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domingo, 13 de agosto de 2017

Os destaques da margem direita de Bordeaux

Parceria Viva o Vinho



Esse é o quinto e último post da nossa série sobre Bordeaux. Já contamos a história da região, falamos sobre a difícil classificação de seus vinhos, as uvas permitidas na sua composição e as regiões da margem esquerda. Hoje, para finalizar, vamos falar sobre a margem direita e a região Entre-Deux-Mers (entre dois mares), além de dar algumas dicas sobre como comprar um vinho de Bordeaux.


"Cruzar a margem do Gironde é como viajar para outra região"

Cruzar a margem do Gironde é como viajar para outra região. As comunas à direita em nada lembram as da margem esquerda, com luxuosos châteaux e vinhedos enormes. São mais modestas, menos conhecidas e, além disso, quem domina a região é a Merlot, e não a Cabernet. Na margem direita, o solo é diferente. Além do cascalho, que ali já é menor, há também argila e calcário em diferentes trechos. O clima é mais ameno.
Na região está Libourne, considerado o centro comercial da margem direita, tanto que os vinhos de Saint-Émilion, Pomerol e Fronsac, por vezes, são chamados de Libournais. Embora englobe várias sub-regiões, os holofotes voltam-se para Saint-Émilion e Pomerol.



Saint-Émilion


Saint-Émilion, Bordeaux, França

Saint-Émilion é a denominação da margem direita que mais produz vinhos, alguns deles feitos em pequenos châteaux e que atingem altíssimos preços. Quanto menor o vinhedo, menos mão de obra necessária, certo? É o que acontece em Saint-Émilion, e por essa razão os vinhos são, em sua maioria, feitos pela própria família dona da propriedade. Um dado curioso sobre a região confirma o fato: para cada três habitantes existe um château.

Diferente das outras, Saint-Émilion é distribuída em colinas de calcário, as chamadas côtes. Além disso, é a comuna mais medieval de Bordeaux, chegando a lembrar uma fortaleza.

Os vinhedos são dominados por Merlot e Cabernet Franc. O solo é calcário argiloso, determinando a longevidade dos seus tintos. Uma das características marcantes da região é a variabilidade das safras.

Os melhores vinhos da denominação saem do Château Cheval Blanc, Château Magdelaine ou Château Ausone.


Pomerol


Petrus, Pomerol
A menor das sub-regiões de Bordeaux é também uma das que mais atraem olhares de seus apreciadores. Mas até o início do século XX, ela passava despercebida. O motivo da reviravolta? Simplesmente por ser a casa de um dos mais prestigiados châteaux do mundo, o Petrus. 

É lá, portanto, que estão os vinhos mais caros de toda Bordeaux e talvez do mundo.

Mais de 70% da região é coberta por Merlot e o restante é praticamente exclusivo de Cabernet Franc. Isso porque seu solo resulta da mistura entre argila e calcáreo, perfeito para ambas.

Nas melhores regiões de Pomerol nascem vinhos aveludados e ricos em notas de ameixa, cacau e violetas. Vinhos que combinam intensidade e elegância. É por essas características que é mais fácil encontrar Bordeaux de Pomerol num restaurante a um vinho de outras sub-regiões. Eles são fáceis de beber e não precisam de tantos anos de guarda para chegarem ao auge.

Além do Château Petrus, o Pomerol também produz o Le Pin, um “ vin de garage” de produção minúscula e alto preço.


Fronsac



Chateau La Riviere, Fronsac, Bordeaux


Menos conhecidas, Fronsac e Canon-Fronsac também estão na margem direita de Bordeaux e usualmente produziam vinhos cheios de vigor e notas de especiarias. Porém isso vem mudando em favor de tintos mais corpulentos, macios e untuosos, buscando um estilo mais similar aos encontrados nos seus vizinhos mais famosos.

Alguns produtores de destaque nessas regiões são Château de Carles, Château Fontenil, Château Moulin Pey-Labrie, Château le Trois Croix e Château Villars.


Outras denominações na margem direita


Também na margem direita, Côtes de Castillon e Côtes de Francs receberam sua própria AC em 1989 e os vinhos da região, quando bem elaborados, lembram os de Saint-Émilion, menos encorpados.

Côtes de Bourg está situada ao norte do rio Dordogne e produz tanto vinho quanto Bas-Médoc, assim como sua vizinha imediata Côtes de Blaye, que possui os vinhedos mais ao norte, situados na margem direita. Os melhores vinhos costumam ser redondos, encorpados e mais acessíveis quando jovens. As uvas Merlot e Cabernet Franc predominam na mescla de seus tintos, que lembram, no estilo, aqueles de Fronsac e Saint-Émillion.


Entre-Deux-Mers


Entre-Deux-Mers, Bordeaux, França

 Como o próprio nome diz, a região encontra-se entre os rios Dordogne e Garonne. Apesar de ser a maior zona produtora de Bordeaux e também a maior da França, dentre as regiões AOC, é marginalizada, quando comparada às demais denominações de Bordeaux. Nunca seus vinhos foram classificados e a maioria dos tintos, inclusive, não segue as regras da denominação Entre-Deux-Mers, enquadrando-se apenas como Bordeaux ou Bordeaux Superiéur.

Ali predominam os vinhos brancos secos à base de Sauvignon Blanc e Sémillon, os únicos autorizados a ostentar em seus rótulos a denominação AOC Entre-deux-Mers. São vinhos bons, frescos, florais com um toque picante, para serem bebidos jovens. E por não estagiarem em barrica, ganham leveza e frescor como nenhum outro.


Como escolher seu vinho



São tantas as denominações, características e cortes que dá para ficar confuso, não é? Mas agora que você já leu todos os nossos posts sobre Bordeaux, sabe como comprar um vinho da região?

Ainda é difícil, mesmo para nós, pode ter certeza. Bordeaux é grande e complexo. Mas dá para seguirmos algumas dicas práticas, de acordo com o tipo de vinhos que desejamos. Vamos a elas?


La Rose de Labérgoce Margaux 2008
Prefere os encorpados?

Vá direto para a margem esquerda, onde o solo quente favorece o cultivo da Cabernet Sauvignon. É em Médoc que se concentram os vinhos mais encorpados de Bordeaux, principalmente nas sub-regiões de Saint-Estèphe, Saint-Julien e Pauillac. Os famosos Margaux também são de lá e seguem a mesma linha.

Quer algo refrescante e fácil de beber (e que não pese no bolso)?

Quando o que se procura é acidez e frescor, a aposta certa são os vinhos minerais, que descem redondo, como água. Os melhores são os brancos de Pessac-Léognan, cheios de aromas que lembram pedras e o mar. Se prefere um tinto, opte por cortes com Petit Verdot.


Falando de brancos…

Algo que não se encontra com facilidade em Bordeaux são bons vinhos brancos. Mas eles existem, e seu lugar é Entre-Deux-Mers. Sauvignon Blanc, Sémillon e Muscadet deixam seus vinhos frescos, vivos e frutados, com bom corpo. Beba-os jovens pois, como a maioria dos vinhos brancos, devem ser consumidos até três anos após o engarrafamento.


Chateau Lalaurie

Vinhos complexos para bons conhecedores

Já experimentou de tudo e não se contenta com pouco. É normal: quanto mais aprendemos sobre vinho, mais queremos aprender. Uma boa aposta é a região da Saint-Émilion. Os melhores vinhos de lá são feitos pelas mãos das próprias famílias em produções pequenas.

Os vinhos de Saint-Émilion são tão elegantes que o rei Luis XIV os descreveu como “néctar dos deuses”. São vinhos de guarda, que aguentam anos envelhecendo e evoluindo – eles vão perdendo a cor e ganhando aquilo que chamamos de buquê, uma enxurrada de aromas complexos.


Château du Barry AOC 2012

Vinhos exóticos? Desconhecidos?

Para você, vinho bom é aquele que rende boas histórias para contar? Então procure por um autêntico Saint-Macaire, cuja uva homônima está quase em extinção, mas ainda é resguardada por alguns produtores locais. Saint-Foy-Bordeaux também vale a pena conhecer, é uma região pouquíssimo falada de Entre-Deux-Mers (pode ser tinto seco ou de sobremesa).

E vinho doce, tem?

Muito! É nas regiões de Sauternes e Barsac que estão os mais apaixonados (e apaixonantes) vinhos de Bordeaux. Sauternes é considerada a melhor região do mundo para vinhos de sobremesa, igualada apenas pelos Tokajis, da Hungria. São vinhos dourados e doces, mas elegantes, bem estruturados e complexos. Vale muito a pena provar.

Além disso, Entre-Deux-Mers possui boas denominações para vinhos de sobremesa: Loupiac, Saint-Croix-du-Mont e Cadillac. Guarde esses nomes – apesar de mais simples e menos populares, são encantadores e mais em conta (muito mais!).

Bordeaux para o churrasco?

Carnes que saem amaciadas pela brasa pedem vinhos mais encorpados. A Cabernet Sauvignon e a margem esquerda são ideais. Mas busque também os vinhos que levam Merlot, cujos toques terrosos combinam muito bem com o assado na brasa. As regiões são as mesmas que mencionamos, vá pela ordem: Saint-Estèphe, Pauillac e Médoc.


E naquele jantar especial?

Das duas uma: ou escolhe um vinho jovem, mas no ponto para beber, ou tira aquele que está há anos na adega. Caso não tenha um vinho de guarda, vá para Pomerol. É a terra do Château Petrus (o mais caro e famoso da França), mas também de onde saem Merlots que já nascem prontos para beber – fáceis, aveludados e não precisam de décadas para evoluir. São também mais fáceis de encontrar em restaurantes. Mas lembre-se, é um jantar especial, e se a ideia é brindá-lo com Bordeaux, não será barato!


Château Charmail Cru Bourgeois Haut-Médoc 2007

Presentear também é impressionar

Quer dar um presente para alguém que realmente vai apreciar um incrível vinho de qualidade? O nome Margaux é famoso, não só pelo mundialmente conhecido Château Margaux, mas também pelos outros vinhos da região. Elegância, refinamento, frutas, tostado, café e, às vezes até trufas! Procure por vinhos de 2000, 2002, 2005 e 2009 e veja você mesmo.

Quer impressionar, mas não pode investir tanto assim? Graves é uma bela opção para tintos e brancos. Os vinhos que levam a denominação Bordeaux Superiéur costumam ser mais baratos, pois suas uvas podem ter sido cultivadas em qualquer sub-região. São mais simples, mas ainda assim uma excelente aposta.


Robin Saint Denis 2010

Para esquecer na adega por décadas

Bordeaux é um dos referenciais no mundo dos vinhos quando o assunto é guarda. Os vinhos das melhores safras podem durar 10, 20, 30… 50 anos! É até difícil de acreditar, mas é verdade. Nesse caso, não dá para apostar em qualquer vinho.

Aliás, longe disso. Estes vinhos não estão à venda em mercados comuns. Os mais famosos – Châteaux Petrus, Margaux, Lafite-Rothschild, Latour – são encontrados apenas leilões, e custam oito mil, 12 mil, 20 mil reais.

Ainda não sei do que gosto

O que fazer? Experimentar! Claro, precisa ir aos poucos. Comece pelos frutados (tintos ou brancos) de Graves, pois são mais leves, e seus sabores agradam a qualquer um. Depois disso, passe para os que levam a uva Merlot, a mais macia de todas, fácil de beber. Depois, parta para os cortes com Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, os clássicos dos clássicos de Bordeaux.


Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 06/10/2016.


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Parceria Blog da Gavioli e Viva o Vinho 



Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Então fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

Aproveitem!!! 




sábado, 17 de junho de 2017

O lado esquerdo de Bordeaux

Parceria Viva o Vinho




Quanto menor a denominação, melhor o vinho. É por isso que os melhores vinhos de Bordeaux não estampam seu nome no rótulo, mas o da sub-região. E por ser tão grande, a região francesa possui dezenas delas. Impossível conhecer todas.

Vamos falar aqui das mais importantes, levando em conta uma das principais características: o lado do rio Gironde em que a região se encontra. Isso influencia tudo: o solo, o tipo de uva, o estilo de vinificação, a classificação dos vinhos. À direita do rio, predomina a Merlot; à esquerda, a Cabernet Sauvignon; já Entre-Deux-Mers (“entre dois mares”, em francês) é conhecida por seus brancos.

Sempre que falar em Bordeaux, você vai ouvir falar também de margem esquerda e margem direita. Hoje nosso foco são as regiões da margem esquerda.



Médoc, Bordeaux - França


Nessa margem está o Médoc, que se divide em Haut-Médoc (ao sul) e Bas-Médoc (porção norte, normalmente chamada somente de Médoc). Haut-Médoc, por sua vez, tem várias sub-regiões, incluindo Saint-Éstèphe, Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Na mesma margem fica Graves e suas sub-regiões, como Pessac-Léognan e Sauternes (que engloba Barsac), entre outras.

Nessas áreas predominam os solos arenosos misturados a cascalho graúdo ou pequenos pedregulhos – chamados “graves”. Os graves ajudam a refletir o calor do ambiente para o vinhedo, elevando as temperaturas e favorecendo o amadurecimento da fruta, base ideal para cepas como a Cabernet Sauvignon.

Como regra geral, na margem esquerda os tintos de melhor qualidade são produzidos em Haut-Médoc e Pessac-Léognan, justamente onde os vinhedos são dominados por Cabernet Sauvignon. Eles são estruturados, com taninos firmes e boa acidez, além de terem uma base concentrada de groselha, com notas de carvalho. Esses rótulos têm ótima capacidade de envelhecimento, podendo evoluir por décadas, quando normalmente desenvolvem aromas de cedro e caixa de charuto.


Médoc


No dialeto local, Médoc significa “terra do meio”, por estar situada entre o oceano Atlântico e o estuário do rio Gironde. É uma faixa de terra que se estende por 50 quilômetros do norte da cidade de Bordeaux até quase a foz do rio, espremida pela floresta de Landes ao sul e pelas áreas pantanosas da costa.

O Bas-Médoc não desfruta das vantagens de seu vizinho mais famoso, a começar pelo solo. Aqui, a camada de cascalho não é tão grossa e o solo argiloso, mais pesado, não consegue drenar com tanta eficiência a água, numa área que pela proximidade do mar já é mais úmida que o restante de Bordeaux. Plana e cortada por muitos canais resultantes da drenagem dos pântanos, a região concentra sua produção de vinhos nas áreas com mais cascalho e de altitude menos baixa.

Devido ao clima e ao solo, a Merlot aparece aqui com mais frequência que a Cabernet, por se adaptar melhor ao solo argiloso e amadurecer mais rapidamente. Não há nenhum Cru Classé no Bas-Médoc, mas muitos Crus Bourgeois da região possuem boa relação custo benefício em se tratando de Bordeaux. Entre os châteaux de destaque estão La Tour de By, Potensac, La Cardonne, Tour Haut-Cassan, La Gorre, Vieux Robin e Landon.

Já o Haut-Médoc é a região das grandes estrelas de Bordeaux. Lá estão as importantes sub-regiões de Saint-Éstèphe, Pauillac, Saint-Julien e Margaux, prestigiadas por terem o que muitos consideram o melhor terroir de Bordeaux. Não à toa, estão em peso na lista dos primeiros classificados de 1885.

Além dos 60 Crus Classés e quatro dos cinco Premiers Crus Classés, em Haut-Médoc há mais de 150 Crus Bourgeois de diversos níveis, alguns dos quais comparáveis a Crus Classés de alta patente a um preço mais acessível. A grande maioria dos Classés se encaixam em appélations comunais: apenas 5 dos 60 estão em áreas cuja denominação no rótulo é a genérica Haut-Médoc.

Quanto mais a sudeste e, portanto, mais interior a região, menos úmido é o clima e é maior a concentração de graves (cascalhos) na composição do solo. A camada de cascalho, além de drenar bem o solo, conserva o calor do sol por mais tempo, aquecendo as raízes e incentivando-as a ir mais fundo em busca de água.


Saint-Estèphe



Vinhedos em Saint-Éstèphe, Bordeaux, França

A primeira comuna de fora para dentro na região do Haut-Médoc guarda alguma semelhança com o vizinho e menos reputado Bas-Médoc. O solo ainda possui argila misturada aos graves, e o resultado são vinhos mais ácidos e robustos do que elegantes, que nas safras mais secas costumam resistir melhor que os das demais áreas do Médoc. Os vinhos de Saint-Éstephe podem levar até 20 anos em boas safras para amadurecerem.

Os melhores vinhos e os Grand Crus Classés se concentram na região ao sul, fronteiriça à Pauillac. Os principais nomes incluem Cos d´Estournel, com uma proporção de Merlot pouco usual na região, que torna o vinho bastante suculento; e Château Montrose, à beira do Gironde, com estilo mais próximo ao dos vinhos de Pauillac. O Château Calon-Ségur, o Cru Classé mais setentrional, nos arredores da vila de Saint-Estèphe, tem um estilo que fica entre os dois citados, podendo ser ótimo nas melhores safras.

A região produz também ótimos Crus Bourgeois, em especial a sul e sudoeste da vila de Saint-Estèphe. Os Châteaux Haut-Marbuzet, Meyney, de Pez, Phélan Ségur, Les Ormes de Pez, Beau-Site e Lilian Ladouys são os principais nomes desta área. Nas outras, podem ser citados os Châteaux Cissac, Bel Orme Tronquoy de Lalande e Le Bourdieu, dentre outros.


Pauillac

Pauillac, Bordeaux, França

Logo abaixo de Saint-Éstèphe está Pauillac, a comuna de maior expressão do Médoc. Três dos Premier Grand Cru Classés de 1855 são produzidos na região: Châteaux Lafite, Latour e Mouton-Rothschild. As áreas de vinhedos concentram-se nos solos pedregosos próximos às margens do Gironde.

Complexos, vigorosos e concentrados, com notas de cassis, cedro e caixa de charuto, expressão máxima da Cabernet Sauvignon, os vinhos de Pauillac atingem preços estratosféricos, estando alguns deuxièmes crus e até inferiores no mesmo patamar de qualidade que seus superiores na classificação de 1855.

A cidade de Pauillac é a maior do Médoc e concentra atividade industrial e portuária. Na faixa que margeia o Gironde e o canal de Gaer, que divide a comuna ao meio, o solo é inapropriado para as vinhas. Depois desta pequena faixa, uma linha contínua de vinhedos toma uma área com seis quilômetros de extensão e três de largura.


Château Pichon, Pauillac, Bordeaux, França
Na metade norte da comuna, as grandes estrelas são as propriedades da família Rothschild: os Premiers Crus Classés Châteaux Lafite e Mouton-Rothschild. O Lafite, elegante e macio, é produzido em uma das mais extensas propriedades da região. Já o Mouton, o único a ser agraciado com uma “promoção” desde que a classificação de 1855 foi feita, é denso e encorpado, reflexo de uma maior concentração de Cabernet Sauvignon no seu corte.



Já no sul, o sólido e muito longevo Premier Cru Classé Château Latour divide os holofotes com dois importantes deuxièmes que, originalmente, eram da mesma família: os Châteaux Pichon-Longueville e Pichon Longueville Comtesse de Lalande. Nas últimas décadas, os dois lados travaram uma batalha de prestígio no mundo dos vinhos, com muito investimento em tecnologia na plantação e na vinificação, além de estrutura turística. Bom para os amantes de Bordeaux, que ganharam dois vinhos de altíssima qualidade.


Nos outros degraus de classificação, um dos grandes destaques é o Château Lynch-Bages, um cinquième Cru Classé que nas últimas décadas evoluiu muito sob a batuta de Jean-Michel Cazes. Os Châteaux Duhart-Milon e d´Armailhac, de propriedade de Lafite e Mouton respectivamente, oferecem vinhos de grande qualidade. Outros cinquièmes de destaque são os Châteux Batailley, Haut-Batailley, Grand-Puy Ducasse, Grand-Puy Lacoste e Haut-Bages Libéral, alguns com ótima relação qualidade preço.


Saint-Julien


Château Gloria e Château Cantermerle, de Saint-Julian
Embora não possua nenhum Premier Cru, a minúscula comuna de Saint-Julien concentra uma grande quantidade de vinhos Classés. Situa-se imediatamente ao sul de Pauillac, bem no coração do Haut-Médoc, e produz também vinhos de alta qualidade mesclando as características de Pauillac (vigor) com as de Margaux (fineza e elegância). Onze de seus vinhos constam da classificação de 1855, além de produzir diversos Crus Bourgeois.

A produção de Saint-Julien é bastante consistente, seus vinhos são finos, longevos, de cor intensa e muito persistentes. Precisos e refinados, corretos, é o Bordeaux perfeito para os amantes da região que procuram vinhos a preços um pouco mais acessíveis.

Os Crus Classés que merecem destaque são Château Beychevelle, Château Branaire-Ducru, Château Ducru-Beaucaillou, Château Gruaud-Larose, Château Lagrange, Château Langoa-Barton, Château Léoville-Barton, Château Léoville-Las-Cases, Château Léoville-Poyferré, Château Talbot. Outros Châteaux importantes são Château Gloria e Château Lalande-Borie.


Margaux


Vinhedos de Cabernet Sauvignon no Chateau Margaux

Rivaliza com Pauillac como sendo a região de maior prestígio do Médoc. Em seus 1.300 hectares de vinhedos, onde a uva Cabernet Sauvignon predomina, são produzidos vinhos espetaculares. Com um dos solos mais favoráveis do Médoc, de lá saem os melhores vinhos das melhores safras, conhecidos pela elegância e refinamento. O mais famoso é o Château Margaux, que é uma verdadeira lenda.


Château Margaux
Os vinhos de Margaux apresentam profunda coloração vermelho rubi, grande estrutura e concentração, com aromas intensos e textura aveludada. Os solos são um mix de argila, calcário, giz, areia e graves. O lendário Premier Cru Classé Château Margaux é a propriedade emblemática da denominação, mas existem ao menos outras 20 propriedades bem conceituadas.

Outros Crus Classés que merecem ser citados são Château Brane-Cantenac, Château Cantenac-Brown, Château Dauzac, Château Giscours, Château d’Issan, Château Kirwan, Château Malescot-St-Exupéry, Château Palmer, Château Prieuré-Lichine e Château Rauzan-Ségla. Outros Châteaux importantes são Clos des Quatre Vents, Château Marojallia e Château Siran.


Graves

Vinhedos em Graves, Bordeaux, França

Ainda na margem esquerda está a região de Graves, o lar dos vinhos mais em conta de Bordeaux. O solo característico é uma mistura entre cascalho e quartzo, que compõe os melhores châteaux de Graves. O próprio nome da região deriva da palavra francesa “gravier”, que significa cascalho. Graves AOC estende-se por aproximadamente 3 mil hectares, enquanto a denominação Graves Supérieur ocupa apenas 400 hectares, com plantas de menor rendimento e discreto teor alcoólico.

Château Haut Brion, Graves
Graves é a única região de Bordeaux conhecida tanto por seus vinhos tintos, quanto por seus brancos. Nos tintos, em geral, a Cabernet Sauvignon e a Merlot entram em proporção similar nos blends, que ainda levam Petit Verdot e Cabernet Franc. Uma característica marcante dos vinhos de Graves são as notas defumadas. Nos vinhos brancos, a maioria resulta do corte de Sémillon e Sauvignon Blanc.

Algumas das mais antigas vinícolas de Graves já exportavam para a Inglaterra antes mesmo do século XII. No século XVI, alguns châteaux já eram conhecidos e tinham boa reputação, como é o caso do Château Haut-Brion, um dos mais tradicionais da região. Tão grande era a fama da propriedade que é a única representante de Graves na lista de 1885.


Pessac-Leógnan


Alguns daqueles considerados os melhores vinhos de Graves agora pertencem a uma importante denominação que a região congrega, Pessac-Leógnan.

A região destacou-se oficialmente de Graves em 1987. Em suas comunas produzem-se excelentes brancos e tintos. Na verdade, os melhores vinhedos Cru Classé ao sul da cidade de Bordeaux estão em Pessac-Léognan. O solo é ótimo para a Cabernet Sauvignon, entretanto os vinhos dessa AOC costumam ser mais leves em corpo e mais aromáticos do que os tintos mais finos de Haut-Médoc, além de amadurecerem mais rápido.


Sauternes e Barsac

Château d’Yquem, Sauternes, Bordeaux, França

Ao sul de Graves, ainda ao longo das margens do Gironde, estão situadas as comunas mais doces de Bordeaux. Sauternes e Barsac são grandes produtoras de vinhos de sobremesa. Mais do que simplesmente doces, com notas de mel e damasco, seus vinhos equilibram como nenhum outro acidez e álcool. Além de Sémillon, cepa que reina na região, alguns vinhos também contêm Sauvignon Blanc, ambas atingidas com a dita “podridão nobre”.

Se a umidade elevada, por um lado, é uma preocupação, no caso de Sauternes é um fator positivo. Graças a isso, sobretudo aos orvalhos matinais que evaporam durante o dia, as uvas brancas cultivadas na região são atacadas pelo fungo Botrytis cinerea, resultando na desidratação dessas uvas, usadas na produção de um dos vinhos doces mais valorizados do mundo. O corte clássico é composto de Sémillon, Sauvignon Blanc (cuja função é contribuir com sua boa acidez, balanceando a falta de intensidade da Sémillon) e Muscadelle (que contribui com seu floral pronunciado).


Sémillon com a “podridão nobre”
O clima é um fator tão determinante para que as uvas sejam naturalmente atingidas pelo fungo, que os melhores châteaux se recusam a vinificá-las nos anos em que umidade e calor não foram ideais. Para se ter uma ideia, um dos mais renomados, o Château d’Yquem, não chega a produzir uma garrafa sequer ao menos duas vezes numa década. Preferem lidar com os prejuízos de um ano sem produção a abaixar o padrão de qualidade de seus vinhos.

Além de Sauternes, também Barsac produz ricos vinhos doces, geralmente mais licorosos que os de Sauternes. Os aromas são de frutas e flores, com toques de especiarias, sendo bastante longevos.

Entre os principais Premier Crus de Sauternes e Barsac estão Château Climens, Château Barsac, Château Guiraud, Château Lafaurie-Peyraguey, Château Rieussec e Château Suduiraut. Outros produtores de destaque: Château de Malle, Château Nairac, Château de Fargues, Château Gillete e Château Raymond-Lafon.

Bom, chegamos ao fim de nossa excursão pela margem esquerda de Bordeaux. Espero não ter tornado o texto pesado ao falar de tantos châteaux. O objetivo é contribuir para que reconheçam um bom vinho de Bordeaux quando forem comprá-los. Para terminar a nossa viagem, no próximo post da série vamos abordar a margem direita, onde ficam as regiões de Saint-Émilion e Pomerol. Até lá!


Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 04/10/2016.
 

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Parceria Blog da Gavioli e Viva o Vinho 



Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Esta semana fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

A cada quinzena uma nova postagem ficará em destaque aqui no blog. Aproveitem!!! 


domingo, 21 de maio de 2017

As uvas de Bordeaux

Parceria Viva o Vinho




A grande maioria dos tintos e brancos de Bordeaux são produzidos a partir de um blend de cepas. Isso não se dá por acaso: historicamente, por conta da instabilidade do clima, em especial em relação à umidade e ao regime de chuvas, sempre foi arriscado basear-se em uma única variedade de uva.


"A Cabernet Sauvignon é a mais plantada na Margem Esquerda, com solos de cascalho. Na Margem Direita, com os solos de argila, calcário e areia, a Merlot prevalece."

A legislação bordalesa permite o cultivo e a utilização de uma série de cepas, que florescem e amadurecem em épocas distintas, o que faz com que uma eventual geada ou chuva mais pesada não arruíne toda uma safra.

De fato, das 13 variedades permitidas na AOC, destacam-se três tintas e duas brancas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, e Sémillon e Sauvignon Blanc, respectivamente. As proporções de cada uma delas nos blends variam de acordo com a sub-região e o produtor.

A Cabernet Sauvignon é a mais plantada na Margem Esquerda, cujos solos têm predominância de cascalho. Já na Margem Direita, com os solos alternando entre argila, calcário e areia, a Merlot prevalece, seguida da Cabernet Franc.

São uvas permitidas em Bordeaux, sub-regiões e comunas:

Uvas brancas: Sauvignon Blanc, Sémillon, Sauvignon Gris, Muscadelle, Merlot Blanc, Colombard e Ugni Blanc. No caso das três últimas, não podem ser utilizadas nos assemblages, isoladas ou em conjunto, em proporção superior a 30% da mistura.

Uvas tintas: Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot, Carménère e Malbec.



Cabernet Sauvignon

O que diferencia a Cabernet Sauvignon de outras cepas de grande cultivo é sua extraordinária concentração de taninos, pigmentos e compostos aromáticos.

Por isso produz vinhos de cor intensa, que requerem longa maceração e envelhecimento em barrris de carvalho. Suas características aromáticas evoluem com o tempo, proporcionando aos vinhos qualidades olfativas muito mais complexas à medida que os anos passam. 

Os vinhos de Bordeaux com predominância da Cabernet Sauvignon apresentam excepcional potencial de envelhecimento.




Merlot

A Merlot é a uva associada aos grandes vinhos de Saint-Émilion e Pomerol. Segundo o historiador Enjalbert, já em 1784 a Merlot estava documentada nessa região como varietal de boa qualidade.

Em comparação com a Cabernet Sauvignon, a Merlot é menos tânica, embora em Bordeaux ela possa conferir tanto corpo quanto a Cabernet, além de elegância aos taninos e características de frutas vermelhas aos vinhos. A Merlot desabrocha e amadurece cerca de duas semanas antes que a Cabernet Sauvignon. É a uva mais plantada em Bordeaux, com 56% da área cultivada.



Cabernet Franc

A Cabernet Franc adaptou-se melhor ao solo mais úmido da Margem Direita, onde é chamada de Bouchet. Os vinhos com representativas proporções de Cabernet Franc mais famosos do mundo são produzidos em Saint-Émilion: o Chateau Cheval Blanc e o Chateau Ausone.

A Cabernet Franc amadurece cerca de uma semana antes da Cabernet Sauvignon, sem necessitar para isso de tanto calor. Produz vinhos aromáticos, de média estrutura, apresentando desde cedo características frutadas, conferindo aos vinhos taninos elegantes e vivacidade.



Sauvignon Blanc

A Sauvignon Blanc em Bordeaux é muito utilizada em mesclas com a Sémillon, à qual agrega características de acidez e sabor, suavizando a doçura dos vinhos botritizados. Suas qualidades mais marcantes são seu aroma penetrante, lembrando ervas, almíscar, flores e frutas cítricas, e sua excepcional refrescância.

Em sua maioria, os vinhos com predominância de Sauvignon Blanc devem ser bebidos jovens, embora os melhores de Bordeaux possam durar quinze anos, com esta uva agregando complexidade com o tempo.

Aparece nos vinhos doces de Sauternes como coadjuvante, ao lado às vezes da Muscadelle, em mesclas onde a Sémillon é a protagonista. É a principal componente dos vinhos secos de Graves, mais reputados, e de Entre-deux-mers.


Sémillon

Os extraordinários vinhos doces de Sauternes são produzidos a partir desta varietal, uma uva opulenta, doce, untuosa, que predomina na composição dos vinhos com uma proporção média de oitenta por cento do blend.

A casca fina da Sémillon a torna susceptível a ser atacada pelo fungo Botrytis Cinérea, a chamada podridão nobre, que aumenta muito a concentração de açúcar na uva.

É a variedade branca mais plantada em Bordeaux. Nas sub-regiões de Graves e Pessac-Léognan é usada também na elaboração de vinhos brancos secos, sendo uma parceira ideal para a Sauvignon Blanc, pois é menos ácida e mais redonda.


Diferenças de estilos



Vinhedos em Bordeaux

Entre os enófilos apreciadores dos vinhos de Bordeaux, muitas vezes surge a pergunta: você prefere os vinhos da Margem Direita ou Esquerda?

Há quem defenda a Margem Esquerda, apontando que de lá são provenientes os Premier Crus de 1855. Mas há aqueles que tendem para a Margem Direita, indicando que de lá vem rótulos como Cheval Blanc e Petrus, por exemplo. No entanto, a questão principal não é a disputa entre as margens e seus adeptos, mas compreender distintos estilos que algumas vezes estão, sim, separados por um rio.

Os vinhos da Margem Direita, talvez pela maior ­­­porcentagem de Merlot, são mais sedutores e fáceis de beber quando jovens, enquanto os da Esquerda são mais austeros, profundos, com notas minerais e um equilíbrio que exige um tempo maior para ser totalmente atingido.

Em linhas gerais, os vinhos da Margem Direita mostram frutas negras, com notas de dulçor e madurez mais evidentes, além de taninos de textura elegante e sedosa. Já os da Esquerda apresentam um frutado mais contido, de frutas vermelhas, evidenciando mais acidez e taninos potentes.


Cada AOC com suas características


Em termos de vitivinicultura, considera-se que Bordeaux seja uma macrorregião e, assim, as sub-regiões geográficas acabam sendo chamadas simplesmente de regiões.


Vinhedos em Bordeaux
A maioria das regiões geográficas de Bordeaux tem sua própria Appellation d’Origine Contrôlée – AOC –, que são regidas por legislações específicas, que determinam as cepas permitidas, teor alcoólico, métodos de poda e colheita, rendimento de fruta por planta, técnicas de vinificação etc. Somente os produtores que seguem estas regras podem carregar em seu rótulo o título de AOC.

Existem mais de 50 denominações diferentes em Bordeaux, que variam desde grandes denominações genéricas, até pequenas, relativas a determinadas comunas. Entre elas, não existe uma hierarquia clara e determinada baseada em qualidade, sendo mais fácil compreendê-las agrupando-as de acordo com o estilo de vinho produzido em cada uma, considerando-se especialmente as características de cada terroir e a legislação específica da AOC.

Entender a importância da AOC e o que ela representa para a qualidade dos vinhos é de suma importância. Conhecer as características de cada região e que tipo de vinho produzem também é relevante para a escolha do Bordeaux que agrada mais ao seu paladar.

Por isso, nossos próximos posts sobre Bordeaux irão tratar de cada uma dessas sub-regiões, da Margem Esquerda à Margem Direita do rio Gironde. Não perca!

Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 01/10/2016.


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Parceria Blog da Gavioli e Viva o Vinho 



Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Esta semana fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

A cada quinzena uma nova postagem ficará em destaque aqui no blog. Aproveitem!!! 


sexta-feira, 28 de abril de 2017

A complicada classificação dos vinhos de Bordeaux

Parceria Viva o Vinho




Uma das informações mais tradicionais e ao mesmo tempo complicada para nós, brasileiros, entendermos sobre os vinhos de Bordeaux é a sua classificação. Quem conhece um pouco mais de vinhos sabe que um Grand Cru é excelente – mas o que significa exatamente?

Por meio dessa classificação pode-se compreender melhor a história de Bordeaux.

Vale lembrar que, durante muito tempo, os vinhos das diversas propriedades eram vendidos em barris sem identificação, no máximo com a indicação da cidade ou região de onde vinham. E os produtores bordaleses foram uns dos primeiros a entender a importância do marketing em torno de seus nomes, criando, no século XVII, o conceito de valorizar os vinhos de determinado produtor.


Vinhedos de Bordeaux, França
Com o passar do tempo, o paladar dos ingleses – um dos mercados-chave para os franceses – foi incrementando e eles se tornaram mais precisos em relação ao local em que os vinhos de melhor qualidade eram produzidos. De uma visão geral de Bordeaux, passaram a focar na sub-região de Médoc e, mais tarde, a levar em conta também o produtor em questão. E, neste quesito, quatro se destacavam: Château Margaux, Château Latour, Château Lafite e Château Haut-Brion (o único que não ficava no Médoc, mas sim em Graves, e que foi o primeiro a fazer fama no mercado inglês). Por conta do altíssimo nível destes vinhos – e também seus preços descomunais – eles ficaram conhecidos como vinhos de “primeira propriedade”.


Napoleão III

Outras vinícolas começaram a notar como as primeiras estavam dando certo financeiramente e como valia o esforço de se empenhar na qualidade do vinho. Elas conseguiram criar um reconhecimento similar e ficaram conhecidas como “segundas propriedades” – afinal, seus preços não eram tão altos quanto os das primeiras.

Em 1787 já se tinha definido uma terceira denominação, das “terceiras propriedades”. O sucesso comercial dessa classificação fez com que fosse criada ainda uma quarta classe. Por volta de 1850, havia cinco classes bem definidas nessa hierarquia comercial, abrangendo cerca de 60 produtores.

Finalmente, em 1855, ocorre a Exposição Universal de Paris, que reunia itens de toda a França e do mundo. Para a ocasião, Napoleão III pediu a cada região vinícola que estabelecesse uma classificação de seus vinhos. Foi confiado à Câmara de Comércio e de Indústria (CCI) de Bordeaux o processo envolvendo os vinhos da região.


O que vale mesmo é o preço



Château em Bordeaux, França

O sistema de ranqueamento dos vinhos de Bordeaux foi feito pelos negociantes e foi baseado em resultados comerciais dos vinhos de cada propriedade durante longos períodos de tempo e não na qualidade do vinho apresentado na Exposição Universal ou mesmo da safra anterior – tanto que muitos sequer enviaram vinhos para serem provados na feira.

O que contava era a tradição, a reputação construída em torno dos valores obtidos pelos produtos durante anos. Assim, as categorias foram definidas por faixas de preço, o que fez com que os consumidores já tivessem uma ideia dos valores que seriam cobrados pelos vinhos de cada propriedade. A classificação, na época, contava com 58 propriedades, classificadas em Premiers Crus, Deuxièmes Crus, Troisièmes Crus, Quatrièmes Crus e Cinquièmes Crus.


Thomas Jefferson
Classificações “não oficiais” dos principais vinhos de Bordeaux sempre existiram antes da lista apresentada em 1855. Muitos grandes enófilos da história fizeram suas próprias classificações dos melhores produtores e um dos mais célebres a citar os grandes châteaux em seus apontamentos foi Thomas Jefferson, quando foi embaixador norte-americano na França em 1787. O futuro presidente dos Estados Unidos ficou fascinado com os vinhos ao viver no país europeu. Ao visitar Bordeaux, fez uma lista dos produtos que mais gostou e ela continha vários dos nomes que ficaram eternizados na classificação de 1855.

A lista oficial sofreu pouquíssimas alterações. A primeira ocorreu um ano após a classificação, em 1856, quando o Château Cantemerle entrou para os Cinquièmes Crus. Em 1970, houve a eliminação do Château Dubignon, vendido e incorporado ao Château Malescot St. Exupéry. Depois disso, em 1973, a mais notória inclusão: Château Mouton Rothschild, até então um Deuxièmes Cru, conseguiu, devido à influência política e econômica de seu proprietário, entrar para o seleto grupo dos Premiers Crus, por decreto presidencial de Charles de Gaulle.

A classificação de 1855 alcançou uma autoridade e longevidade e, mesmo com outras versões – efêmeras –, apenas essa lista se mantém válida até hoje. Atualmente, ela conta com 61 propriedades.

Com a classificação – e na verdade, por causa dela – as décadas de 1860 e 1870 ganharam o nome de “A Idade de Ouro”, pois os produtores obtiveram lucros incríveis. A época em si não era nada promissora: o oídio, doença provocada por um fungo, assolava a região e trazia escassez aos vinhos, o que automaticamente aumentava seus preços.Mapa de Bordeaux, França


A construção de uma ferrovia, que ligava Bordeaux à Paris e fora projetada como um escape para o porto marítimo, não foi muito útil para a região mas, mesmo assim, colaborou para os mercados de Paris e cidades da Alemanha e Bélgica.

O efeito mais interessante dessa ligação foi o aumento do número de parisienses que iam visitar Bordeaux. Muitos deles, inclusive, após conhecer a região, se interessaram em comprar terras por ali. Bordeaux se tornou ainda mais glamorosa, a ponto de muitos chamarem a região de uma “extensão da Champs-Élysées”, em menção à avenida mais famosa de Paris.



Como ficaram os vinhos “normais”

Claro que nem só de Crus vive Bordeaux. Aliás, os vinhos “genéricos” respondem por 45% da produção local. Mas como são denominados esses vinhos? Como podemos reconhecê-los ao comprarmos um vinho de Bordeaux.

Só pelo fato de ser produzido em Bordeaux, o vinho já segue uma série de regras, que são mais rígidas quanto mais alta for a sua classificação. A seguir comentamos um pouco sobre cada uma delas. 


Bordeaux, França

Appellation genérica


Um vinho que recebe a Appellation Bordeaux Contrôlée (Bordeaux AC ou AOC) pode ser produzido em qualquer parte da região, desde que use as uvas permitidas e tenha rendimento de, no máximo, 55 hl por hectare. Além disso, o produto final deve ter um teor alcoólico entre 10° e 13°. Aqui podemos encontrar alguns vinhos de boa qualidade, com preços relativamente acessíveis, que devem ser tomados jovens, entre três a quatro anos.

Caso o rendimento seja inferior a 50 hl/ha, o vinho pode ser enquadrado na classificação Bordeaux Supérieur, um degrau acima. São vinhos da mesma região, mas com maior exigência de qualidade, mesma norma de teor de álcool e exigência de envelhecer por pelo menos 9 meses antes de ser comercializado. São vinhos, normalmente, de maior qualidade, com uma enorme variação de preços. Mais estruturados e concentrados, são fechados quando jovens, podendo ser guardados por cerca de 6 a 7 anos.

Os espumantes também ficam na categoria genérica, com o nome Crémant de Bordeaux.

Os vinhos de Appellation Genérica correspondem a cerca de 45% do total produzido na região.


Solo no Pomerol, Bordeaux

Appellation regional


A região de Bordeaux apresenta diversos tipos de solo. Outros fatores, como proximidade do mar e insolação também são importantes para definir a personalidade do vinho. Assim, ao se restringir a área da qual podem ser colhidas as uvas, a probabilidade de se obter um vinho com mais características do terroir aumenta. Por isso, as denominações regionais agrupam áreas com características de solo, microclima, uvas e tipos de vinho produzidos similares.


Appellation comunal


Algumas das denominações regionais incluem classificações ainda mais específicas, de acordo com a comuna ou distrito de origem das uvas usadas. Logo, espera-se que um vinho de Appelation Comunal seja de alta qualidade – até porque o preço certamente será alto. Alguns dos grandes châteaux de Bordeaux possuem uma reputação tão alta que acabaram nomeando toda uma comuna: o Château Margaux, por exemplo, é classificado como Appellation Margaux Contrôlée.


Os Crus Classés


Dentro das AOC Comunais distinguem-se os vinhos de qualidade excepcional, reconhecidos oficialmente, que são classificados como Crus de diferentes níveis (de 1 a 5). O Cru sempre recebe a AOC Comunal da sub-região na qual se localiza e é elaborado por um único vinicultor cuja propriedade denomina-se, geralmente, Château. Por exemplo, na AOC Pauillac existem dezenas de Châteaux, mas os vinhos do Château Latour, do Château Mouton-Rotschild e do Château Lafite-Rotschild são considerados os três melhores Crus, pois são produzidos nos melhores terroirs de Pauillac.


Embora a relação de vinhos classificados como crus na lista de 1855 tenha ajudado a reorganizar as avaliações de preços e o mercado de exportações de vinhos da região, muitos produtores saíram descontentes com o resultado. Isso porque a seleção dos vinhos Crus Classés foi feita apenas entre aqueles produzidos nas regiões de Médoc e de Sauternes.


Vinhedos em Bordeaux
Hierarquia dos crus classés do Médoc:


  • 5 Premiers (4 do Médoc e 1 de Graves)
  • 14 Deuxièmes (ou Séconds)
  • 14 Troisièmes
  • 10 Quatrièmes
  • 18 Cinquièmes





Os Crus Bourgeois e outras classificações


Em oposição às regras rígidas da classificação de 1855, o sindicato de produtores do Médoc criou a classificação dos Crus Bourgeois (crus burgueses, já que os classés seriam “aristocráticos”) em 1932 para tentar reverter os maus resultados das vendas. A ordenação seria revista algumas vezes, tendo sido consolidada sua atual estrutura entre 1966 e 1978.

Foram auditados 490 châteaux e classificados 247 em ordem de qualidade baseado no terroir, vinificação e outros quesitos técnicos. Se você encontrar um rótulo em que conste Cru Bourgeois, já saberá que este vinho é produzido no Médoc, que fica na margem esquerda e tem como cepa preponderante a Cabernet Sauvignon.


Château em Bordeaux, França

Os vinhos dentro dessa hierarquia podem ser classificados como crus Bourgeois Exceptionnels, Grands Crus Bourgeois ou Crus Bourgeois, em ordem decrescente de importância, embora no rótulo todos só possam usar o adjetivo mais simples – Crus Bourgeois. Se por um lado a qualidade de muitos crus classés oscilou em mais de um século e meio desde a classificação, é possível encontrar crus bourgeois desde medianos, pouco melhores que um Bordeaux genérico, até ótimos, superando em qualidade alguns crus classés de menor qualidade.

Existe também uma nova classificação criada por Decreto Ministerial em janeiro de 2006, chamada Crus Artisans, que contempla 44 vinícolas familiares que cuidam de tudo: desde o plantio, passando pela vinificação até a venda de seus próprios vinhos.

Saint-Émilion, na margem direita, criou sua própria classificação em 1955, por iniciativa do sindicato local. Mais sucinta e objetiva, ela divide os vinhos em Grand Crus Classés (estes divididos em Premier Grand Cru Classé A e B e Grand Cru Classé) e Grand Crus. Ela é revista a cada 10 anos.

Na outra margem, vizinha ao Médoc, a região de Graves selecionou em 1959 seus 17 châteaux merecedores de classificação – 14 vinhos tintos e 10 brancos são considerados classés.



Petrus, Pomerol
E o Château Petrus, um dos vinhos mais caros do mundo, como ele se encaixa nessas classificações? Esta vinícola está situada na AOC Pomerol, que não tem nenhuma classificação especifica. Então ele é, “simplesmente”, um AOC Pomerol. Na prática, é considerado como um sexto Premier Cru, um verdadeiro ícone no mundo do vinho.


Já sabe ler um rótulo?


Vinhos de Bordeaux
Agora que você já aprendeu um pouco mais sobre as classificações dos vinhos de Bordeaux, fica mais fácil ler um rótulo de vinho daquela região, certo? Em todos eles você vai encontrar a classificação: Bordeaux Superiéur, Cru, Grand Cru, Cru Borgeois, e por aí vai.


Outra palavra encontrada em praticamente todos os rótulos de vinhos de Bordeaux é Château. E a explicação é simples. Como a maioria dos vinhedos estava localizada ao redor de castelos (châteaux, em francês), as vinícolas acabaram sendo batizadas com seus nomes. Atualmente nem todas as vinícolas têm castelos próprios, mas mesmo assim são denominadas châteaux.



Château em Bordeaux, França
Mis en Bouteille au Château – o que é isso? Significa que as uvas daquele vinho foram cultivadas e vinificadas no próprio château. Ao pé da letra, é “engarrafado no château”, ou seja, quando todas as etapas da produção do vinho passaram pelos cuidados do próprio vinicultor. Os franceses valorizam muito essa qualidade, pois ninguém melhor que o vinicultor para conhecer toda a tipicidade de seu próprio terroir.

As uvas raramente aparecem no rótulo de um vinho de Bordeaux. Cada região utiliza uma combinação específica, cujas proporções mudam de safra para safra. Assim, a forma mais fácil de saber que uvas o vinho leva é conhecendo um pouco sobre a região de onde ele vem.

Bom, hoje aprendemos um pouquinho mais sobre os vinhos de Bordeaux. Na minha opinião, a parte mais complicada, que é a classificação dos vinhos. Nos próximos posts, vamos ver as diferenças entre margem esquerda e margem direita e as consequências na produção dos vinhos. 

Texto escrito por Renata Pacheco Tavares -  Publicado no site vivaovinho.com.br em 30/09/2016.





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Em 2016, no segundo semestre, quando fazia aulas de Estudos de Bebidas com o professor Gerson Bonilha, pesquisando sobre vinhos na internet, encontrei um texto excelente redigido pela Renata Pacheco Tavares sobre vinhos de Bourdeaux. Fiquei encantada. 

Como é comum, uma publicação puxou outra e cheguei ao blog Viva o Vinho, uma produção conjunta da Renata e do Emanuel Alexandre Tavares, marido dela. Desde então, de tempos em tempos, me comunico com a Renata e nunca mais deixei de acompanhar o trabalho deles sobre vinhos.

Esta semana fizemos uma parceria para publicar aqui no Blog da Gavioli o material que eles produzem. Tenho certeza de que todos os leitores do blog só têm a ganhar devido ao maravilhoso conteúdo que o Viva o vinho publica. 

A cada quinzena uma nova postagem ficará em destaque aqui no blog. Aproveitem!!!