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sexta-feira, 10 de março de 2017

Cebola roxa com molho de nozes


Salada sofisticada que impressiona


Cá estou eu nas novas empreitadas da vida. Ora invento uma novidade, ora outra. E assim os dias não são monótonos e nem tampouco sem tempero.

Ando pesquisando ingredientes e sabores para um menu novo do Lá em casa pra jantar. 
Na terça passada, como minha cunhada viria jantar conosco e estamos com o Arthur de férias aqui pela nossa casa até o fim de março, usei ambos para um teste de degustação desta cebola caramelizada no forno e servida como salada. 


tags: comida de verdade, receita, salada, cebola caramelizada, molho de nozes

É essa experiência que divido agora com vocês, contando os ajustes que fiz, bem como a criatividade que usei na substituição de ingredientes de uma receita que, se não fosse por essas substituições, eu diria que copiei completamente.  Vamos lá.

Já que disse que minha inspiração veio de algo já existente, é melhor não contar apenas o milagre, mas também o santo. Até porque, o livro de onde saiu a receita é uma delícia de publicação, repleta de informações preciosas, fotos incríveis e que faz parte do novo selo da Companhia das Letras, que é o Companhia de Mesa.


Foto: Companhia de Mesa
De autoria de Yotam Ottolenghi, um chef conhecidíssimo que fazia um programa de comida mediterrânea na GNT um tempo atrás, a obra se chama Comida de Verdade - Ingredientes frescos e receitas vibrantes para a cozinha diária.  

Foto: Yotam Ottolenghi - The New York Times

Como um assunto puxa outro, o chef Ottolenghi vive na Inglaterra, em Londres, mas nasceu em Israel e também é cidadão italiano. Não sei se puro marketing, mas ele é desses personagens apaixonantes do mundo da gastronomia aparentemente sem segredos. Dá a impressão de que, de perto, a vida dele é super interessante. É chef de cozinha, tem programa de TV,  tem uma coluna na The New York Times Magazine,  tem vários livros publicados e é dono ou sócio de alguns restaurantes e delis na capital britânica. Dá até pra invejar, não dá? 

Fato é que no livro Comida de Verdade, cuja tradução foi feita por Isabella Pacheco, o que deve ajudar um bocado para nos dar impressão de que o autor é muito simpático, Ottolenghi mistura ingredientes meio inusitados e promove uma reflexão sobre o processo de criação dos pratos, bem como do uso de técnicas bem simples de culinária.  


Foto: Rita Lobo - Panelinha
Palmas para a Companhia das Letras, que bem antenada no mercado crescente de títulos da área de gastronomia, lançou o selo Companhia de Mesa. Meus aplausos são porque eu acredito que, em tempos de rapidez de informação, quando a maioria das pessoas acredita que pode buscar qualquer tipo de receita em programinhas editados para o youtube, criar um selo para publicar livros tendo o cuidado de eleger autores, bem como de prezar pela qualidade editorial da publicação, é mesmo uma atitude digna de admiração.  Não que seja novidade para a editora lançar cobiçáveis títulos de culinária. Antes, a Companhia da Letras tinha uma parceria com a editora Panelinha da Rita Lobo, que agora está parceira da editora Senac.  De qualquer maneira, é inegável a qualidade que é posta nas livrarias por ambos. Melhor pra nós! 

Voltando ao assunto da salada, ou da cebola que é a grande atração desse prato, a receita original está na página 176 do livro do Ottolenghi. Procure lá. Essa é uma boa chance de folhear deliciosas receitas e encher os olhos com as fotos. A minha, uma versão bem adaptada, é assim: 



Salada de cebola roxa com molho de nozes




Molho

1/2 xícara de nozes levemente assadas e picadas em pedaços não muito miúdos
1 pimenta dedo de moça sem sementes e picada bem miudinha
1 dente de alho amassado
1 colher (sopa) de vinagre de arroz
2 colheres (sopa) de vinho tinto seco
1 colher (sopa) de azeite extravirgem

Modo de fazer: Misture todos os ingredientes e reserve. Deixe descansar por, no mínimo, 20 minutos. 



Ricota temperada 

100 gramas de ricota fresca 
1 colher (sopa) de creme de leite (pode ser UHT ou fresco)
1 colher (sopa) de alcaparras 
1 colher (sopa) de azeitonas verdes sem caroço
Sal
Pimenta do reino 

Modo de fazer: Esfarele a ricota e leve ao multiprocessador juntamente com o creme de leite. Processe para que dê liga. Acrescente os demais ingredientes e tempere sem parar de processar. Quando estiver tudo bem misturado, desligue o processador e envolva o conteúdo em filme plástico, fazendo uma espécie de rolo, isto é, dê um formato cilíndrico amarrando as pontas como se estivesse embalando uma bala, ou seja, dos dois lados. Dobre as extremidades e leve ao congelador até que fique bem firme. 

Obs: Na receita original o queijo usado era feta ou queijo de cabra cremoso.



Cebola caramelizada

4 cebolas roxas grandes 
Sal, pimenta do reino e azeite

Modo de fazer 

Descasque as cebolas e corte cada uma em 3 rodelas de mais ou menos 2 centímetros de espessura. Distribua sobre uma assadeira antiaderente ou com um Silpat. Polvilhe sal e pimenta do reino. Pincele levemente com azeite e leve ao forno em temperatura de 200 graus por cerca de 45 minutos. Ao final desse tempo, as cebolas devem estar tenras e coradas, quase chamuscadas, na aparência. Se precisar aumente o tempo no forno ou a temperatura. 


Demais da salada 

1 maço de rúcula lavada, escorrida e rasgada, sem os talinhos compridos 
1/2 maço de salsinha crespa picada grosseiramente


Montagem


Quando as cebolas caramelizadas estiverem mornas, monte uma travessa com os vegetais verdes, o queijo (ricota) cortada em fatias e as cebolas. Tome cuidado para não desmanchá-las. Regue com o molho de nozes reservado. Sirva imediatamente. 




Usos dessa receita


Sirva como entrada.  Esse é um prato para ser comer à mesa. Não dá pra servir num coquetel, por exemplo. As cebolas terão que ser cortada e o molho precisa ser bem misturado para que haja a melhor harmonização entre os ingredientes.  


Funciona bem com uma harmonização feita com vinho branco verde. Apesar do vinho tinto no tempero, a cebola prevalece e com a textura das nozes e o sabor picante da pimenta dedo de moça há um perfeito equilíbrio adocicado e ardido que combina com o frisante do vinho verde. 


Sugeri como entrada porque essa é uma comida que abre o paladar. Pode, no entanto, ser um segundo prato, desde que o primeiro não seja também picante. Por exemplo, se antes houver um canapé ou um patê cremoso, sem erro. 


Essa salada também pode servir de acompanhamento de uma carne ou preceder uma comida vegetariana.  


Entre os diversos usos, use mais que tudo a sua criatividade. Monte do seu jeito e seja feliz porque regras existem para serem quebradas, certo?  

O que posso dizer é que fica um prato lindo, colorido, apetitoso e nos dá oportunidade de sentir algo bem diferente na boca. Os ingredientes são baratos e qualquer pessoa pode fazer sem gastar muito, exceto o tempo, porque demora um pouco para executar todos esses processos. Mas isso é culinária, isso é gastronomia! 

Faça no fim de semana, depois deixe aqui um recadinho contando a experiência. 

Gostou? Compartilhe! Comente. Blogs se alimentam de comentários. 

Grande abraço!!! 

Publicado em Clube das Comadres

terça-feira, 26 de abril de 2016

Berinjela com gergelim


Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido,
 e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, 
mais que a morte, a que não tem limites.



Diferente de Fermina Daza, a musa de Juvenal Urbino e Florentino Ariza, no romance O Amor nos Tempos do Cólera, do saudoso Gabriel García Márquez, eu adoro berinjelas! Ela, não. Tinha náuseas. 

Uma das minhas melhores memórias do livro que lemos quase em conjunto, Fabíola e eu, à época da faculdade, é aquela que Fermina promete casamento a Florentino Ariza, desde que ele nunca a obrigue a comer berinjela.  Tão lindo... Atemporal. 

Berinjela (ou será beringela?) é um ingrediente de difícil grafia porque quase nunca lembramos se é com g ou com j.  Um dia aprendi com minha irmã (e minha professora de coisas que realmente importam como ler e dirigir automóvel) para nunca mais esquecer que o J é curvo como a berinjela por isso é a letra dela. Pronto! Não mais tive dúvida ao escrever. 

Costumo usar muita berinjela na minha cozinha. Se alguém que frequenta minha casa for registrar os pratos que são comumente encontrados por lá, seja como antepasto, entrada, prato principal ou guarnição, há de citar os preparos feitos com berinjela. 

Comumente faço ratatouille, é o jeito que mais gosto de comer berinjela, além do que é muito fácil de fazer, rende bastante e é versátil, digo, funciona em várias situações, tanto pode ser servido quente quanto frio, e pode ser feito na panela ou no forno.  A versatilidade também se dá porque além de berinjela, no ratatouille vai também abobrinha, tomate, cebola, pimentão verde, vermelho e amarelo, enfim, a vedete de casca roxa divide o palco com outros sabores. 

Hoje, no entanto, resolvi me aplicar só na berinjela. Por isso, testei um jeito diferente de fazer. Também fácil, cheiroso e, devo dizer, o resultado ficou delicioso. Usei uns segredinhos que vou contar já, já, na receita. 


Berinjela com gergelim


 


Ingredientes

2 colheres (sopa) de óleo de milho ou girassol
1 dente de alho amassado
1 cebola cortada em julienne
1 berinjela grande sem casca cortada em julienne
2 colheres (sopa) de vinagre de vinho branco
sal e pimenta do reino 
1 colher (chá) de óleo de gergelim torrado (eis o segredinho!)
1 colher (sopa) de gergelim torrado
50 ml de azeite extravirgem 
4 anchovas 

Modo de fazer

No óleo, refogue o alho e a cebola, acrescente a berinjela e o vinagre até que os ingredientes murchem e mudem de cor. Tempere com sal pimenta. Em seguida, acrescente o óleo de gergelim torrado. Dissolva as anchovas em 20 ml de azeite quente e misture no preparo. Acrescente o gergelim torrado e misture bem. Finalize com o restante do azeite. Tampe a panela e mantenha fechada por pelo menos 15 minutos. 

Essa berinjela fica muito cheirosa. Apetitosa mesmo! O óleo de gergelim tem um aroma incrível. Basta usar algumas gotas que todo o prato ganha vida.  Por sinal, dá vida a qualquer refeição, mesmo que seja aquele lanchinho fora de hora. 

Sugestões de uso: 
  • Como guarnição para um filé ou frango grelhado acompanhado de arroz integral. 
  • Para um sanduíche natural, com pão integral, maionese, cenoura ralada e alface
  • Fica ótimo como antepasto servido com torradinhas
  • Sobre uma rodelinha de pão de forma, servida como entradinha pronta do tipo canapé. Finalize com uma gota de molho de mostarda
  • Numa salada mais requintada com folhas diversas e camarão
Hummmm... Deu vontade de comer? Bora fazer!  

Na próxima vez que for à feira ou ao supermercado, pense nesse preparo e compre berinjela. Como Fermina Daza, sucumba e prove berinjela. Você pode ser surpreender. 

Até mais!!


Leia também: 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Cooked


Ontem revi um dos quatro episódios da série Cooked, baseada no livro homônimo de Michael Pollan. O livro foi publicado no Brasil em 2014 com o título Cozinhar, Uma História Natural da Transformação e é dividido em quatro grandes temas, os quatro elementos: fogo, água, ar e terra. A mesma divisão foi feita na série de documentários da Netflix



No entanto, como seu título em inglês sugere, o conteúdo é sobre cozinhar. Trata por excelência de comida. Comida de verdade. O uso dos quatro elementos tem forte apelo comercial e funciona bem no imaginário das pessoas, gera curiosidade, mas, na minha opinião, seria desnecessário neste caso. 

Numa correlação que não é muito mais lembrada depois de transcorridos quatro ou cinco minutos de cada um dos filmes, o elemento fogo trata da preparação e da técnica do churrasco; a água evoca a  necessidade de panelas e a nossa memória da boa comida feita pela mãe em casa, enquanto o episódio da terra se refere à fermentação, numa certa forçação de barra para chegar à produção do chocolate e do queijo. Pulei um? Ah! Sim, um dos elementos: o ar. Mas foi de propósito. 

Pela segunda vez em menos de uma semana, quis assistir ao capítulo que se refere ao ar. O motivo é que, pra mim, entre todos, esse é o episódio mais bem roteirizado, com melhor conteúdo e imagens mais atrativas, o que nem de longe desmerece as imagens e a edição feitas nos demais.  O assunto sobre o qual discorre: o pão.  Como poderia não me interessar? 

Michael Pollan é o apresentador dos documentários e, exemplarmente, transita do ambiente da cozinha para o dos laboratórios e das plantações de trigo, para explicar o que, culturalmente, esse alimento, o pão, representa para a humanidade há mais de 6 mil anos. 

Valendo-se de um roteiro didático e usando cenas plasticamente impecáveis, além de gráficos, mapas e ilustrações, o episódio explica o surgimento do pão e como ele se transformou em alimento vital para todos os povos. Aborda a relação existente na fermentação dos grãos moídos para a nutrição das pessoas e alguns tabus como o do controverso glúten, que vem sendo tomado como um grande vilão para a saúde humana nos últimos anos. 

O pão, embora feito de ingredientes simples e fáceis de encontrar, é o resultado de um trabalho de cooperação entre os homens. Entre o semear o trigo e o comer o pão, há um extenso caminho a ser percorrido e observado carinhosamente, o da produção em conjunto. Muitos são os envolvidos no processo de arar a terra, semear, regar, colher, separar os grãos, moê-los para que se tornem farinha e então levedar para que, em harmonia perfeita com as bactérias do ar, se transformem em fermento e façam com que o pão cresça. Não sem antes a farinha ter sido molhada e sovada no ponto exato para que se transforme em massa. 

Pensando bem, não há muita simplicidade nisso tudo. Mas ainda assim o pão é simples. 

Quando disse que achei que a associação dos elementos aos títulos dos filmes meio desnecessária foi porque, embora haja alguma relação entre fogo, terra, ar e água e os alimentos escolhidos como temas, Michael Pollan, um pesquisador, escritor e ativista da comida é tão respeitado e (na minha opinião) tão brilhante em suas publicações que poderia simplesmente escolher os temas sem precisar associá-los aos elementos.  

Em resumo, o pão está no capítulo ar  porque é etéreo devido às moléculas de gás carbônico, ou, podemos chamá-las, de moléculas de ar presas numa estrutura parecida com uma teia de aranha elástica que é o glúten, fruto da sova e do contato da farinha com a água.  

A abordagem poderia ser outra? Até que sim, mas isso não é o que vai depor contra o filme, uma vez que ele, além de informativo, guarda poesia quando evoca a cumplicidade existente entre os padeiros caseiros ou não, Como Michael Pollan e eu, todos os que buscam respeitosamente a técnica e a arte de preparar o pão de fermentação natural são potencialmente cúmplices de uma alegria de viver. 

Num determinado momento, o autor do livro e apresentador  conta sobre como se sentiu intimidado diante do aprendizado do pão. Mais tarde, segurando um pão recém saído do forno, ele diz algo mais ou menos assim: "fazer pão foi a minha maior realização desde que resolvi aprender a cozinhar". Minha identificação foi tanta que confesso que chorei. 

Recomendo aos que amam a arte culinária e valorizam o pão, seja lá de que forma for, se produzi-lo ou só para comer, uma noite dessas, se dê ao direito de ver essa beleza de episódio de Cooked, São só 58 minutos de aprendizado. Quanto ao resto, você forma a sua opinião sozinho, claro! 


Trailler oficial da série na Netflix: 



Leia também  o post:



Sugestões de leitura


Do autor Michael Pollan: Cozinhar - Uma história natural da transformação (2014), Regras da Comida - Um manual da sabedoria alimentar (2010), Em Defesa da Comida (2008) e O Dilema do Onívoro (2007), todos da editora Intrínseca, todos em português. Dá pra se divertir. 





quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Pão nosso

Se o mundo é sem sentido e absurdo, resta dar a ele uma 

forma. Que assim seja: baguette, bola ou batard?



Eis o livro que há muito tempo eu queria e ainda não tinha adquirido: Pão Nosso, de Luiz Américo Camargo, produzido pela Rita Lobo da editora Panelinha (uma divisão da editora Schwarcz).

Sexta passada, pouco antes de sairmos para viajar, o Silas chegou em casa e me deu de presente. Fiquei tão contente! 

O livro é uma dessas delicadezas que às vezes encontramos para comprar que têm o poder de mudar o astral da gente pra melhor. Inspirador para quem gosta de cozinhar e de fotografar e estimulante do apetite para quem quer apenas folhear, sem compromisso. 

Eu fiquei interessada no livro Pão Nosso desde que a Cath, do Blog Utensílios, publicou o post Pão com fermento natural: minha aventura com levain, no início de dezembro de 2014. Já faz, portanto, quase um ano. Na época, fui até a Livraria Cultura, folheei, namorei, mas não comprei. Agora estou inebriada com o presente. 

Não bastasse ensinar a fazer o famoso e perseguido levain ou fermento natural, ainda tem receitas gostosinhas para acompanhar, mas, mais que isso, tem aquele aconchego de amigo ,que lhe dá com carinho uma lição de vida sem arrogância, sem crescer em cima de você, sem se fazer de sabido e bem sucedido. 

Ontem, eu fui me deitar à noite e o sono não vinha. Voltei ao meu Pão nosso que me havia acompanhado praticamente metade do dia. Tanto ele me inspirou que resolvi começar a cultivar o levain. Só vou saber se vai dar certo daqui uns dias. 

Li o livro todinho, de cabo a rabo. Num determinado ponto encontrei: 


O pão ensina
Sempre que eu saio da linha, o pão me alerta. E me mostra que, na vida, posso controlar algumas (bem poucas) coisas só até certo ponto. Que posso ser apressado apenas até um determinado limite.De resto a natureza é soberana. No fundo, não somos nós que aprendemos a fazer o pão de fermentação natural. É o pão que nos ensina. 

Nada poderia ter sido mais pertinente naquele momento do que ser lembrada de que tudo tem tempo para acontecer. Não adianta acelerar, nem procrastinar. Isso só causa desequilíbrio. Nada que vem antes ou depois por mais que possamos interferir ou insistir será natural. Como o parto que só é natural se for no tempo certo da gestação.    

foto: eduluz.wordpress
 


Esse lance de cozinhar, de se entregar a arte culinária, dos saberes que se tornaram saberes por experiência, observação e repetição, às vezes por sorte, mas sempre com olhar atento, e essa noção de que a alquimia é  possível se realizada a partir do aprendizado e da técnica, isso tudo é fantástico porque se torna cada vez mais consciente e mais visceral. 

O pão não tem mágica, tem ciência, observação, experimentação, aprendizado. Com sorte, o primeiro sairá bom, mas não basta a sorte. São necessárias condições específicas para que a transformação ocorra. 

O ingrediente. O tempo. O trabalho. A paciência e a dedicação. A confraternização e a comunhão. É isso que faz o Pão nosso. Ao faltar algum desses itens, não terá sido como deveria. 

Eu poderia ter falado tecnicamente sobre o livro. Mas ele transcende a técnica ao ensiná-la. 

Tenha na sua biblioteca pessoal. Vale a pena. 



Sobre o livro:

CAMARGO, Luiz Américo. Pão Nosso - Receitas caseira com fermento natural. Editora Panelinha. 2014. 3a. impressão. 

Preço: R$ 89,00 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Comida mediterrânea: panna cotta, cuscuz marroquino, arroz doce e outros



Ando com saudade de escrever no blog. Já tem uma semana que não consigo me dedicar tantos são os afazeres dos últimos dias. 



Antes de tudo, quero contar que, ontem, estive rapidamente (eu não poderia deixar de prestigiar)  na noite de autógrafos do querido amigo Weber Fonseca. Acaba de sair do forno, digo da gráfica, o livro LGBTFOBIA. Uma obra necessária em tempos de tanta intolerância como os que vivemos. Parabéns ao Weber pela coragem e pelo resultado do trabalho. Já devorei várias histórias e são tristes porque são reais. 

Nos últimos dias, ando preparando a segunda edição do Lá em casa pra jantar. Esse que é um projeto pessoal de hospitalidade e gastronomia é a minha dedicação quase exclusiva no momento. Entre a preparação do menu e a realização do jantar muitas tarefas ocorrem. Entre elas, os preparos dos pratos para que sejam aprimorados, fotografados e divulgados. 

Nessa segunda vez, optei por um cardápio baseado em comida mediterrânea. Os ingredientes predominantes são azeite, azeitona, pepino, tomate, iogurte, cebolas, nozes e temperos bem característicos, que usam várias hortaliças como manjericão, tomilho e hortelã. 

Na segunda-feira, testei três dos pratos que serão servidos no próximo sábado: uma entrada, um dos pratos principais e uma das sobremesas. 

A entrada feita é uma abóbora assada com cebolas caramelizadas, mel, nozes e queijo azul (que pode ser gorgonzola, roquefort ou outro blue). 



 Para o teste do prato principal da segunda-feira, fiz o porco com molho de iogurte (do tipo frango korma, um prato de origem indiana bem conhecido), legumes no papelote e cuscuz marroquino. 

E a sobremesa foi a panna cotta. 

Ontem, já foi um dia de compras e depois de mais aprimoramento de preparos. Fiz a sopa fria (e até levei pra minha sogra e meu sogro provarem) e o risoto ou arroz doce com especiarias. O arroz doce também já teve receita no blog, então, tem link no final da página.



Dia desses escrevo as demais receitas por aqui, claro, apesar de algumas já terem sido publicadas. Logo no fim desse texto é possível encontrar os links. 

Prometo contar tudo, tudo, tudo sobre o segundo jantar do Lá em casa, nos próximos dias. Agora vou à feira. 

Abraços calorosos e primaveris a todos! Aos de bem e aos demais também. 




>>> Conheça o projeto Lá em casa pra jantar

terça-feira, 16 de junho de 2015

É melhor ser alegre que ser triste


A falta de alegria pode destruir um país. 

Que me acusem de ser petista, algo que nunca fui. Que me acusem de ser direitona, como fui acusada por quase toda a vida e também nunca fui. Em cima do muro, nunca! Não importa o rótulo que me deem, sou independente no pensamento, sou livre e ciente das consequências que posso suportar. Escolho as que suportarei e prefiro o caminho do meio. 

Quando presidentes, Lula e FHC tinham algo muito importante em comum, que a mídia e os eleitores pouco se atentavam porque era natural e o que é comum nem sempre é para ser noticiado. Eles são pessoas alegres, um tanto irônicas e muito espertas no trato social. Políticos de alma, de trejeitos e de coração. Já a presidenta Dilma não é assim. 

Talvez pelo país machista que ela comanda (e foi eleita para tal sempre é bom lembrar e reforçar), ela não tem sido capaz de abandonar uma postura masculina que é a adotada na maioria das vezes por mulheres que assumem cargos muito altos em empresas, no Governo e na sociedade. 

Nesse país machista e racista disfarçado e um tanto reacionário (digo um tanto porque não somos todos reacionários, graças a Deus!), é dada ao elemento masculino a benesse da seriedade temperada com algum humor e, caso o indivíduo tenha uma "alma um pouco feminina" ele será valorizado e mais portas se poderão abrir para sua carreira. Evidentemente isso ocorrerá se ele souber manter-se masculino nas atitudes empresariais e de comando. Às mulheres não se concede o mesmo benefício social. Não lhes parece permitido o bom humor. 

Há alguns anos, em 2008, organizei e realizei no Brasil, aqui em São Paulo, o primeiro Encontro de Mulheres Líderes, com o objetivo de reunir pessoas, homens e mulheres, para falar sobre o papel feminino em postos de liderança. Estudei com afinco o comportamento adotado pelas mulheres quando assumem posições de chefia, especialmente, as mais altas, quando cabem a elas a primeira e a última palavras dentro das organizações. 

Tristemente, observei que as mulheres em posição de liderança são infringidas a adotar uma postura masculinizada e deixam de lado  seu maior trunfo,  o que mais lhes daria vantagens na administração de uma organização: o equilíbrio entre a ternura, a determinação e a alegria. Tornam-se homens de saias tão logo assumem essas posições. O que é lamentável, a meu ver.

Não cabe aqui discutir quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, da mesma forma, portanto, se o machismo é causa ou consequência. É, no entanto, fato consumado. 

Para mim, Dilma, o ser humano, errou ao se decidir, envaidecida, candidata a presidente da república para um segundo mandato. Errou porque não teve limites, talvez porque isso seja mesmo, como conta a história, de sua própria personalidade. Guerrilheira, coração valente.  

Na minha visão, ela assumia algo que não mais lhe cabia porque ela já tinha feito sua parte. Que se digladiassem dali em diante os fétidos lutadores de uma política doente e clientelista que ela não pôde combater. Ela não fora capaz de subverter a ordem das coisas apenas pelo fato de que o sistema ali infraestruturado era bem maior do que ela. 

Os homens com quem ela convive a detestam porque ela tem o poder instituído e legalizado no voto de lhes impor formas diferentes de fazer o que sempre fizeram. Por isso, tramam contra ela e a querem ver no tatame, nocauteada. 

Por sua vez, as mulheres não se veem representadas porque ela decidiu ser um homem no comando, deixando de lado a tal ternura e a alegria das quais falei parágrafos atrás.  E, meu Deus! Como podem ser impiedosas as mulheres umas com as outras... 

No bojo dessa atitude presidencial, que não é muito mais do que o espelho ou a representação personificada do que vive hoje a população brasileira, é quase fácil dizer que o que nos está faltando é alegria, riso, descontração, bom humor. 

Lembrei agora do quanto é importante o circo além do pão. Oh! Quanto mal nos causou uma derrota de 7 a 1 na pelada que jogamos no nosso próprio quintal? Perdemos a graça! Não temos mais confiança em nós mesmos. Mas, de verdade, isso é só ilusão, porque nada mudou. Não há flagelo. A vida segue e pode ser festiva de novo. 

Ontem, assisti ao documentário O Sal da Terra, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado. Nada me chamou mais atenção do que uma foto tirada por ele no meio de um campo de refugiados na África onde quase não se via nada além de fome, miséria, corpos mortos e esqueletos humanos cobertos apenas por pele. 


foto: Sebastião Salgado, livro Êxodos, retirada do portal-cinema.com
Mas ali, naquela foto, havia uma mulher com um bebê pequeno no colo e seu olhar alegre e confiante garantia ao pequeno em seus braços que havia esperança. Coisa de mãe, de amiga, de companheira. Coisa de mulher!  Pensem o que quiserem e acusem as generalizações, mas isso é nosso e ninguém nos tira porque a gente vem assim pro mundo. Só nós mulheres sabemos o que é o sentido da maternidade, da palavra e do palpite entre amigas, da força e do incentivo que damos às nossas companheiras e aos nossos companheiros. Cada um, na sua diferença, mulher e homem, felizmente somos diferentes, tem um papel e uma dádiva. Não se trata de um juízo de valor. 

Quem não se lembrará na vida de alguma vez ter perdido o chão porque, mesmo por um só instante, se viu em situação de morte ou de dor profunda? Passado o impacto, enfrentada a situação, retomamos o nosso propósito maior enquanto estamos vivos. Precisamos da alegria. 

Por que não resgatamos essa alegria então?  O que nos falta? 

Eu tenho uma receita de bolo, que parece fácil, mas é preciso persistência para que dê certo. 

Todos os dias, decida viver em paz: com o seu corpo, com a sua casa, com as pessoas que o cercam e, principalmente, com as palavras. Atenção redobrada ao que se vai dizer em qualquer situação.  Então, escolha boas palavras para a sua vida. Reclame menos. 

Observe o que é bom e ajude a consertar o que não é. 

Fotografe. Essa é a onda. Faça selfies e publique a alegria de viver! Mas fotografe também a flor do seu jardim ou do jardim do vizinho, não importa. É uma flor e ela deixa a vida mais bonita. Ninguém vai te impedir. Se você a fotografar, no mínimo, a terá visto. Já é um bom começo! 

Mude seus hábitos sedentários, mexa seu corpo, faça ginástica. Caminhe. 

Cozinhe de vez em quando. Ou, se não tem vocação, elogie quem cozinhou pra você e agradeça a comida.  Em especial, agradeça de forma consciente todo o ciclo que trouxe a comida até o seu prato, porque isso não é pouco. 

Viva com menos dinheiro e mais contentamento. Fique feliz porque comprou figurinhas na banca de revista, porque pintou um desenho, porque ouviu uma música que gosta ou assistiu algo que o agradou. 

Evite esbravejar, ser ofensivo ou falar palavrão o tempo todo. É feio! Só de vez em quando, se permita um pqp - só quando for realmente necessário para passar a dor do dedinho que você bateu na quina da cama. De outro modo, basta evitar.  

Estamos precisando de alegria, de boas palavras, de vontade, de otimismo. É uma questão de atitude, sim! Contamine positivamente seu ambiente. 

Parafraseando Vinicius de Moraes, que a tristeza tenha sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não. Sem alegria, pode-se destruir um país! 



quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Alta Gastronomia de Massimo Bottura

Netflix e a mesa dos chefs



Li no Caderno Paladar da semana passada que a Netflix lançaria no último dia 26/04, domingo, uma série chamada Chef's Table. Seis documentários dirigidos por David Gelb, o mesmo diretor do filme O Sushi dos Sonhos de Jiro (que eu ainda não consegui assistir).  Cada filme com duração entre 40 e 50 minutos conta um pouco da história de um renomado chef de cozinha. 

Ainda não vi todos, mas o farei. Porque, eu conto logo. 

As escolhas sobre o que assistir aqui em casa são sempre compartilhadas. Por uma questão de afinidade e também por serem apresentados numa determinada ordem e esse vir em primeiro entre os demais cinco, Silas e eu, escolhemos ver o documentário do chef Massimo Bottura. 

Se não quiser minha opinião antes de ver, pare agora e fique com o breve resumo do caderno Paladar: 

Massimo BotturaA história da Osteria Francescana se mistura com a do relacionamento de Bottura com a americana Lara Gilmore. O pedido de casamento foi no dia da inauguração da casa. Ela o convenceu a não desistir do restaurante quando, muito antes das três estrelas Michelin, os italianos rejeitaram sua tentativa de revolucionar a comida tradicional.
É muito mais que isso, claro. 

Antes de tudo, a ideia é muito boa. Entre tantas possibilidades no reino da Gastronomia, escolher roteirizar e documentar a história de alguns chefs de cozinha é mesmo algo bastante interessante. Porque no fundo (e também no raso) quase todo mundo gosta de saber da vida alheia. Personagens ilustres, então, nem se fala: é tiro certeiro. Se não tiver que ler (que é a grande preguiça da humanidade atualmente), ainda melhor. Além do que ser chef está em alta. 

Com ajuda de um diretor de fotografia, que sabe direitinho como transformar imagens em cores que quase exalam sabores, tudo fica ainda melhor. O filme sobre Massimo Bottura é impecável nesse quesito. 

Meio sem motivo, algo como que meio perdido no roteiro, em determinado momento, você é levado para uma "fábrica" de queijos parmesão. A fotografia é tão linda que nós quase engolimos a tela da televisão. Literalmente, dá água na boca ver aquilo. 

Outro momento alucinante é a confecção das massas pelas mãos de Lídia, uma personagem importante para humanizar a história (não que outros elementos não o façam) do chef que ocupa o terceiro lugar no ranking dos melhores do mundo. 

Massimo Bottura é um cara legal. Nem de longe ele é retratado como um homem sisudo ou histérico como é comum vermos chefs na TV. Também não acho que se mataria caso perdesse as estrelas que lhe foram concedidas pelo Michelin, fruto de sua ousadia e destreza. Ao menos, no filme, ele é uma pessoa. Dessas que foram um pouco porra-louca para chegarem onde estão trazendo um passado interessante e não só o do sujeito caxias, dedicado e que nunca erra. 
foto: site da Osteria Francescana

Sua relação com a cozinha tem golpes de sorte. Seu encontro com Lara Gilmore é um desses. Não porque ela lhe tenha aberto portas oportunistas, mas porque o ajuda a ter estabilidade, senso de direção e propósito. Ele é a estrela, ela, o holofote.  

A cozinha italiana, conservadora e farta por excelência, deve mesmo ter sido muito sacudida por alguém como Massimo Bottura. Em se tratando de Alta Gastronomia ele é o ícone italiano, que garante aos raviolinis um espaço no cenário internacional, principalmente, porque não nega suas raízes, mas já que alçou voo e bateu asas, decolou consigo o sabor que ele encontrava quando ficava debaixo da mesa na cozinha da casa da avó ainda menino. 

O filme é uma poesia, muito mais que um documentário. Fala de relações humanas, de um romance entre homem e mulher, de família, com direito a filhos e agregados. Fala de comida, de sabor, de cheiro, de textura. Fala de viagens... 

Ainda que o roteiro escorregue às vezes, é muito delicado e por isso se desculpam possíveis falhas. 

Acertaram o diretor David Gelb e a Netflix. Ganhamos nós, um pouco de poesia para nossas horas de entretenimento. 


foto: spoonhq.wordpress.com
E uma coisa que fiquei pensando já que de vez em quando consigo entrevistar um chef de cozinha: esse chef Bottura, por mais que o documentário seja um bálsamo para sua vaidade e uma excelente peça de marketing para o seu negócio, deve ser um sujeito mesmo arrojado. Para fazer um documentário como qualquer um desses da série da Netflix são necessárias muitas horas de trabalho e disponibilidade. Do contrário, não sai.  Só por isso, eu já acho que ele é mesmo uma grande figura. 


Dia desses vou à Osteria Francescana, em Módena. Quem sabe dou a sorte de conhecê-lo. 

Amanhã, 30/ abril, dia de fechamento, o blog traz o Resumo do Mês. Se tiver perdido algum post e não quiser garimpar na busca, não perca o post de amanhã. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Anthony Bourdain e Tom Standage: que tal ler?


Convidado Especial: Guilherme Aleixo Hungria



Quinta-feira é dia de convidado. Amanhã, continua a série sobre Cuba.

Escrever sobre livros requer alguma ousadia. Não bastam opiniões, é preciso ter boa compreensão daquilo que foi lido.  

No mês passado, publiquei um texto sobre o livro de Michael Pollan, Em Defesa da Comida e, em janeiro, outro sobre meu presente de início de ano, o livro 400 g - Técnicas de Cozinha. Foi quando o Guilherme me sugeriu que lesse também outros dois, um do Antonio Bourdain e outro sobre uma visão da história da humanidade a partir das bebidas. 

Foi mágico! Por que não pedir que ele próprio escrevesse sobre os livros, já que escreve tão fácil e leve e sabe apreciar com critério tanto livros quanto comida? Pedi e ele aceitou. Que alegria! 

Apresento então o convidado especial de hoje: Guilherme Hungria. 

Meu colega durante alguns anos que estive na Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, dividimos a sala e algumas tarefas para atender as demandas da imprensa e do Palácio dos Bandeirantes na área de comunicação da Secretaria. Certa vez, ouvi dele que poderia ser crítico gastronômico porque tem bom paladar e sabe o que é bom e o que é ruim. Concordo. 

Por isso, sob o critério do nosso convidado especial, recomendações de leitura. Apreciem. 

Obs.  A marcação do parágrafo e texto justificado são características marcantes do Guilherme. Dá pra notar?


Dois livros sobre gastronomia


        Com o aumento do interesse pela culinária, naturalmente, tudo o que envolve o assunto, cresce igualmente. E o mercado editorial, sem dúvida, também se beneficia. Publicando livros recheados de fotos espetaculares, de receitas nem tão deslumbrantes assim, ou mesmo os títulos dos chefes pop stars. Enfim, hoje temos acesso à gastronomia de todas as partes do mundo, ao alcance de uns reais, de uma virada de página. Entretanto alguns títulos fogem do lugar comum das receitas.

         Um deles é “Cozinha Confidencial”, do Anthony Bourdain. Pra quem não conhece, o autor é um chefe de cozinha novaiorquino, apresentador de televisão e lutador de jiu-jitsu nas horas vagas. Em seus programas Bourdain viaja pelo mundo provando os pratos e as culturas locais, inclusive do Brasil. Já no livro, seu primeiro, ele mostra com humor e sinceridade, que o mundo maravilhoso de Ofélia, não é bem assim.  Sabe tudo o que você quis saber sobre o que acontece nas cozinhas, mas talvez não o fizesse por medo do que irá saber? Pois então, as respostas estão lá. Nele, o autor, além de despejar histórias pessoais, onde não faltam drogas, excessos e picaretagens, faz o papel de Mister M dos restaurantes, desvendando os segredos mais bem guardados, e nem tão dignos, dos estabelecimentos em que trabalhou. O triste é que, segundo ele, esse é o modus operandi em qualquer lugar do mundo, ou pelo menos era quando foi lançado em 2000. Infelizmente, também, “Cozinha Confidencial” está fora de catálogo no Brasil (alô, Companhia das Letras!), mas é possível encontrar para baixar em PDF.      Outra alternativa, pra quem entende um pouco de inglês, é o artigo que deu origem ao livro, publicado na New Yorker Magazine e disponível no site da revista (http://www.newyorker.com/magazine/1999/04/19/dont-eat-before-reading-this).

              Se o livro de Bourdain, com suas indiscrições reveladoras, não é o mais indicado para ser o tema de uma conversa à mesa de um restaurante, “História do Mundo em 6 Copos” (Editora Zahar), tem tudo a ver....tá bom, vá lá: harmoniza muito bem com o papo em qualquer jantar com amigos. Escrito pelo inglês Tom Standage, editor da revista Economist, aborda a história do mundo sobre a influência de seis bebidas. Da cerveja, na Mesopotânia e antigo Egito à Coca-Cola na América do Norte, passando pelo vinho, destilados, café e chá.

                Muito do que somos e vivemos hoje, acredita Standage, é resultado da influência destes líquidos. Por exemplo, a cerveja ajudou no desenvolvimento da escrita, para ajudar os egípcios a ter o controle dos estoques. O vinho teria desempenhado papel importante na disseminação da cultura grega por outras partes do mundo. Entre os destilados, temos o rum, cuja origem está na cana-de-açúcar brasileira, usado como moeda na compra de escravos e posteriormente como remédio contra o escorbuto, comum entre os marinheiros da época. A Rebelião do Uísque, no recém independente Estados Unidos da América, foi fundamental para afirmação das leis federais no país. O comércio do chá, além da influência na expansão do Império Britânico, foi o que fez com que os chineses criassem o papel moeda. O café, tomado em espaços públicos na Europa, fomentou debates que mudaram o mundo. Em relação à Coca- Cola, Standage faz uma comparação com o papel do chá na história do Império Britânico, para ele a ascensão dos Estados Unidos à superioridade global tem seu paralelo na história do refrigerante.

             Aqui estão apenas dois exemplos da literatura gastronômica a serviço do ócio, relaxamento e do conhecimento. É claro que temos outras opções de leitura, tão boas quanto. Como este blog.


Sobre o autor
  




Guilherme A. Hungria é jornalista e trabalha atualmente como assessor de imprensa na Alesp - Assembleia Legislativa de São Paulo. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Chef, um filme...


Na terça à noite,  assisti  ao filme Chef, de 2014, do diretor Jon Favreau, em que ele mesmo é o protagonista. 


Como já confessei antes minha afeição por filmes cuja abordagem é comida, gastronomia, restaurantes e, também bons atores, de preferência bonitos, não poderia deixar de ver. 

Não vai ser possível me estender muito nos comentários. O filme é bem mais ou menos. Longo demais para um enredo meia boca. Cheio de "vai não vai". Admito que houve momentos que eu, mesmo sem sono, preferia deixar o resto do filme para amanhã. 

Então para resumir, o que é realmente bom nessa produção? 

As imagens de cozinha e comida e, sem dúvida, a música ! Amei a trilha sonora.  Nas primeiras cenas, dá mesmo vontade de dançar. É quando o Chef aparece na cozinha em meio às panelas, fogões, tábuas de cortes e facas, e é apresentado ao expectador numa previsível, mas surpreendente para um ator, habilidade de cortar muito rapidamente os pepinos, cebolas, ralar cenouras, e até dividir em partes de um porco inteiro. 




Se acabasse aí, o filme seria uma ótima publicidade de cozinha. Mas ainda demora para acabar...  

Para contribuir com o diretor, um elenco de amigos estelares: Scarlett Johansson, Robert Downey Jr, e Dustin Hoffman, dispensam apresentações, Sofia Vergara, a Gloria, colombiana do adorável seriado Modern Family, e Oliver Platt, de tantos filmes, entre eles Casanova e Bethoven, o magnífico, além de John Leguizamo, de quem me lembro por causa da minha verdadeira fixação por E.R (Plantão Médico). Contribuem com seus nomes porque nem precisariam estar ali... 

A trama é bobinha, mas para quem está em busca de uma mensagem de superação, dá até para acreditar em mágica. Um trailler velho, empregnado de gordura, vira um food truck transado e impecável, quase como a abóbora transformada em carruagem! Ah! E as filas para comer o sanduíche do chef Carl, mas que é inspiração do sous chef latino Martin? 

Tem também o pequeno Percy, filho do chef, esse, sim, um verdadeiro artista de twitter e facebook.

Só como gancho já que na terça passada publiquei o post Puxando a sardinha... (com previsão de mais dois capítulos), o filme aborda fortemente o assunto mídias digitais e redes sociais na Gastronomia. Tanto para crítica gastronômica quanto para divulgação de serviços. Meio fantasioso e exagerado, mas informativo para quem é meio naif nos recursos da web. 

Como disse, não vale se estender. Como diversão, dá pra assistir. Faça isso em casa, assim poderá dançar porque a música é mesmo contagiante. 

Cinema de gastronomia também está na onda, então por que não tentar fazer bilheteria com o assunto? Acho que a proposta, no fundo, foi essa. 

Até breve!