus resultados das vendas. A ordenação seria revista algumas vezes, tendo sido consolidada sua atual estrutura entre 1966 e 1978.

Foram auditados 490 châteaux e classificados 247 em ordem de qualidade baseado no terroir, vinificação e outros quesitos técnicos. Se você encontrar um rótulo em que conste Cru Bourgeois, já saberá que este vinho é produzido no Médoc, que fica na margem esquerda e tem como cepa preponderante a Cabernet Sauvignon.


Château em Bordeaux, França

Os vinhos dentro dessa hierarquia podem ser classificados como crus Bourgeois Exceptionnels, Grands Crus Bourgeois ou Crus Bourgeois, em ordem decrescente de importância, embora no rótulo todos só possam usar o adjetivo mais simples – Crus Bourgeois. Se por um lado a qualidade de muitos crus classés oscilou em mais de um século e meio desde a classificação, é possível encontrar crus bourgeois desde medianos, pouco melhores que um Bordeaux genérico, até ótimos, superando em qualidade alguns crus classés de menor qualidade.

Existe também uma nova classificação criada por Decreto Ministerial em janeiro de 2006, chamada Crus Artisans, que contempla 44 vinícolas familiares que cuidam de tudo: desde o plantio, passando pela vinificação até a venda de seus próprios vinhos.

Saint-Émilion, na margem direita, criou sua própria classificação em 1955, por iniciativa do sindicato local. Mais sucinta e objetiva, ela divide os vinhos em Grand Crus Classés (estes divididos em Premier Grand Cru Classé A e B e Grand Cru Classé) e Grand Crus. Ela é revista a cada 10 anos.

Na outra margem, vizinha ao Médoc, a região de Graves selecionou em 1959 seus 17 châteaux merecedores de classificação – 14 vinhos tintos e 10 brancos são considerados classés.



Petrus, Pomerol
E o Château Petrus, um dos vinhos mais caros do mundo, como ele se encaixa nessas classificações? Esta vinícola está situada na AOC Pomerol, que não tem nenhuma classificação especifica. Então ele é, “simplesmente”, um AOC Pomerol. Na prática, é considerado como um sexto Premier Cru, um verdadeiro ícone no mundo do vinho.


Já sabe ler um rótulo?


Vinhos de Bordeaux
Agora que você já aprendeu um pouco mais sobre as classificações dos vinhos de Bordeaux, fica mais fácil ler um rótulo de vinho daquela região, certo? Em todos eles você vai encontrar a classificação: Bordeaux Superiéur, Cru, Grand Cru, Cru Borgeois, e por aí vai.


Outra palavra encontrada em praticamente todos os rótulos de vinhos de Bordeaux é Château. E a explicação é simples. Como a maioria dos vinhedos estava localizada ao redor de castelos (châteaux, em francês), as vinícolas acabaram sendo batizadas com seus nomes. Atualmente nem todas as vinícolas têm castelos próprios, mas mesmo assim são denominadas châteaux.



Château em Bordeaux, França
Mis en Bouteille au Château – o que é isso? Significa que as uvas daquele vinho foram cultivadas e vinificadas no próprio château. Ao pé da letra, é “engarrafado no château”, ou seja, quando todas as etapas da produção do vinho passaram pelos cuidados do próprio vinicultor. Os franceses valorizam muito essa qualidade, pois ninguém melhor que o vinicultor para conhecer toda a tipicidade de seu próprio terroir.

As uvas raramente aparecem no rótulo de um vinho de Bordeaux. Cada região utiliza uma combinação específica, cujas proporções mudam de safra para safra. Assim, a forma mais fácil de saber que uvas o vinho leva é conhecendo um pouco sobre a região de onde ele vem.

Bom, hoje aprendemos um pouquinho mais sobre os vinhos de Bordeaux. Na minha opinião, a parte mais complicada, que é a classificação dos vinhos. Nos próximos posts, vamos ver as diferenças entre margem esquerda e margem direita e as consequências na produção dos vinhos. 

Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 30/09/2016.





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Parceria Blog da Gavioli e Viva o Vinho 



Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Esta semana fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

A cada quinzena uma nova postagem ficará em destaque aqui no blog. Aproveitem!!! 


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Páscoa: bolo de chocolate


Clube das Comadres



Como será a comemoração da Páscoa para você? Um almoço em casa com a família e os amigos ou uma celebração em casa de amigos ou parentes? 

Não importa se vai receber ou ser recebido, aqui tem uma dica gastronômica nota 10 pra você fazer bonito demais!  

Encontre esse post completo também no site do Clube das Comadres na área dos Colunistas em Hospitalidade e Gastronomia ou acessando diretamente o link.


--- tags: bolo de chocolate, bolo de Páscoa, sobremesa, hospitalidade, almoço de família, família, #clubedascomadres


                                             


Leia o texto na íntegra:


Bordeaux: tradição e excelência na produção de vinhos


Parceria Viva o Vinho


  





Apesar de ser um dos mais prestigiados e antigos produtores mundiais de vinho, demoramos para trazer a França como tema de um evento da Confraria Viva o Vinho.  

Comprar um vinho francês não é tarefa simples para nós, brasileiros. Além do preço da grande maioria ser um tanto elevado, a imensa variedade de regiões e sub-regiões, o fato de geralmente não trazer as uvas no rótulo e as denominações completamente diferentes de outros países são alguns dos fatores que afastam grande parte das pessoas dos vinhos franceses.Mas é impossível falarmos de vinho sem visitarmos a França pelo menos uma vez. Por isso,  vamos fazer uma imersão na região de Bordeaux – uma das regiões mais importantes do mundo na produção de vinhos – e desta vez teremos mais de um post, devido ao grande volume de informações. Vamos começar nossa viagem?



Tradição e qualidade


Saint-Émilion, Bordeaux, França


























Não é por acaso que, quando se busca uma referência em termos de vinho de qualidade, França é o primeiro nome que vem à cabeça. Uma série fatores contribuem para isso: a grande variedade de climas e solos de seu vasto território (a França é o segundo maior país da Europa, atrás apenas da Rússia); uma gama de variedades de uvas de alta qualidade, caráter e adaptabilidade; e sua longa história ligada ao vinho.
Dentre as diversas regiões do país produtoras de vinho, Bordeaux é, sem dúvida, a de maior prestígio e, ao mesmo tempo, a que abriga o maior número de vinhos de alta qualidade. Posicionada no litoral sudoeste da França, Bordeaux é uma região entremeada pelos rios Dordogne e Garone, que, ao se encontrarem, dão origem ao Gironde (maior e mais influente que os demais). Seu próprio nome faz referência aos rios (Bordeaux deriva da expressão francesa “au bord de l’eau”, que significa “ao longo das águas”).

Nenhuma região vinícola do mundo produz tantos vinhos de alta qualidade como Bordeaux. A maioria deles são tintos, mas sub-regiões como Sauternes e Barsac produzem vinhos brancos consagrados em todo o mundo.



Terroir perfeito


Talvez a abundância de águas, tanto dos rios quanto do mar, seja um dos maiores atributos de Bordeaux. Além de amenizar o clima da região, as águas provêm melhor ambiente para o desenvolvimento das videiras.

Um antigo ditado de Bordeaux diz que os melhores vinhedos “podem ver o rio”, regiões onde o solo é formado por cascalho e pedras, perfeito para a drenagem da água. A maioria dos principais produtores bordaleses está exatamente nessas localidades.


Os vinhedos de Bordeaux são, em geral, planos e estão em baixa altitude, e os solos bem drenados. Entretanto, a composição desse solo apresenta variações, conforme a localização. E aí começam a ser refletidas as diferenças entre os vinhos de cada “margem”.


Na margem esquerda do Garonne e do estuário do Gironda predominam os solos arenosos misturados a cascalho (“graves”, em francês, que dá nome a uma região de Bordeaux cujo solo possui um grosso substrato de cascalho). No outro lado, ao longo da margem direita do Dordogne e do Gironda, a variedade é maior: argila, calcário, areia e cascalhos aparecem em diferentes trechos e muitas vezes se misturam. Já entre os rios Garonne e Dordogne, na área conhecida como Entre-deux-mers (“entre dois mares”), a composição do solo é basicamente argilo-calcária – um solo mais fértil que acaba prejudicando as videiras.

Devido à influência da corrente do Golfo, quente, e à proximidade do amplo estuário do Gironda, o clima é bastante ameno, temperado oceânico, sob medida para a produção de vinhos que se destacam mais pela sutileza do que pela potência.



Bordeaux beneficia-se, ainda, da Corrente do Golfo, que traz águas quentes do Caribe para o norte da Europa, estendendo a estação de crescimento das plantas e amadurecimento dos frutos, reduzindo o risco de incidência de geadas. Em contrapartida, a proximidade do Oceano Atlântico eleva a incidência de chuvas e umidade. Por isso, embora a floresta de Landes e as dunas de areia da costa protejam as áreas de vinhedos dos ventos mais fortes e ajudem a estabilizar a temperatura, a variação das safras é um fator importante quando falamos de vinhos bordaleses, embora os grandes produtores consigam mais homogeneidade de qualidade de seus vinhos por meio da rígida seleção das uvas.

A umidade é mais elevada nas regiões à beira dos rios próximas à floresta de Landes, como Sauternes: graças a isso, as uvas brancas são atacadas pelo fungo Botrytis cinérea, responsável pela desidratação das uvas que produzem o vinho doce mais valorizado do mundo.


Mais de 2 mil anos de história



A história dos vinhos em Bordeaux data de cerca de 2 mil anos atrás, tendo seus primeiros registros no tempo dos romanos, quando algumas vinhas foram plantadas na região. Mas os vinhos de Bordeaux entraram para o hall da fama na Idade Média, quando a duquesa francesa Eleanor de Aquitânia casou-se com o rei da Inglaterra, Henrique II. Essa aliança viria a abrir a região de Bordeaux para o mercado inglês, estimulando seu rápido desenvolvimento e, anos mais tarde, ajudando o mundo a descobri-la.

O primeiro produtor de vinhos de Bordeaux de que se tem notícia foi o poeta latino Décimo Magno Ausônio, que viveu aproximadamente entre os anos 310 e 395. Foi Ausônio o primeiro autor a mencionar o cultivo de videiras e enaltecer os vinhos na região (o Château Ausone foi nomeado em sua homenagem).


Registros históricos indicam que, naquela mesma época, a viticultura teria se consolidado no local e nos arredores, sob domínio de Roma. Mais tarde, quando caiu o Império Romano, pouco se soube sobre Bordeaux. A retomada se deu no reinado de Carlos Magno, que teria tido grande interesse em Fronsac. A partir do século XI, com a expansão econômica da Europa, a demanda por vinho se intensificou. O novo porto de La Rochelle, no norte de Bordeaux, trouxe riqueza para a região e, no século XII, tanto a produção quanto o comércio de vinhos aumentaram.


Entretanto, como falamos antes, a grande virada de Bordeaux deu-se sob domínio inglês. Em 1152, Eleonora da Aquitânia, filha de Guilherme X, casou-se com Henrique de Plantagenet, coroado como Henrique II, em 1154. Os territórios de sua esposa haviam sido adquiridos por Henrique II e, com isso, boa parte do oeste da França ficou sob administração inglesa (situação revertida apenas em 1453, com o final da Guerra dos Cem Anos). Para conquistar a confiança da população local, o governo inglês favoreceu as vendas de vinhos de Bordeaux no mercado inglês, dando isenção ao imposto de exportação cobrado no porto. Com isso, os vinhos da região conquistaram o mercado da Grã Bretanha, que comprava mais de um quarto do total da produção.



Mesmo com a reconquista da região pela França, em 1453, o comércio de vinho com a Inglaterra continuou, já que o “claret” – nome dado pelos britânicos ao vinho de Bordeaux por sua coloração rubi clara – havia conquistado reputação. Com o fim do domínio inglês, os comerciantes holandeses passaram a dominar a compra do vinho da região. Foram os holandeses, aliás, os responsáveis pela drenagem dos pântanos que dominavam o Médoc, no século XVII. A mudança no gosto dos consumidores ingleses, que queriam vinhos mais concentrados, e a ocupação destas terras drenadas por vinhedos definiram a identidade atual do vinho tinto bordalês.


A segunda metade do século XIX foi bastante agitada na região: enquanto surtos de míldio e filoxera derrubavam a produtividade e a qualidade, a classificação de 1855 feita pelo Syndicat de Courtiers estabelecia os melhores vinhos de Médoc e Graves, estabelecendo denominações que duram até hoje praticamente inalteradas. A delimitação do departamento da Gironda e o estabelecimento da Appellation Controlée em Bordeaux só viriam depois, em 1911 e 1936.


Mas isso já é assunto para outro post. Aguardem, ainda nesta semana!

Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 26/09/2016.





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Parceria Blog da Gavioli e Viva o Vinho 



Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Esta semana fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

A cada quinzena uma nova postagem ficará em destaque aqui no blog. Aproveitem!!! 


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domingo, 9 de abril de 2017

Lembranças Saborosas


Revista Bem Mulher, edição número 10



Na sexta passada foi publicada a décima edição da revista Bem Mulher. Na coluna de Gastronomia & Hospitalidade um pouco da minha relação com os cadernos de receitas. Sou louca por eles!  Eu me lembro de muitas histórias em que essas anotações sobre como fazer um determinado prato foram mais do que simples folhas sobre as quais se escreveram ingredientes e preparos. Eles carregam emoções que, muitas vezes, nem nos damos conta... 

tags: caderno de receitas, lembrança, memória, modo de fazer, #revistabemmulher 







(Se preferir, leia aqui matéria na íntegra)