sexta-feira, 26 de maio de 2017

As regras do bom hóspede

Em todo tempo e lugar estamos sempre pensando que o cliente é rei. Também pensamos que quando viajamos e nos hospedamos numa pousada ou hotel ou mesmo na casa de alguém seja amigo próximo ou distante ou, quem sabe, amigo de um amigo, ou pode ser ainda alguém que aluga parte de sua casa, sempre podemos nos comportar de maneira relaxada e descontraída. Afinal, não é esse o nosso propósito quando viajamos por lazer? Temos em mente nosso merecido descanso e que, diante do pagamento da estadia, tudo podemos. 

Ledo engano, é o que eu lhe digo. 

Não é bem assim que funcionam as relações de hospitalidade. 

Por mais que estejamos alugando temporariamente um espaço e que, por isso mesmo, esse passa a ser um lugar nosso, no qual nós fazemos o que bem quisermos, as coisas não são assim. 

Existem regras que, mesmo não escritas, estão implícitas nas relações entre pessoas. É sinal de boa educação não usurpar da hospitalidade alheia. Quanto mais folgados os hóspedes, menos desejados eles serão.  

Não estou aqui dizendo para você lavar o banheiro e esfregar os azulejos do hotel, nem fazer sequer a cama, já que você contratou um serviço de quarto quando se hospedou. O que estou dizendo é que existem atitudes que não são próprias de bons hóspedes.  

- tags: educação, etiqueta,boas maneiras,hóspede,ser bem recebido

Por exemplo: não é de bom tom deixar roupas espalhadas pelo chão, restos de comidas de qualquer espécie abertas, em especial as que alastram cheiros pelo ambiente,  toalhas e/ou lençóis manchados (seja de tinta, sangue ou qualquer outro fluido corporal), nem o ar condicionado ligado quando você está fora.  Essas atitudes, além de demonstrar que não se tem boa educação, sugerem que lhe falta empatia, porque será uma pessoa como você,  igualmente um ser humano de carne e osso, quem vai recolher a sua bagunça, que vai limpar os seus dejetos, recolher o seu lixo.  

Não é porque você pagou que pode se esquecer disso. 

Eu acredito e professo que uma boa conduta sempre começa com dois pequenos pontos: alteridade (respeitar o outro em suas diferenças) e empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro). 

Num país de raízes escravagistas, segregacionistas e oportunistas como o nosso, que em dias como os atuais, está mais que demonstrado o execrável e condenável modus operandi dos políticos que vendem seus votos, num incessante toma lá - dá cá,  precisamos começar a repensar nossas atitudes mais corriqueiras.  Tratar as pessoas com respeito, dignidade e defender até o fim a igualdade de direitos e condições é primordial para que as mudanças possam acontecer. 

Como meus temas aqui são a gastronomia e a hospitalidade, meu exemplo vem daí, da minha atitude como hóspede. 

Chega dessa sensação de que porque somos clientes, hóspedes ou convidados devemos ser reificados, isto é, vistos como reis. Isso é uma desculpa para nossas atitudes arbitrárias, o que nos torna gente folgada e reforça valores sem noção do outro. 

Quando vamos à casa de alguém para visitar ou para passar uns dias, seja quem for que nos receba merece a nossa cordialidade, nossa deferência. Não há regras escritas sobre isso, é algo pré-existente. 

Cumprir o que foi combinado previamente como datas de chegada e previsão de partida, ser pontual ou avisar que está atrasado, ser cortês, presentar com um mimo ou algo para a casa, oferecer flores à dona da casa, por exemplo, ou ainda se oferecer para lavar a louça ou retirar os pratos da mesa, são bons modos. Isso sem nem começar uma vasta lista de atitudes que pais de crianças pequenas deveriam conhecer, mas que fazem questão de justificar com um mero "ah! é coisa de criança". Uma dica: se você tem filhos e/ou netos pequenos, dar-lhes limites, especialmente, na casa alheia é sinônimo de lhes dar boa educação. Isso não é frescura, nem castração.  Isso fará deles pessoas bem-vindas em todos os lugares.  


Imagem: Di Vasca - uol.com.br 


Nas regras de hospitalidade, o hóspede deve respeito ao seu anfitrião, ele não usurpa do que lhe é oferecido, nem se comporta como se estivesse em sua própria casa. Sentir-se acolhido é uma das melhores sensações que podemos ter, mas isso implica que devemos merecer o acolhimento comportando-nos adequadamente. 

Por mais que eu goste da frase que diz que regras existem para serem quebradas, tenho plena convicção de que quando nos conscientizamos do nosso papel e respeitamos o próximo não teremos tanto prazer assim em jogar fora alguns valores tão essenciais para o bom convívio. 

Tomar vinho branco com carne vermelha pode ser uma quebra de regra aceitável, mas há outras que, definitivamente, não são. 

Pense. 
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Coluna publicada sexta-feira, 26/maio/2017 em Itu.com.br - Gastronomia & Hospitalidade

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Capeletti in brodo, a hospitalidade tem sabor


Clube das Comadres


A hospitalidade, muitas vezes, é sinônimo de acolhimento.

Há momentos na vida da gente em que tudo de que precisamos é um abraço amigo, um olhar ou uma sopa quentinha para arrefecer tristezas. É nessa hora que a hospitalidade tem sabor. Sabor de capeletti in brodo. 

Encontre esse post completo também no site do Clube das Comadres na área dos Colunistas em Hospitalidade e Gastronomia ou acessando diretamente o link.


--- tags: ocapeletti in brodo, hospitalidade, acolhimento, cuidado, aquecer a alma e o coração,  #clubedascomadres


                                             


Leia o texto na íntegra:


domingo, 21 de maio de 2017

As uvas de Bordeaux

Parceria Viva o Vinho




A grande maioria dos tintos e brancos de Bordeaux são produzidos a partir de um blend de cepas. Isso não se dá por acaso: historicamente, por conta da instabilidade do clima, em especial em relação à umidade e ao regime de chuvas, sempre foi arriscado basear-se em uma única variedade de uva.


"A Cabernet Sauvignon é a mais plantada na Margem Esquerda, com solos de cascalho. Na Margem Direita, com os solos de argila, calcário e areia, a Merlot prevalece."

A legislação bordalesa permite o cultivo e a utilização de uma série de cepas, que florescem e amadurecem em épocas distintas, o que faz com que uma eventual geada ou chuva mais pesada não arruíne toda uma safra.

De fato, das 13 variedades permitidas na AOC, destacam-se três tintas e duas brancas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, e Sémillon e Sauvignon Blanc, respectivamente. As proporções de cada uma delas nos blends variam de acordo com a sub-região e o produtor.

A Cabernet Sauvignon é a mais plantada na Margem Esquerda, cujos solos têm predominância de cascalho. Já na Margem Direita, com os solos alternando entre argila, calcário e areia, a Merlot prevalece, seguida da Cabernet Franc.

São uvas permitidas em Bordeaux, sub-regiões e comunas:

Uvas brancas: Sauvignon Blanc, Sémillon, Sauvignon Gris, Muscadelle, Merlot Blanc, Colombard e Ugni Blanc. No caso das três últimas, não podem ser utilizadas nos assemblages, isoladas ou em conjunto, em proporção superior a 30% da mistura.

Uvas tintas: Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot, Carménère e Malbec.



Cabernet Sauvignon

O que diferencia a Cabernet Sauvignon de outras cepas de grande cultivo é sua extraordinária concentração de taninos, pigmentos e compostos aromáticos.

Por isso produz vinhos de cor intensa, que requerem longa maceração e envelhecimento em barrris de carvalho. Suas características aromáticas evoluem com o tempo, proporcionando aos vinhos qualidades olfativas muito mais complexas à medida que os anos passam. 

Os vinhos de Bordeaux com predominância da Cabernet Sauvignon apresentam excepcional potencial de envelhecimento.




Merlot

A Merlot é a uva associada aos grandes vinhos de Saint-Émilion e Pomerol. Segundo o historiador Enjalbert, já em 1784 a Merlot estava documentada nessa região como varietal de boa qualidade.

Em comparação com a Cabernet Sauvignon, a Merlot é menos tânica, embora em Bordeaux ela possa conferir tanto corpo quanto a Cabernet, além de elegância aos taninos e características de frutas vermelhas aos vinhos. A Merlot desabrocha e amadurece cerca de duas semanas antes que a Cabernet Sauvignon. É a uva mais plantada em Bordeaux, com 56% da área cultivada.



Cabernet Franc

A Cabernet Franc adaptou-se melhor ao solo mais úmido da Margem Direita, onde é chamada de Bouchet. Os vinhos com representativas proporções de Cabernet Franc mais famosos do mundo são produzidos em Saint-Émilion: o Chateau Cheval Blanc e o Chateau Ausone.

A Cabernet Franc amadurece cerca de uma semana antes da Cabernet Sauvignon, sem necessitar para isso de tanto calor. Produz vinhos aromáticos, de média estrutura, apresentando desde cedo características frutadas, conferindo aos vinhos taninos elegantes e vivacidade.



Sauvignon Blanc

A Sauvignon Blanc em Bordeaux é muito utilizada em mesclas com a Sémillon, à qual agrega características de acidez e sabor, suavizando a doçura dos vinhos botritizados. Suas qualidades mais marcantes são seu aroma penetrante, lembrando ervas, almíscar, flores e frutas cítricas, e sua excepcional refrescância.

Em sua maioria, os vinhos com predominância de Sauvignon Blanc devem ser bebidos jovens, embora os melhores de Bordeaux possam durar quinze anos, com esta uva agregando complexidade com o tempo.

Aparece nos vinhos doces de Sauternes como coadjuvante, ao lado às vezes da Muscadelle, em mesclas onde a Sémillon é a protagonista. É a principal componente dos vinhos secos de Graves, mais reputados, e de Entre-deux-mers.


Sémillon

Os extraordinários vinhos doces de Sauternes são produzidos a partir desta varietal, uma uva opulenta, doce, untuosa, que predomina na composição dos vinhos com uma proporção média de oitenta por cento do blend.

A casca fina da Sémillon a torna susceptível a ser atacada pelo fungo Botrytis Cinérea, a chamada podridão nobre, que aumenta muito a concentração de açúcar na uva.

É a variedade branca mais plantada em Bordeaux. Nas sub-regiões de Graves e Pessac-Léognan é usada também na elaboração de vinhos brancos secos, sendo uma parceira ideal para a Sauvignon Blanc, pois é menos ácida e mais redonda.


Diferenças de estilos



Vinhedos em Bordeaux

Entre os enófilos apreciadores dos vinhos de Bordeaux, muitas vezes surge a pergunta: você prefere os vinhos da Margem Direita ou Esquerda?

Há quem defenda a Margem Esquerda, apontando que de lá são provenientes os Premier Crus de 1855. Mas há aqueles que tendem para a Margem Direita, indicando que de lá vem rótulos como Cheval Blanc e Petrus, por exemplo. No entanto, a questão principal não é a disputa entre as margens e seus adeptos, mas compreender distintos estilos que algumas vezes estão, sim, separados por um rio.

Os vinhos da Margem Direita, talvez pela maior ­­­porcentagem de Merlot, são mais sedutores e fáceis de beber quando jovens, enquanto os da Esquerda são mais austeros, profundos, com notas minerais e um equilíbrio que exige um tempo maior para ser totalmente atingido.

Em linhas gerais, os vinhos da Margem Direita mostram frutas negras, com notas de dulçor e madurez mais evidentes, além de taninos de textura elegante e sedosa. Já os da Esquerda apresentam um frutado mais contido, de frutas vermelhas, evidenciando mais acidez e taninos potentes.


Cada AOC com suas características


Em termos de vitivinicultura, considera-se que Bordeaux seja uma macrorregião e, assim, as sub-regiões geográficas acabam sendo chamadas simplesmente de regiões.


Vinhedos em Bordeaux
A maioria das regiões geográficas de Bordeaux tem sua própria Appellation d’Origine Contrôlée – AOC –, que são regidas por legislações específicas, que determinam as cepas permitidas, teor alcoólico, métodos de poda e colheita, rendimento de fruta por planta, técnicas de vinificação etc. Somente os produtores que seguem estas regras podem carregar em seu rótulo o título de AOC.

Existem mais de 50 denominações diferentes em Bordeaux, que variam desde grandes denominações genéricas, até pequenas, relativas a determinadas comunas. Entre elas, não existe uma hierarquia clara e determinada baseada em qualidade, sendo mais fácil compreendê-las agrupando-as de acordo com o estilo de vinho produzido em cada uma, considerando-se especialmente as características de cada terroir e a legislação específica da AOC.

Entender a importância da AOC e o que ela representa para a qualidade dos vinhos é de suma importância. Conhecer as características de cada região e que tipo de vinho produzem também é relevante para a escolha do Bordeaux que agrada mais ao seu paladar.

Por isso, nossos próximos posts sobre Bordeaux irão tratar de cada uma dessas sub-regiões, da Margem Esquerda à Margem Direita do rio Gironde. Não perca!

Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 01/10/2016.


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Parceria Blog da Gavioli e Viva o Vinho 



Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Esta semana fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

A cada quinzena uma nova postagem ficará em destaque aqui no blog. Aproveitem!!! 


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Vai ter canja hoje

Há um ano e alguns dias, quando foi votado o apoio do Congresso ao impeachment da então presidenta Dilma, por causa das tais pedaladas, eu publiquei um texto sobre o poder de uma boa canja para amenizar a tristeza de alguns dias na vida da gente.

Hoje, por acaso, aqui em casa vai ter canja no jantar. O Silas, logo que chegou, se animou pra preparar uma boa canjinha pra gente ficar bem aninhado nesse friozinho que faz em São Paulo. Também por acaso o dia de hoje é triste para o país que, diante de tanta sujeira, acusação,  tanta armação e falcatrua, se vê sem saída.

Devo confessar que, no fundo, não me sinto tão triste quanto há um ano.  Talvez eu já tenha me acostumado um pouco a não ter fé ou, quem sabe, talvez esteja sentindo algo como uma sensação de revanche. Questões humanas...




Fato é que já não me assusto quando, a cada dia, surge algo ainda mais grave na política desse nosso pobre país. Esse Brasil do qual já não me orgulho nenhum pouquinho só sequer.

Então, reli o que publiquei sobre a canja há um ano. Tomara que essa sopinha feita com tanto amor possa acalentar um coração que já não acredita, mas ainda sofre pelo Brasil.


Receita de canja

Ingredientes

3 sobrecoxas de frango

1 dente de alho
1 cebola pequena
2 colheres de óleo de girassol ou milho
2 litros de água
2 batatas médias
1 cenoura grande
1/2 xícara (chá) de arroz
sal e pimenta do reino


Modo de fazer

Na panela de pressão destampada, refogue o frango no óleo com a cebola e o alho. Frite bem para soltar bem os sabores do frango. Junte a água fria e feche a panela. Quando levantar fervura, conte 15 minutos.  Abra a panela, retire o frango e corte em pequenos pedaços ou desfie. Retorne à panela.  Junte as batatas e a cenoura picadas em cubos e o arroz cru. Antes de fechar a panela novamente, tempere com sal e pimenta do reino. Feche a panela, quando começar a chiar, ou seja, quando der pressão, conte 5 minutos, desligue o fogo e deixe a pressão sair sem forçar. Isso ajudará a terminar o cozimento.
Sirva em seguida .

Sugestão: se quiser que a sua canja fique mais corada, acrescente um tomate concassé (sem pele e sem semente) quando estiver refogando o frango.  O resto é tudo igual.


Blog da Gavioli: Uma canja para os dias tristes: Não há tristeza nessa vida que uma boa canja de galinha feita pela mãe ou a avó não diminua.  Eu, na minha vida toda, quando estive trist...