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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Mendoza vem aí: preparação


Com seus vinhos e cânions, a Argentina promete


Eu amo a Argentina. Acho um país e tanto, exceto no futebol, claro! Apesar de que agora já nem ligo mais pra isso. Aquele 7 a 1 matou minha alma torcedora como eu nunca imaginei que pudesse acontecer. 



Ainda esta semana embarcaremos rumo a Mendoza, a prometida região dos melhores vinhos produzidos ao sul da América do Sul. A cidade é a capital da província de mesmo nome e fica na parte oeste da Argentina,  aos pés da Cordilheira do Andes, divisa com o Chile. 

Só um aparte: quem nunca viu essa Cordilheira de perto, de cima ou de lado, deveria fazer um esforço pra ver. Ninguém deveria morrer sem ver porque é um espetáculo. Assim como todos deveriam ter a chance de ver o mar pelo menos uma vez na vida. Ponto e basta!


Preparação, planejamento e mente aberta


Já preparando a viagem, há cerca de seis meses compramos as passagens que, no nosso caso, tem uma parada estratégica, na volta, para uma tarde de domingo em Buenos Aires. Também já reservamos um hostel, nada muito caro, mas numa área central e estratégica para que possamos nos deslocar com facilidade. 

O motivo que nos leva a Mendoza é a participação do Silas num congresso e, aproveitando o embalo e a oportunidade, minha pesquisa sobre vinhos e comida porque a cada viagem aprendo e gosto mais desse novo rumo da minha vida. 

Para aproveitar bem uma viagem, fora deixar-se surpreender a cada novo ambiente com seus cheiros, cores, sons e percepções, uma das coisas que considero realmente importantes é procurar se informar sobre o local de destino. 

Se a gente sabe o que existe, fica mais fácil escolher. O tempo de uma viagem quase sempre é mais escasso do que gostaríamos. Eleger os pontos que são imperdíveis é essencial. Do contrário, podemos estar ao lado, bem perto mesmo, de algo que muito nos interessaria sem ir até ele e gastando nosso tempo e dinheiro em algo que não nos agrada tanto.

Como viajo com frequência e de um jeito não muito convencional (o que chamo de convencional é a viagem feita num pacote comprado numa agência de viagens, com reservas feitas pelo agente para  hospedagem, comida, deslocamento e atrações turísticas), muita gente que eu conheço me elege para responder dúvidas de viagem que, muitas vezes, as pessoas sentem vergonha de perguntar para a agência. 

Por exemplo: tem gente que nunca fez câmbio de moeda estrangeira e tem vergonha disso, se sente constrangido.  Isso é besteira. É bem comum a gente se sentir inseguro diante dessas situações e se tem alguém pra ajudar, por que não perguntar? 

Ando pensando em criar um cursinho com dicas para quem não é habituado a viajar mas tem vontade. Principalmente porque, às vezes, não entendemos muito bem o que lemos. Talvez até porque nem sempre quem escreve se preocupa de fato em passar as informações de um jeito fácil. 

Foto:Clube dos Vinhos


Para a viagem da próxima semana, já identificamos os pontos que mais nos atraem na região como Uspallata, Puente del Inca, Parque Nacional de Aconcágua, vinícolas como a Achaval-Ferrer e a Catena Zapata e banhos termais etc. 

Montamos um roteiro prévio (nada muito elaborado) que então inclui: vinícolas, city tour em Mendoza, restaurantes imperdíveis pra mim, cânions e montanhas. 


Foto: ancoradourooperadora.com.br
Nosso roteiro pode ser mudado se oportunidades interessantes acontecerem, para isso é preciso abrir-se para o que rolar e ser flexível. No entanto, se não surgirem fatos novos, já temos mais ou menos desenhado o que queremos fazer. 

De acordo como nosso planejamento, teremos que alugar um carro ou contratar um motorista que nos leve para as distâncias mais longas. Estaremos em Mendoza com alguns amigos e já tratamos de combinar interesses comuns para que possamos agregar ainda mais tanto à viagem quanto à amizade que nos une. 

A excitação pré-viagem é uma delícia. Tem efeito sobre a nossa capacidade de imaginar coisas. Quando a imaginação corre solta, se estamos bem,  ficamos mais alegres e os dias são mais agradáveis. Dá vontade de compartilhar.  

Viajar não é só ir e voltar. É levar consigo expectativas e trazer de volta experiências. 

Mendoza vem aí. Depois eu conto tudo. 


Francis Mallman, Chef's Table

Ah! Só aproveitando a chance. Já escrevi antes sobre uma série de documentários produzida pela Netflix chamada Chef's Table. Um dos episódios é sobre Francis Mallman, um argentino cujo restaurante em Mendoza é muito recomendado. A chef  Paola Carossella, do Arthurito e do Masterchef trabalhou com esse chef premiado. Fica a dica! 

Até mais. 


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ser bem recebido

Coisa mais gostosa não existe!

Chegar à casa da mãe, de um filho, irmão ou amigo e sentir que estava sendo esperado com carinho é a melhor sensação, talvez a mais aconchegante entre todas, que alguém pode ter.

Nessas férias de julho fomos presenteados pelas mais doces recepções nas casas em que estivemos.

Tudo começou com a Raquel, que é esposa do Ian, filho do Silas. Minha nora por extensão e acolhimento, assim como a Júlia, do Pablo, e a July, do Arthur, nos recebeu com os braços abertos, um sorriso cativante de alegria e em sua casa estava prontinha e arrumada, especialmente pra nós, uma caminha gostosa, com lençóis esticadinhos, toalhas de banho limpinhas e cheirosas, bem fofinhas. Como já era noitinha, ela pôs uma mesa com pães (entre eles um de azeitona simplesmente sensacional!), queijos, presunto cru, pistaches, folhas verdes e tomatinhos cereja, e, nem bem chegamos, um espumante espocou e foi servido bem fresco. Nem é preciso dizer que matamos a sede com ele.  Que bom início de jornada!

Assim se seguiram as chegadas. Estou aqui pensando em como fiquei feliz ao ver, na casa do Pablo e da Júlia, o mesmo cuidado quando chegamos depois de mais de seis horas viajando num ônibus congelante e, também em casa de Renata (como se diz na Bahia), de regresso nesse mesmo ônibus: aqueles travesseiros arrumadinhos com fronhas tão macias compondo as camas arrumadas prontas para dormir. Prontas para o nosso descanso de uma viagem num trecho cansativo para percorrer.

Em casa de Aloisio (olha a baianidade reinando novamente), onde não haveria pernoite, era a mesa que estava linda, os pratos dispostos, bem arrumados com seus pares de talheres e uma bela seleção de copos prenunciando que haveria muita comida harmonizada ao melhor estilo chef  Pontes, como agora eu chamo meu "padinho" baiano, que, de nascimento é mineiro. Aloísio é meu padrinho mesmo, de verdade! Dia desses conto essa história, mas não agora.

Cada episódio de chegada, passeio e tempo de permanência nos locais onde estivemos merece uma descrição pormenorizada, o que talvez pudesse render um livro a que chamaria de Férias 2015 no Brasil. Por enquanto, só a versão reduzida, com impressões. Sabe-se lá se não virão posts específicos nos próximos dias.

Camas feitas, mesas postas, coisinhas gostosas para comer, abraços calorosos, sentimento vivo, saudade sendo recriada porque dali a pouco a gente vai dizer tchau pensando que volta em breve, quem sabe, ou que logo vai  se ver em São Paulo, o que também pode ser...

Quando criança, ouvi algumas vezes do meu pai, com sua incrível habilidade de sintetizar em frases curtas algumas sabedorias inestimáveis, que "visita é uma alegria quando chega e duas quando vai embora". Jeito engraçado e, se descontextualizado, até um pouco rude de nos ensinar que abusar da hospitalidade dos que nos acolhem é prática inaceitável.

Por isso, acho que visitar pessoas tem que ter o tempo de passar uma chuva: às vezes mais longa, que demora até uma temporada, outras, só uma breve tempestade de verão, que dura uma hora e já faz estrago mais que suficiente.

Há casas de amigos nas quais nos sentimos tão bem que parecem ser nossa outra morada. Eu sempre digo que tenho um lar em São Paulo, outro em Itu, mais um em Salvador, um no Rio... e até um na Alemanha!

Chegamos de viagem com a mala cheia de roupas sujas, a máquina fotográfica lotada de fotos feitas pelo nosso olhar, eu, pessoalmente, com uma indisposição física resultante de uma infecção alimentar, mas, mais que tudo, com coração e a alma repletos do mais terno amor, do sentimento de amizade sincera e aquecidos pelo calor humano dessas pessoas tão especiais que nos fizeram sentir amados, cuidados, bem vindos, afinal!

De regresso à casa, nos esperava a Nina, nossa gata amada. Mais gordinha, até assustamos, e dois dos meus três vasos de orquídeas completamente floridos. Uma benção! 



Ian mostra seus dotes culinários


Momento degustação...


O sorriso do chef Aloisio Pontes


Registro que subi o Morro do Pai Inácio


Brincando de casinha na praia de Inema com Renata


A casa nova do Pablo e da Juju! 
Meditação do antropólogo

Orquídeas de regresso

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Férias no Brasil

Já sei, já sei, a gente mora, a gente vive no Brasil. 

Mas São Paulo (a capital), pra mim, não é lugar de passar férias. Parece que os dias se vão na sequência do que passa na televisão, ou seja, a rotina permanece. É bom sair do movimento repetitivo de verdade de vez em quando, de preferência por um tempo razoável para sentir que o ciclo se rompeu. Voltar depois, é também um bom prazer. 

Para isso, nada melhor do que férias no Brasil. Eu digo Brasil porque este ano, o Silas e eu, decidimos botar, cada um,  uma mochila nas costas (mais pesada do que deveria) e começar e concluir nosso merecido descanso do mês de julho em lugares que não podem ser mais brasileiros: Brasília - DF, que é a capital do País, passando em seguida pela Chapada dos Veadeiros em Goiás, e depois, Bahia, também com direito à capital e a Chapada Diamantina. 

Desculpem os leitores meu sumiço repentino, devia ter avisado que por alguns dias poderia não haver frequência nos posts. Quem comumente lê o blog, pode ter imaginado muita coisa. Confesso que fiquei feliz e lisonjeada com o contato de alguns seguidores assíduos que me escreveram dizendo que estavam sentindo falta das publicações. O motivo do desaparecimento momentâneo não foi nem de longe algo ruim, ao contrário, uma vez que eu sai para viajar de férias. 


Não fosse pelo idioma, que é "quase" o mesmo que falamos no restante de todo território nacional, esses lugares que visitamos podiam ser mesmo outro país porque são tão diferentes, distantes de intermináveis distâncias, que a gente se dá espaço para perceber que o Brasil é grande, bem grande! 

Adoro férias que me dão vontade de ver, saber e conhecer mais. 

Fora a Chapada dos Veadeiros, eu já tinha estado nos demais lugares escolhidos para compor o nosso roteiro de viagem. Mas, então, por que escolher de novo esses mesmos destinos? É simples, férias de aconchego, de encontro, de família. 

Costumo dizer que o Silas e eu sempre temos "grandes boiadas" quando viajamos porque temos filhos, irmãos (os dele) e irmãos que não são de sangue morando em lugares diversos, quase sempre destinos deliciosos de visitar. E se não forem assim tão gostosos, encontrar as pessoas que amamos nos completa de tal forma que não seria preciso por o nariz pra fora das casas dessas pessoas. Só que como as paisagens ajudam (e muito!) a gente aproveita e junta o agradável ao muito agradável. A questão da "grande boiada" é que a gente acaba conhecendo coisas quase como os locais, ou seja, não ficamos apenas com o que as agências de viagem oferecem aos turistas. 

O roteiro planejado e até agora cumprido com louvor incluiu a casa dos filhos e noras (Ian e Raquel, Brasilia, e Pablo e Julia, Lençois, na Bahia), a da Renata e a do Aloísio, ambos em Salvador, mais Morro de São Paulo e os caminhos, vistas e cachoeiras nas belíssimas chapadas brasileiras, a Diamantina, que é a maior do Brasil, e a dos Veadeiros, estupendo porto atracador do povo bicho-grilo desde que me conheço por gente. 

Entardecer em São Jorge, Alto Paraíso, em Goiás

Cânions, Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

Raquel e eu, na ciclovia no Setor Sul de Brasília - DF

Igreja de Morro de São Paulo - não tem imagem do Santo na Capela  
Pablo em pleno voo no Morro do Pai Inácio, Lençois, Bahia

Lá pelo meio da viagem, conversávamos sobre a noção que poderiam ou não ter as pessoas sobre as distâncias que estávamos percorrendo. Nossa conclusão é que tudo pode parecer próximo quando se olha no mapa, mas o fato é que nosso roteiro incluiu três dos seis distintos biomas brasileiros: Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Só pensando nisso, essa foi uma verdadeira oportunidade para expedicionar pela vasta biologia desse continente que é tão grande, rico e diverso. 

Viagens como essa nos dão a dimensão de que o espírito viajante é que faz com que as pessoas se desloquem tanto para simplesmente se emocionar na descoberta e não, necessariamente, dinheiro e infraestrutura perfeita.  Exemplo disso é que em São Jorge, um pequeno vilarejo de Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros em Goiás, a grande maioria dos viajantes vai de ônibus e lá se desloca só de carona. 

O mais interessante disso não é não pagar pelo transporte. É ter a chance de conhecer gente, falar de assuntos não esperados, compartilhar expectativas, despertar ou ser despertado para outras tão diferentes da sua como viajante ou turista, que é o que vale a pena pra valer, tanto para quem dá como para quem pega a carona. 

Como na época da faculdade eu pedi muita carona na estrada e depois que pude comprar um carro nunca tinha conseguido retribuir e dar continuidade ao ciclo do caroneio, me realizei ao poder oferecer um pouco do meu conforto para quem estava ali ao sol, acenando para os carros que iam na direção que pretendiam ir. Foi um sonho realizado e quero repetir muitas vezes. 

Já estou sentada escrevendo há mais de um hora e nem comecei a contar as peripécias, mas já me chamam para mais uma descoberta. Tenho que ir. Só garanto que o blog continua e que em breve, com as várias coisas novas que aprendi e os sabores que provei tenho muita vontade de compartilhar. Logo!

Abraço imenso, do tamanho do Brasil!!!  

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Pé na estrada rumo a Minas Gerais


Vista de Ouro Preto
As cidades históricas de Minas Gerais sempre foram uma paixão minha. Quando era estudante, ainda no Ensino Médio, naquela época chamava-se Colegial, eu tinha um sonho de conhecê-las, mas tinha que ser chegando de trem. 

Depois cresci, estudei um pouco mais e vi que isso não seria possível. Os trens para passageiros, do tipo Maria Fumaça, daquela visão romântica que eu tinha, só existem nas novelas e numa versão bem menos atrativa para atender milhares de turistas que fazem aquela farofada braba quando viajam, bem sinônimo de gente falando alto e comendo salgadinhos Elma Chips nos vagões. Romantismo passa longe, portanto. 
  
Maria Fumaça - Tiradentes - São João del Rei

A popularização do turismo é, em primeira mão, excelente para a economia das cidades, mas leva a esse resultado também. Apesar da balbúrdia nem sempre muito divertida para alguns, mas bem feliz para outros, é melhor que seja assim. Embora não goste de lugares cheios e barulhentos, eu sempre prefiro que todos tenham oportunidade de conhecer novos lugares e aprender com isso. Educar-se é um processo afinal e o turismo é uma boa fonte para o aprendizado. 


Fachada Igreja de Bom Jesus de Matosinhos - Congonhas
Minas Gerais é um estado cheio de história, de saberes e sabores muito genuínos. Entre as cidades mineiras que se destacam como patrimônio da humanidade está a linda Ouro Preto, com suas igrejas, casarões, museus e, claro, muita história para ser contada. Destacam-se também Mariana, Tiradentes, Sabará, Congonhas e São João del Rei. Todas têm em comum obras do período Barroco no Brasil, que teve como ícone máximo o mestre Aleijadinho, que deixou significativo acervo não só produzido por si mesmo, mas também por seus aprendizes. 

Nesse feriado de Corpus Christi, planejamos fazer de carro o circuito das cidades históricas mineiras para que minha mãe as conheça, já que ela nunca esteve lá. 

O preparo da viagem é sempre um pouco tenso porque como não temos uma agência programando tudo o que faremos ficou por minha conta criar um roteiro e iniciar os preparativos. 

Primeiro, foi a chamada para família. Gostaria que todos viajássemos juntos, mas é bem difícil conciliar as agendas e as expectativas de todos. Comecei achando que seríamos mais de dez pessoas viajando, mas fechamos em seis, quase três semanas depois da primeira ideia ter sido informada num e-mail para a família. 

Segundo, conseguir reservar pousada num valor acessível em condições que atendam o mínimo conforto que todos esperam, caso contrário, não vale muito a pena sair de casa.  

Esse foi um ponto bem difícil dessa organização porque no Brasil (e outros lugares também) há uma espécie de cartelização no atendimento turístico em feriados prolongados. Os donos dos hotéis e pousadas combinam entre si que todos somente venderão pacotes para esses dias. Claro que com preços bem mais altos do que fora de temporada. Mas a questão nem é o preço praticado porque isso é assim mesmo, quem tem uma pousada ganha nesses períodos o suficiente para se manter na época de baixa. Normal. 

A  questão é que se você pretende fazer um circuito, ou seja, andar por várias cidades, não tem como se hospedar numa cidade no primeiro dia e em outra no segundo e assim por diante. A menos que aceite pagar pelo pacote todo (de no mínimo três diárias) em cada cidade que ficar. 

No nosso caso, resolvemos pagar o pacote de três dormidas em Ouro Preto, o que fará a viagem ser mais cansativa porque esse é o destino mais distante em relação aonde estamos no estado de  São Paulo. Enfim, adaptações. Pagamentos de reservas feitos, vem a próxima etapa.

A terceira parte era decidir um roteiro adaptado à hospedagem. Verificar quantos quilômetros seriam percorridos e quais atrações poderiam ser aproveitadas diante do tempo dentro do carro, do cansaço decorrente e da expectativa de congestionamento por causa do feriado. 

Depois, vêm o planejamento do que será visto. Para isso é preciso se debruçar sobre os guias de viagens, fazer uma seleção do que parece mais interessante, ler a respeito e traçar metas com níveis diferentes de exigência. O que quero dizer é o seguinte: queremos ver tudo, mas isso não será possível, então é preciso eleger prioridades e aceitar que pode haver contratempos. As cidades permanecerão lá, caso não consigamos ver tudo. Então, um dia voltaremos, se for o caso. 


Comida mineira típica
Além desse planejamento, levantar dados sobre possíveis lugares para comer é importante. Referências não faltam na internet, com recomendações e críticas para evitar que se vá totalmente no escuro e se gaste muito para ser mal atendido. Mais que isso, com um grupo um pouco heterogêneo é preciso considerar os bolsos das pessoas e o quanto estarão dispostas a pagar para comer.  Para isso é preciso ter sugestões  e opções. 

Não vejo a hora de comer tutu, mandioca frita, torresmo, vaca atolada... hummm...

O ponto de encontro e as condições mecânicas e de abastecimento dos veículos ficou por conta dos homens. Silas e Fábio acertaram entre si onde nos encontraremos e cada um tomou conta de seu carro. Esse é um item importantíssimo porque é o que se refere à segurança dos viajantes. 

Arrumar as malas, sacar dinheiro, pegar a máquina fotográfica, escolher um livro,  preparar umas guloseimas e umas frutas lavadinhas para comer no caminho, providenciar água e também as  músicas para tocar na estrada são outras das providências. 

O espírito viajante é  próprio de algumas pessoas, outras são mais locais. Muitas vezes, falta experiência e algum jogo de cintura que é algo fundamental em viagens. Compartilhar essa experiência dessa vez com gente que amo tanto vai ser bem divertido. Assim espero. Espero que na volta tenha lindas fotos, muitas risadas e mais uma grande experiência para compartilhar por aqui. 

Que Nossa Senhora da Boa Viagem nos acompanhe. Conto o que for mais legal depois! 

Bom feriado!!!

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Voltar de viagem


"Foi pra Portugal perdeu o lugar!"



É praticamente unânime que viajar é muito gostoso. A gente vê coisas novas, gente diferente, experimenta outros sabores, sente cheiros de viagem, faz compras, lembra dos amigos e da família em cada coisa que vê, ou seja, sente mais as coisas. Dá mais atenção. 

Eu só conheço uma pessoa que declaradamente detesta viajar, é o Rodolfo, meu amigo querido, que há tempos não vejo. Outras acabam declarando com atitudes que não curtem fazer uma mala e por o pé na estrada, mas ninguém gosta de confessar que não tem alma de viajante. Devo admitir que eu até admiro que tem a quietude de permanecer no local que nasceu por toda a vida. É que costumo admirar as características que eu não tenho de jeito nenhum, a quietude é uma leveza da alma, eu gostaria de me por quieta de vez em quando. Mas, para isso, pratico ioga e é isso aí. Não conseguiria mais. 

A Lilian Liang, uma colega de trabalho dos tempos de Amcham, bem definia as pessoas que gostam tanto de percorrer outros lugares. Ela dizia que essas pessoas haviam sido picadas ou mordidas pelo "travel bug". É, o bichinho que inocula na gente essa inquietação que nos faz, de tempos em tempos, e não pode ser muito tempo, querer novamente planejar um jeito de conhecer in loco uma nova cultura, um continente, uma pracinha de outra cidade. Deve ser mesmo uma doença incurável... como um vício que se não é alimentado faz a gente sofrer. 

Ontem mesmo vi isso no olhar da minha sogra, que também tem natureza viajante. Ela já foi a tantos lugares... Nos últimos tempos, não tem podido mais viajar, mas fica radiante com as notícias que trazemos, as descrições dos lugares e situações que vivemos. 

Mas o que eu queria mesmo era falar sobre voltar de viagem.  Ninguém lembra muito de falar sobre esse momento que a mim me é tão precioso e especial. Eu gosto de viajar porque gosto de voltar! 

Quando a gente vai religando a atenção para o país de origem, para nossa terra, naquele momento que a viagem vai chegando ao fim, sempre dá uma angústia. Mas, naquela hora que o avião aterrissa e, no meu caso, eu sinto o cheiro poluído de São Paulo de novo, ah! como me sinto bem! 

A mala vem cheia de roupas sujas embrulhando presentinhos que a gente se deu ou que trouxe para alguém de quem se lembrou em determinado momento, o passaporte tem novos carimbos, o corpo está exausto porque a gente viaja na dog's class pra poder viajar mais e os pés ficaram muitas horas dependurados o que causa um inchaço malfadado, a tintura do cabelo venceu, as unhas estão por fazer, a gente vai encontrar o gato que ficou sozinho numa carência de dar dó em casa, algumas contas venceram e fatos que você soube pelo notíciário de fato ocorreram no seu mundo real, mas, apesar disso tudo, é muito bom voltar pra casa. 

Tem gente que reclama, diz que voltar é péssimo. Pensando bem, acho que isso é só jogo de cena das pessoas. Não consigo, por mais que tente, acreditar que as pessoas cheguem tristes de uma viagem de férias. Ao contrário. Pensando bem, esse sentimento de retorno agrega um conjunto de sensações que não podem ser definidas com exclusividade porque é tudo misturado: a saudade do que a gente havia deixado antes de viajar e a que a gente sabe que vai sentir do que deixou no lugar que foi visitado, o senso de pertencimento a um local ou uma comunidade, a segurança do lar, o sentir-se valorizado quando alguém nos espera na chegada, a atenção que nos é dada com as lembranças e memórias que trazemos e são só nossas, mas que só valem a pena se forem compartilhadas... 

Falando nisso, não sei dizer quando isso começou, mas foi depois que o Silas comprou um projetor, isso eu tenho certeza, na minha casa, criamos, meio sem querer, um ritual de encontro de família logo depois da viagem de alguém. Enquanto ainda a pessoa está com tudo fresco na cabeça e quer contar como foi tudo. Reúnem-se todos os que podem vir/ir, e aí,  tem comilança e exibição de fotos, comentários mil, perguntas intermináveis e relatos detalhados do que foi importante para quem viajou, É uma coisa muito gostosa de viver. Não importa se quem viajou foi um ou outro, todos dão atenção ao que traz as novidades. Isso só pode rolar no retorno, não é? 

Lisboa - Vista do Bairro Alto



O Silas e eu fizemos uma viagem há alguns dias para Portugal. Foram lindos dias de sol, muita comida boa: pão, queijos, azeitonas, bacalhau, sardinhas, carapaus, pastéis de nata, doces de ovos, cerejas e ameixas; vinho nacional (em Portugal, só vinhos nacionais!), paisagens exuberantes, gente muito hospitaleira e simpática, experiências de fé, de amizade e imensa generosidade como a do amigo Eulálio e de sua família lusitana: dona Arminda, sua mãe, a Mena (irmã) e o Coelho (cunhado) e a linda Maria João, sua sobrinha e, por extensão de sua família, da Fernanda, uma amiga e vizinha da dona Arminda. 


Há um trecho de uma música de Amália Rodrigues que diz:  
Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa. E se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente (...) 
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar uma existência singela... É só amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho a fumegar na tigela.(...)
É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!

Certamente, voltamos pra casa com uns quilinhos a mais, e não faríamos nada diferente do que fizemos para manter a silhueta. Isso eu posso garantir. 

Nos próximos dias, conto um pouco de tudo isso com mais detalhe. Faz parte do retorno. Eu gosto de voltar porque gosto de viajar! Ou será o contrário?



terça-feira, 7 de outubro de 2014

O encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas


Uma questão de hospitalidade - 2 


Santarém e a primeira lei da hospitalidade


Fiquei em dúvida sobre o título desta publicação. Uma vez que em 3 de setembro dei o título Uma questão de Hospitalidade ao texto que se referia ao que considero o "bem receber em casa", ou seja, a hospitalidade no espaço doméstico, hoje, eu bem que poderia entitular esse post como Uma questão de hospitalidade 2. Assunto que rende ainda muitos capitulos. 

Preferi dar título à situação que me levou a querer refletir sobre o que é hospitalidade.  Por isso, o encontro dos rios Tapajós e Amazonas foi escolhido. 

O encontro das águas


Na segunda-feira da semana passada (29/09), estávamos em Santarém, no Pará, por ocasião de um trabalho que o Silas foi chamado para fazer na Ufopa - Universidade Federal do Oeste do Pará. 

Imbuído da mais genuína generosidade, Anselmo, o vice-reitor, nos proporcionou um dos fins de tarde mais sensíveis que um anfitrião poderia promover diante de seus recursos disponíveis - que não eram poucos, mas, como verão, não tem muito a ver somente com questões econômicas e financeiras. Outrossim, a experiência que tivemos,  tem a ver com dádiva. Por defínição do dicionário, dádiva é um substantivo feminimo para o ato ao ação de oferecer, voluntariamente, alguma coisa valiosa a alguém.  Na literatura da hospitalidade, a dádiva desencadeia o ciclo de dar-receber-retribuir, e é, portanto, a primeira das seis leis da hospitalidade. 

Quando me referi aos recursos disponíveis, Anselmo é dono de um catamarã - uma embarcação com dois cascos, no caso dele, com propulsão a motor, que tem considerável estabilidade e pode atingir uma velocidade razoável durante a navegação. 

Além disso, Santarém é banhada pelo rio Tapajós, de águas cristalinas e areia branca e é ainda na faixa costeira dessa cidade que esse rio se encontra com o Amazonas, de águas barrentas.  

No período de estiagem nessa região, a natureza promove entardecederes cheios de luz que refletidas nas águas oferecem um lindo espetáculo ao por do sol. 

Pois bem, os recursos não eram poucos: uma embarcação, os rios, o sol, o entardecer... Porém, sem a dádiva do Anselmo, não haveria passeio. Foi ele quem nos concedeu a oportunidade de navegar no fim da tarde para vermos de perto o encontro das águas.  Isso é hospitalidade. Olhar para o visitante, perceber que há algo de si que pode ser ofertado, organizar seu tempo e seus recursos e oferecer de coração uma grande e memorável experiência.

Certamente, o Anselmo, que nem me conhecia, não tinha a mais vaga ideia do quanto eu sonhava ver o encontro das águas. Desde que ouvi pela primeira vez numa aula de geografia a descrição da professora sobre como as águas dos dois rios se encontram e não se misturam por muitos quilômetros, percorrendo lado a lado sem que haja a fusão de suas cores, devido a suas densidades diferentes, eu sempre tive a maior curiosidade de ver isso de perto. Além do que, pra mim, o rio Amazonas é mitico. Quase uma entidade e como tal deve ser respeitado. Chegar perto, ver, por os pés em sua água, foi para mim com um ato religioso, uma benção.
Nas águas do rio Amazonas

Em resumo, foi um sonho realizado que promoveu em mim uma profunda sensação de gratidão. Fiquei muito emocionada. Pode parecer exagero, especialmente para os que consideram isso pouco. É certo que para muitas pessoas, é só mais um rio, são águas que estão ali disponíveis como tantas outras. Não pra mim. É difícil por em palavras sentimentos tão profundos que têm significação histórica ou ideológica. No meu caso, estou certa de que o símbolo foi tão bem construído que permaneceu e não foi desfeito mesmo diante da realidade, ao contrário, teve amplo significado, gerou emoções e um forte sentimento de pertencimento a essa "Pátria, mãe gentil". 

Como diria minha amiga Fabíola:  "foi incrível, incrível!" Tudo graças ao sentido inato de hospitalidade do homem santareno, indivíduo que pertence ao povo paraense. 

Já que o assunto é a hospitalidade, cabe dizer que o estado do Pará, no que se refere à dimensão pública, preenche com louvor o quesito RECEBER, uma vez que é cheio de praias de rios de livre acesso aos visitantes e moradores.  Quanto a HOSPEDAR, Santarém tem uma rede hoteleira que precisa ser melhorada, receber um banho de profissionalismo, o que atrairia muitos mais visitantes de segunda viagem. A gastronomia local é farta de peixes e opções regionais, o que garante o bem ALIMENTAR mesmo sem renomados chefs de cozinha e amplas estruturas em restaurantes sofisticados.  E entretenimento não parece faltar em Santarém, já que o espírito hospitaleiro vem do berço de sua população. 

Se tiver oportunidade, vá ver o encontro das águas do Tapajós com o Amazonas, espero que você receba a mesma dádiva que nós, Silas e eu, recebemos. Estamos desta forma prontos para retribuir o presente recebido e assim reinstaurar a dávida da hospitalidade, perpetuando o ciclo dar-receber-retribuir, que ora estudamos. 

Em tempo: estiveram conosco nesse passeio de catamarã alguns professores da Ufopa, que, como eu, não são paraenses e, tiveram nessa ocasião a oportunidade de ver também de perto todo esse esplendor. Um grande e afetuoso abraço a esses novos amigos! 

Companheiros de viagem pelo Tapajós/Amazonas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Ah, o Pará! Eu estive lá

Terra de índio que fala corretamente português


Batizada com nome português, Santarém é uma cidade grande (300 mil habitantes) onde a cor das pessoas é linda: cor de índio. Que inveja eu tenho dessa pele bonita, dessa carne dura e desses olhos amendoados e negros como jabuticabas. 

Fiquei lá bem pouco tempo e deu pra ver como apesar das dificuldades de uma região que ainda é pobre (na nossa definição comum de pobreza), não existe coitadismo por ali.  O olhar das pessoas é firme seja para quem for e o que eu senti é que não há servilismo naquela terra, o que independe de generosidade e solicitude, dois bons substantivos abstratos para quem quer definir um povo hospitaleiro. 

Barcos de passageiros e pesqueiros em Santarém


Ganhei do Silas para ler durante a viagem que seria longa (e foi) o livro do Mia Couto, E se Obama fosse africano? , e digo que nada poderia ter sido mais propício para resumir o meu olhar durante minha breve permanência de quatro dias na região amazônica do que foi esse presente.  Lá pela página 103, encontrei o trecho que reproduzo a seguir: 
Falamos em ler e pensamos apenas nos livros, nos textos escritos. O senso comum diz que lemos apenas palavras. Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo. Nós lemos emoções nos rostos, lemos os sinais climáticos nas nuvens, lemos o chão, lemos o Mundo, lemos a Vida. Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar. Queixamo-nos de que as pessoas não leem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros.



Não fui para ver a praia de Alter de Chão, que é linda, sem dúvida, uma joia do rio Tapajós com areia branca e água doce e quente para tomar banho.  Fui em busca de aventura e conhecimento do que é o Brasil, por curiosidade e oportunidade. Fui para ver de perto o rio Amazonas, sonho antigo, comparável a conhecer Roma, Paris, Foz do Iguaçu ou o Cristo Redentor. Voltei melhor, então valeu a pena. 

Dá para escrever capítulos longos de impressões, cheiros, cores e emoções. Hoje, como só tenho aqui comigo fotos do meio da viagem, escrevo sobre um pedaço da minha aventura que está mais para o fim do que para o começo dela. 

Na segunda-feira, depois de passar o fim de semana em Alter do Chão, estávamos em Santarém. O Silas foi cumprir o trabalho que nos levou até lá e eu fiquei no hotel sozinha com o dia todo para pesquisar e aprender aquela cidade.  

Lá pelas dez da manhã, perguntei na recepção do hotel se havia um ônibus que me levasse de onde estávamos até o mercado municipal porque eu sabia que esse seria um lugar que me traria experiências interessantes. A resposta foi a mais feliz. "Sim, bem aqui em frente, atravessando a rua, passa o Liberdade. É só perguntar ao cobrador o ponto mais próximo para descer bem perto do mercadão". 

Foi o que fiz. Descobri, não sem antes perguntar novamente para dois rapazes na rua em frente onde poderia pegar o ônibus, o ponto que não tinha placa ou qualquer tipo de sinalização. Uns 15 minutos de espera e subi pela porta de trás, diferente de São Paulo onde se sobe pela frente, no Liberdade. Pedi à cobradora, uma índia muito sisuda, se poderia me indicar o ponto mais próximo ao mercado para que descesse. Ela ascendeu a cabeça me mandando sentar com um simples olhar informando-me que me avisaria sem balbuciar uma só palavra. 

Entre tranquila e curiosa percorri 35 minutos o trajeto do ônibus até que vi novamente o prédio do hotel onde eu estava hospedada. A mulher me havia esquecido. Fui até ela e só naquele momento vi um sorriso que escapava um dente lateral brilhando uma ponte prateada, sinal de algum constrangimento por ter se perdido em sonhos e esquecido o pedido da passageira turista. Ela me disse que eu teria que dar outra volta.  Fiquei então ao lado dela e a cada cinco minutos eu a olhava indagando se não me havia esquecido novamente. 

Desci ao lado do mercado depois de ter deixado o hotel há mais de uma hora. Não perdi meu tempo, se é o que parece. Ao contrário, eu comecei a me sentir um pouco local, já que circular mais de uma vez pelo mesmo lugar me fez localizar onde estavam alguns pontos-chave. Eles me seriam úteis para que, caso eu não tivesse ajuda ou informação, pudesse voltar caminhando para o meu ponto inicial. 

Nas ruas de Santarém, corre esgoto a céu aberto em valas ao lado do meio fio. Algo entre chocante e fétido, o cenário não é nada hospitaleiro, nem agradável para quem vive lá ou para quem visita. As calçadas são estreitas, os ônibus e carros não respeitam muito a sinalização de parada que é quase inexistente, e o sol é incessante, não dá trégua em hora alguma do dia no período da estiagem. 

Pela primeira vez, eu permaneci alguns dias em local de clima equatorial. Diferente do tropical no verão apenas na umidade que é constante. Nem bem você terminou de tomar um banho refrescante em chuveiro frio (lá é atrativo dos hotéis os chuveiros quentes!) e já está suando e grudando. Graças ao ar condicionado, é possível tomar uns 30 choques térmicos por dia sem muito esforço. Sem reclamação alguma, o clima é quente! De dia e de noite. 

Voltemos ao mercado, um prédio cheio de lojinhas sem ordem definida sobre para que lado devem abrir suas portas, se para a direção da calçada ou pra dentro. Algumas são de um jeito, como as de roupas, viradas para a rua, outras de outro, como as dos vendedores de garrafadas, voltadas para onde passam pessoas que procuram farinha, frutas, peixes, camarões ou remédios para qualquer tipo de mal. 

Uma característica interessante é que o complexo de lojas que compõem o mercado municipal de Santarém mistura lojas empoeiradas de pé direito baixo fechadas por grades ou alambrados e espaços mais amplos com pé direito bem mais alto onde se distribuem os vendedores de frutas, legumes, verduras e farinhas de mandioca e de peixe. Há também um outro prédio conjugado com pequenos boxes azulejados onde se vende peixe fresco. Entre um lugar e outro ficam os vendedores de camarões que tanto podem ser secos, como limpos, mas não são frescos porque se fossem deveriam estar na área de azulejos onde escorria água e tinha gente de uniforme lavando com mangueira. 


Boxes de peixeiros

Camarões


Bem perto dali, atravessando a avenida da orla, bem à beira do rio, um prédio grande e vazado para que se tenha a brisa vinda da movimentação da água a que chamam Feira de Peixes, vende o que foi recém trazido do rio Tapajós: surubim, tambaqui, tucunaré, pirarucu e outros tantos fresquinhos, suculentos. Como eles dizem por lá, peixes lisos, que são os que não têm escamas. 


Feira de peixe, Santarém

Douradas sobre tucunaré

Na tábua do corte, costela de tambaqui

Próxima ao peixeiro, surubim. Em frente, diversos



Dei uma volta pela feira, fiz umas fotos, ainda um pouco tímida, perguntei algumas curiosidades sobre os peixes e a farinha feita deles para os vendedores, e voltei para o prédio do mercado. 

Chama a atenção o uso da farinha de mandioca nesse local. Há muitos comerciantes desse produto que é subdividido em diversos tipos dependendo do uso que se pretende. Eu vi uns 20 tipos diferentes, entre brancas e amarelas, finas e rugosas, leves e pesadas. Depois de vencer a timidez, me aproximei de duas jovens que compravam um dos tipos e perguntei para que servia. Uma delas me olhou com carinho e me explicou rapidamente usos diferentes para mingaus, para comer pura, para engrossar ensopados e molhos, para fazer bolo, tapioca, beiju... A outra me olhou de cima abaixo como se visse um extraterrestre. Deve ter pensado como alguém pode não conhecer uma simples farinha de mandioca. Conhecimentos e sabedorias diferem mesmo, é assim que é. Não me senti diminuída, mas me vi criança diante daquela sabedoria e me lembrei de outro trecho do livro do Mia Couto, quando ele fala de infância: 
... A infância não é um tempo, não é uma idade, uma coleçao de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis  para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar. 
Eu senti que não é "demasiado tarde" para aprender sobre as farinhas. 

Farinha de peixe

Variedade de farinhas de mandioca



Lá pelo meio do caminho, ouvi vozes com sotaque estrangeiro que anunciavam uma atração entre as frutas. Uma artista de circo subiu na banca de abacaxis e fez um espetáculo com bambolês. Surpreendente para uma feira a meu ver. Os homens que eram a maioria daquele lugar pareceram gostar do rebolado da estrangeira que habilmente jogava e dançava com as argolas que a ajudavam na performance atraindo olhares de cobiça. 


Performance com bambolês sobre a banca de abacaxis



Não poderia deixar de contar o episódio na grande banca das garrafadas. Estava eu com olhar curioso lendo os rótulos pregados em garrafas pet de coca-cola, outros em garrafas de vidro, alguns manuscritos, outros feitos no computador, alguns ainda já mais industrializados, quando chega um senhor e pede ao dono da barraca algo para impotência. O rapaz vai logo dizendo que tem excelente elixir e que vai resolver todos os problemas daquele cidadão. No meio da venda, vira-se para mim e pergunta com firmeza: 

- A senhorita quer mel puro de abelha? 
E eu respondo: 
- Não. Só busco informação. 
E ele, prontamente, me diz algo como: 
- Sim, eu tenho! Para inflamação, coisa de mulher? Tenho, sim, isso resolve qualquer mal relacionado a ciclo de mulher. 
E já foi pegando uma garrafinha pequena com rótulo industrializado com um desenho do aparelho reprodutor feminino ilustrando o vidro. Eu, por minha vez, tentei esclarecer que só buscava informação sobre as garrafadas.  E ele então devolveu o vidrinho para o seu local de origem e continuou a atender o tal homem que queria curar-se da impotência. 

Garrafada para "inflamação de mulher"


Fui me afastando quando percebi que ali tinha mais encenação para fazer a turista com cara de jornalista de máquina fotográfica em punho prestar atenção na conversa, do que realidade e busca de remédio para impotência.  Saí de perto pensando que os homens, diante de uma mulher desconhecida, agem mesmo como tolos muitas vezes. Não sei se eu é que fui preconceituosa, mas foi como senti a situação. De todo modo, tem garrafada que cura qualquer mal, de insônia a câncer.  Tenha o elixir apenas eficácia simbólica ou nem isso, está lá disponível dentro do vidro, pronto para quem quiser pagar entre dois e cinquenta ou cem reais. O preço vai depender do freguês.





Fiz uma lista de palavras para pesquisar quando parei diante de uma grande banca com saquinhos contendo lascas de árvores, chás, folhas de matos cheirosos, frutos secos e sementes. Entre as palavras estão: cafuasu, capeúba, uxi amarelo, jucá, andiroba, envirataia, jureia, barba limão, escada de jabuti, sacacá, sucuba, pau tenente, saracura mirá, carapana ubá, asaçu, imburama, jurema, mururé, unha de gato, juá e sucupira.  Trabalho não me falta. Mas devo recorrer à Neide Rigo, do blog come-se que, mais dedicada que eu aos nomes científicos e às eficácias desses elementos, esteve no Pará há pouco tempo e publicou informações detalhadas sobre plantas e ervas que encontrou na região. 

Depois desse passeio pelo mercado e de tantos cheiros, cores e sensações, parei na lojinha de produtos feitos de palha: cestos, potinhos, porta-joias, fruteiras, descansos de panelas para mesa, sousplats, bolsas, enfim, coisas bonitas de ver, empoeiradas e que, nem tão baratas atualmente por aquelas bandas, ainda são bem mais em conta do que quando são encontradas em lojas em São Paulo, como Etna e Tok&Stok. Certo é que são objetos produzidos pelos indígenas que têm bom gosto e funcionalidade para o dia-a-dia. 

Quando terminava minha compra, o telefone tocou e era o Silas, dizendo que ele e um pessoal da Ufopa - Universidade Federal do Oeste do Pará - me buscariam para almoçar. Terminou meu tempo no mercadão de Santarém, mas não as minhas emoções dessa segunda-feira, anteontem. 

Por hoje, paro por aqui com um trecho um pouco modificado que escrevi rapidamente para a Euzi numa troca de emails me referindo ao que vi nas pessoas que encontrei nas ruas de Santarém: 
Eu estive no Pará. Fiquei entre perplexa e feliz com a atitude deles lá. Preconceito meu, eu achava que lá entre o Pará e o Amazonas onde eu estive, as pessoas teriam uma aura de coitadismo que muitas vezes vemos nos nossos conterrâneos nordestinos. Ledo engano. Eles são o Brasil de fato e direito e sabem bem disso. Falam um português correto, bem pronunciado. São hospitaleiros. Comportam-se como cidadãos (apesar dos que também são preconceituosos demais com os paulistas brancos como eu e aumentam os preços dos peixes e da garrafada, há também os que jogam latinhas vazias pelo vidro do carro) e sabem que estão em cima do ouro mais ouro de todos: a água. A gente que não os respeite e eles dão de ombros para a nossa pseudo-sabedoria mais livresca e televisiva. Eles, apesar da pobreza das cidades, vivem no paraíso e lá é quente pra caramba!