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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Deixe-se surpreender


Nem tudo ou quase nada é do jeitinho que a gente planeja, sem tirar nem por. Mas isso é uma grande benção porque a gente pode sempre se surpreender positivamente.

Por exemplo, quando viajamos, em geral, projetamos alguma imagem na nossa mente, fruto de uma foto antes vista ou de uma associação de ideias vindas de memórias de outros lugares ou histórias,  e assim, esperamos encontrar naquele destino algo muito semelhante ao que pensamos. Quase sempre é diferente: a igrejinha não é da mesma cor, o coreto pode não existir ou ser maior ou menor do que imaginamos, o jardim está mais florido do que esperávamos ou ainda não tem aquela deliciosa sorveteria na pracinha.

Encontrar a realidade diante do que projetamos é fascinante se nos deixarmos ver com olhos de encantamento, nada de frustração. Imaginar paisagens faz bem pra gente tanto quanto encontrar novos lugares para ocupar nossa imaginação.




Estou em Brasília por uns dias, amanhã mesmo volto a São Paulo, mas confesso que me surpreendi novamente com essa cidade. Minha hospedagem desta vez é na beira do lago e, de perto, andando pela beira da água, parece que estou em Cuba. Não é incrível essa associação? Pois ela ocorreu tanto pra mim quanto pro Silas que está aqui comigo. Alguma semelhança nos trouxe tanto de Havana quanto de Varadero, talvez pelo tipo de construção à beira do lago, pela cor do céu ou pelo calor da noite estrelada. 

Nada como se deixar surpreender.

Eu vim a Brasília muitas vezes tanto para trabalhar quanto para visitar a família do filho do Silas que vive aqui com a mulher e agora com dois filhinhos, a linda Helena e o amado João, que nasceu há pouco mais de um mês. 



Nessas idas e vindas, já visitei museus, igrejas, fui ao Palácio do Planalto, à Esplanada dos Ministérios, ao Congresso, ao Itamaraty, à torre, enfim, fiz passeios de turista e de trabalhador. Desta vez, minha visão está bem diferente das demais. O lago é a grande referência visual da minha paisagem e isso me fez ver uma outra cidade, bem acolhedora e divertida. Pena que nem todos podem ter esse acesso porque as "praias" do lago não estão assim tão facilmente disponíveis para qualquer cidadão que as queira conhecer. Os donos dos terrenos nesses locais é que usufruem do que, no papel, é um espaço público, e muitos nem sabem que existe. Mas é fato que existe e é bonito demais.






Outra coisa que me surpreendeu em Brasilia, desta vez, foi a qualidade ruim dos serviços de alimentação diante dos preços praticados. 

Li uma matéria na semana passada que paulistano é um consumidor exigente demais, talvez seja esse o meu caso, porque (como sempre digo) sou paulistana por opção. Mas, por aqui, parece que se você quer uma comidinha básica de boa qualidade não vai encontrar com muita facilidade, a menos que aceite pagar por um prato um valor que, em São Paulo, o levaria a comer uma comida bem caprichada num restaurante da moda.

No domingo à noite, tentamos comer comida árabe. Santo!! Que coisa horrível. Um tal restaurante aberto com delivery foi a nossa grande decepção. Pra se ter ideia, eu que sou comilona e nunca deixo comida no prato, não consegui comer a esfirra do lugar porque era velha, rançosa, com uma massa de péssima qualidade. Esperamos muito para levar a comida e o arrependimento foi total!

Há exceções. Ontem, por incrível que pareça, resolvemos comer espetinhos num restaurante super simples na Vila Planalto. A comida estava muito boa: macaxeira cozida ao ponto, feijão tropeiro que não falava mal de ninguém e o churrasquinho honesto, tanto o de linguiça quanto o de carne e o de kafta. Tudo muito barato diante do que comemos, pode acreditar! 

Depois, no posto de gasolina, na loja de conveniência, descobrimos um picolé natureba também nos fez bem felizes, apesar do preço não ser de picolé... No palito, estava gravado picolé do Robson. Valeu a pena conhecer. Fiquei com vontade de repetir.

O lance então é se deixar surpreender. Abrir o coração para a alegria de viver e ser feliz, mesmo que pareça um pouco difícil.  Experimente!


*****

Serviço: Restaurante Esquina do Lago e Espetinho 
Vila Planalto Acamp DFL - Brasília, DF, 70803-170 -  Tel: (61) 3306-3327

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Goulash - Comida Húngara




Como contei tempos atrás, ainda antes de viajar,  nas últimas férias de julho estive no Leste Europeu. Fomos para Praga, Viena e Budapeste, sendo que parte desse trajeto, entre as duas últimas cidades, fizemos de bicicleta. Sim! Foi um trajeto de 370 quilômetros pedalando.  

Para o Silas, que é um ciclista, um verdadeiro passeio, pra mim, houve, devo confessar, certo esforço que compensei com o uso de uma e-bike.  Foram seis dias de sol, campos de trigo e girassóis floridos, cidadezinhas bonitas e históricas. Na memória os melhores registros dos cheiros, cores, conversas e, claro, dos sabores que experimentamos. 

tags: comida húngara, goulash, gulash

Entre eles uma comida húngara deliciosa que é até bem conhecida aqui no Brasil: goulash. Para mim, parece mesmo comida caseira. Na minha casa, com alguma variação, com frequência havia esse tipo de cozido, só que sem a páprica, marca registrada da comida na Hungria. 

Semana passada, tive convidados aqui em casa para comer. Então testei algumas receitas de goulash e acho que cheguei a uma adaptação satisfatória. Por isso, decidi dividir aqui com os leitores. 

Goulash

Ingredientes

1 quilo de acém picado em cubos de 1,5 centímetros
300 gramas de copa lombo picado em cubos de 1,5 centímetros
2 cebolas médias cortadas em brunoise*
2 dentes de alho amassados
100 gramas de farinha de trigo
2 colheres (sopa) de azeite de oliva 
1 quilo de tomates sem pele cortado em cubos (não precisa tirar as sementes)
2 colheres (sopa) de páprica picante
1/2 colher (sopa) de cominho em pó
4 batatas médias cortadas em cubos de 1,5 cm
2 cenouras médias cortadas em rodelas de 1,5 cm de espessura
1 litro de caldo de carne
Sal e pimenta do reino
20 gramas de salsa picada 
Opcional:  300 gramas de cogumelos (paris ou shitake) cortados ou separados como pétalas e 1 colher (sopa) de manteiga

Modo de fazer 

Tempere com sal e pimenta e polvilhe a farinha de trigo nas carnes de vaca e porco picadas. 
Aqueça o óleo de oliva numa panela alta, acrescente as carnes e deixe fritas até grudar levemente no fundo da panela. Solte-as com cuidado e reserve. 
Acrescente mais um fio de azeite à panela quente e refogue a cebola e o alho, em seguida, inclua a páprica e o cominho para, logo depois, incluir também os tomates picados.  Deixe refogar bem. 
Volte as carnes à panela, baixe o fogo, acrescente cerca de 750 ml do caldo. Mexa bem para desprender do fundo da panela e deixe cozinhar por cerca de 2 horas e meia com a panela semi-tampada. O molho estará espesso nesse ponto. 
Então, acrescente as batatas e cenouras, além do restante do caldo. Tampe a panela e deixe que os legumes. 
À parte, refogue os cogumelos na manteiga. 
Ao fim do cozimento, corrija o sal e acrescente os cogumelos. Sirva bem quente. 

Como servir: 

Sirva no pão redondo como se fosse uma panelinha. Se gostar, acrescente uma colher de sour cream (receita neste post) e polvilhe salsinha picada. 

Pode ser servido também com arroz branco ou com espinafre. 

Uma boa opção e que é muito comum na Hungria é servir com uma massa caseira que parece um nhoque pequenino feito de farinha de trigo. 

Para harmonizar, sugiro vinho tinto, de preferência um cabernet sauvignon que não vai brigar com a acidez do molho de tomate com páprica. 

Prometi que escreveria sobre a viagem e vou fazer isso. A viagem de bicicleta vale vários posts. Posso garantir.  Aguardem!  



*brunoise - corte em cubos de 3 mm

sexta-feira, 24 de março de 2017

Rumo a Belém

Há mais de 20 anos cultivo a vontade de ir a Belém no Pará.  Só e oportunamente porque é a capital do Pará!

Estranho é pensar que quando muito menina nem imaginava que a ideia de ir a essa cidade tanto me encantaria tempos depois. Não me lembro de, na escola, os professores mencionarem o Pará com alguma grande deferência.  Há estados que são assim tratados com menor ênfase. Não é assim com Bahia, Rio de Janeiro ou Pernambuco...

tags: Belém do Pará, culinária do Pará, Carajás, Belo Monte, rio Amazonas

Ocorre que o Pará fica na região Norte e por lá tem também o estado do Amazonas, que leva o mesmo nome do maior rio do planeta. Quero crer que é por isso que nem se lembravam de nos dizer quando estudantes do primário e do ginásio que o Amazonas é rio de verdade, desses com enorme volume d'água, também no Pará. Até que, pensando bem, deviam sim falar, mas, como a gente só guarda o que nos parece mais fácil, na minha memória não ficou esse registro. Pareceu que nunca havia sido dito. 




Tem outras coisas também. Aqui em São Paulo a gente tem "a pretensão de ter certeza" que somos o umbigo do mundo (ou pelo menos do país).  Só que o Brasil é bem mais do que o nosso quintal. Prova disso pra nós, os "arrogantes motores da nação", é que,  de vez em quando, vinha o Pará para o noticiário paulista. 

Um exemplo foi o período da exploração mineral na Serra Pelada, uma "corrida do ouro" contemporânea no sudeste do estado, quando o lugar se transfigurou num formigueiro humano em busca de riqueza. O garimpo atraiu tanta gente que a montanha sumiu. Hoje, por lá, resta um vale contaminado por mercúrio. Contudo algumas imagens ficam pra sempre como a da chacrete Rita Cadillac que, com certa frequência, ia pra lá a fim de alegrar com seus shows de rebolado e insinuação sexual os 60 mil garimpeiros da Serra Pelada. Desses, uns enricaram. Outros, só perderam. Entre as perdas, a saúde e a família. A chacrete se tornou musa, mas isso é outra história que não cabe aqui. 





Depois, tempos depois, veio o massacre em Eldorado do Carajás. quando 17 homens do Movimento Sem Terra foram mortos violentamente pela polícia do estado a mando de fazendeiros.  Tristes tempos que, de vez em quando, a gente revive nesse país de um jeito ou de outro para lembrar quem manda e tem direito. E, claro, quem não.

Mas não é do noticiário que vem  a minha vontade de conhecer Belém. Primeiro foi de uma moça que conheci há alguns anos num evento no qual trabalhei em Salvador. Ela era da capital paraense, se não me falha a memória, seu nome era Paula. Dividimos um quarto no hotel por questão de economia e solidariedade. Ela me encantou com o que contou sobre sua cidade. Apaixonei-me pela ideia de visitar.

Pra quem não sabe, trabalhei tempos com projetos de infraestrutura, em especial, com Energia. Então, no Pará, estão as usinas hidreléticas (e toda a polêmica de seus efeitos sobre a natureza e o meio ambiente) de Belo Monte, Cachoeira dos Patos, Tucuruí e Tapajós, entre outras que não me lembro agora. 




Vão-se anos desde estes episódios e, oras, quando começo estudar gastronomia com mais seriedade e disciplina, logo vem o Pará como referência indelével. 

Em resumo, como se pode falar de comida brasileira sem se deter ao menos por instantes em como se come no Pará?  

Há quem diga que por lá está a genuína formação da culinária brasileira, coisa que eu não comungo e explico o motivo. Há tantos brasis nesse que a gente vive que batizar uma só raiz é pouco para a formação do nosso paladar. Somos o misto do índio, do preto e do branco? Talvez, mas não só.  Isso é apenas o resumo e nem sempre se aprende a verdade lendo a apresentação em power point, há mais a ser pesquisado para poder compreender. 

Estive em Santarém e Alter do Chão dois anos e pouco atrás, mas em Belém só fiz uma pausa no aeroporto sem descer do avião.  

Hoje embarco rumo ao sonho de conhecer a capital do Pará, rapidamente, só um fim de semana. Mas é um desejo de muitos anos que se concretize e isso me deixa feliz e ansiosa.

Quando comecei a pesquisar o que quero fazer nesses poucos dias que estarei por lá, de modo a garantir o melhor aproveitamento da minha viagem, eis que encontro numa matéria do iG Turismo uma pérola escrita por Mario de Andrade, em 1927, sobre Belém. Com ela fecho o texto para poder terminar a arrumação da mala. Quando voltar, fica a promessa de que conto um pouco do que vivi por aquelas terras.


Bom fim de semana. Aproveitem o que escreveu na carta enviada a Manuel Bandeira o mestre modernista Mário de Andrade: 


“Manu, estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois dos nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém, me conquistar mesmo, a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terraça em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa melhor do que isso, Manu? (...). Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita, mas verdadeira, que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim”.
Fonte: Turismo - iG @ http://turismo.ig.com.br/destinos-nacionais/2012-05-27/15-motivos-para-visitar-belem-do-para.html


Créditos das fotos pela ordem em que aparecem: 

Rita Cadillac - O Globo
Serra Pelada - Compartilhando.net
Massacre de Carajás - jornal A Verdade
Usina de Belo Monte  - Portal Brasil
Mario de Andrade - Tribuna do Norte


Leia também: 


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Massa negra com camarões e quiabo



Quem nunca viu uma massa negra ponha o dedo aqui!  Cada vez mais comuns as massas coloridas já não são mais novidade, o que não significa que estejam por toda parte. 





Tags: macarrão negro, talharim com tinta de lula, talharim negro com molho de camarão, camarão com quiabo, #ChapadaDiamantina 



Na semana passada, estivemos Silas e eu, mais uma vez, na Chapada Diamantina, em Lençóis, na Bahia. Fomos conhecer a Manuela, a mais nova lindeza da família, filha do Pablo e da Júlia, que nasceu em dezembro. Foi uma visita bem familiar que durou vários dias. Aproveitamos também pra visitar a Jade e a Nala no Vale do Capão.  

Para quem nunca esteve na Chapada, essa é uma boa sugestão de passeio pelo interior da Bahia.  Que terra linda, Deus do céu!  Vale um capítulo de viagem só pra contar as belezas que tem por lá. Mas fica pra outra vez que dessa o assunto é mesmo o macarrão com tinta de lula. 

Entre colinhos aqui e brincadeiras ali, tivemos, em família, as intermináveis discussões sobre o que iríamos comer. Bom é que tudo sempre acaba bem. E, às vezes, acaba até melhor que o esperado. 

Foi o que aconteceu no almoço em que um pacote de camarão surgiu ali nas minhas mãos para ser preparado de alguma forma. Olhando em volta e nas prateleiras da despensa, vi uns ninhas de massa negra, que o Pablo me explicou ser arte de uma moradora local: talharim com tinta de lula. 

Como o Silas é quem havia começado a cozinhar, eu só fiquei dando palpites. "Dê um susto no camarão para não emborrachar, corte os tomates frescos em pequenos pedaços, junte azeitonas verdes, refogue tudo..." até que a Jade foi taxativa: 

- Clau, você manda os cortes, a gente obedece, mas quem executa na panela é você!  

E aí assumi e fiz o rango. Deu no que verão a seguir. Espero que gostem. Ficou muito saboroso.


Massa negra com camarões e quiabo

 



Ingredientes

500 gramas de massa negra (talharim com tinta de lula) cozida "al dente"
500 gramas de camarões médios limpos 
2 colheres (sopa) de azeite extravirgem
1 cebola média picada em brunoise
2 dentes de alho amassados
200 gramas de quiabo cortado em pedaços médios (1,5 cm) 
1/2 xícara (chá) de azeitonas verdes picadas
300 gramas de tomates concassê* picados 
2 ramos de folhas de hortelã picadas

Temperos: sal, pimenta do reino, azeite, pimenta dedo de moça 


Modo de fazer 


Enquanto numa panela ferve a água e cozinha o macarrão, em outra, refogue a cebola e o alho. Acrescente ao refogado os camarões e o quiabo. Em seguida, acrescente as azeitonas e o tomate picadinho.  Refogue por cerca de 10 minutos para que todos os ingredientes se incorporem e formem um molho fresco e leve, cujos itens podem ser perfeitamente separados em cada garfada. 
Acerte o sal, a pimenta  e regue com mais azeite. 
Caso fique muito espesso, use um pouco da água do cozimento do macarrão no molho.
Misture a massa ao molho e sirva imediatamente. 

Se preferir, polvilhe queijo parmesão. Eu prefiro sem! Não gosto de camarão com queijo, acho que não combina muito. 


Dicas:  

  • Como o quiabo nem sempre é fácil para os cozinheiros novatos, ele pode ser colocado primeiramente no vapor para que cozinhe e garanta que não vai soltar a sua famosa baba. Então é adicionado ao preparo. 
  • A hortelã foi uma substituição fortuita, mas a ideia inicial era usar manjericão. Valeu a troca! 
  • O tomate pode ser usado com pele e semente, mas vai soltar casca conforme cozinha. Isso não deixa o prato o bonito, mas não interfere muito no sabor, não.
  • Harmonize esse prato com vinho branco ou rosado bem geladinho. Também vale um espumante ou um vinho verde. 

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Pirenópolis, uma joia no centro do Brasil


Semana passada, Silas e eu estivemos em Pirenópolis, aquela cidadezinha bonitinha aos pés dos Pireneus de Goiás, em cujas cachoeiras os brasilienses se refrescam do calor do Planalto Central seja em tempos de chuva ou de seca, porque sempre é quente no Distrito Federal

Já havíamos estado lá tempos atrás e eu realmente me encantei demais com a cidade. Ela é uma joia colonial preservada bem no centro do estado de Goiás, a cerca de 150 km da capital do país. Como fomos a Brasília para ficar uns dias com a linda Helena, a neta do Silas e minha por extensão, aproveitamos o fim de semana e esticamos até Pirenópolis. 



--- tags: Pirenópolis; Cerrado; Pireneus de Goiás; moqueca de bacalhau; restaurante Bibba;

Para quem reclama que no Brasil não há preservação histórica, eis que surge uma exceção que só confirma a regra. É a bela cidade de chão de pedra e fachadas perfeitamente preservadas de casarões coloniais e também casinhas mais modestas, com uma porta e duas janelas de madeira que dão pra calçada (sem garagem, graças a Deus!),  nas quais os moradores se debruçam para ver a vida passar e saber o que acontece pela rua.  Todo o centro da cidade é assim. Não há uma só fachada em ruínas, nem parece Brasil! 

Acho que meu encantamento pela cidade tem a ver com minha memória de infância, porque Itu, a cidade em que eu nasci e vivi até os 17 anos, já foi assim. Exceto pelo calçamento de pedra, que em Pirenópolis foi feito com sobras da pedreira de quartzito-micáceo, e em Itu, de paralelepípedo, que em geral provém da de rochas, tudo era bem parecido nas duas cidades. 

Lamentavelmente, os destinos de ambas foram bem diferentes. Itu não teve a mesma sorte de Pirenópolis, que, de acordo com o site da cidade: 


Em 1989, a cidade foi tombada pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como conjunto paisagístico e em 1997 iniciou-se um projeto de revitalização do Centro Histórico, quando a Igreja Matriz, o Cine-Pireneus, o Teatro de Pirenópolis e outros monumentos foram restaurados, reformados e reconstruídos criteriosamente.
Como paulista que sou, admito que tenho pouco conhecimento sobre a história e a preservação de locais no Brasil que não estão relacionados facilmente em livros didáticos de disciplinas como História e Geografia. 

Aqui faço um parêntese sobre a importância que reconheço nessas matérias para  a formação de um povo e na sua consciência cidadã. Não é pouco meu sofrimento frente ao descaso de nossos Governos que tanto quanto podem desvalorizam o ensino sobre o nosso passado. É como se nossa gente não precisasse, nem "devesse",  entender nada já que é dessa fonte que se bebe para a compreensão do que o futuro nos reserva. Tornar disciplinas tão fundamentais apenas meras opções secundárias na educação de uma criança ou adolescente é cortar-lhe o passado e a consciência do seu amanhã.  Pronto falei!

Voltando ao meu tema inicial, como não conheço bem a história do Brasil que não está nos didáticos livros que enaltecem São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e o Nordeste (feito só de Bahia e Pernambuco), causa-me alguma perplexidade a descoberta de lugares tão incrivelmente bem desenvolvidos em termos turísticos e históricos como a pequena Pirenópolis ou a encantadora Goiás Velha.  Essa última vale um capítulo só dela, tão doce e poética como Cora Coralina que é. 

Pirenópolis é lugar de ir e ficar uns dias ou de visitar várias vezes. Repleta de pousadas de gente hospitaleira, é charmosa e muito festiva. Ali a festa do Divino dura 20 dias, com tudo o que tem direito, preservando um folclore que já não se vê facilmente. Por lá, ainda fazem as "Cavalhadas", um tremendo espetáculo de luta entre cavaleiros de grupos rivais que envolve grande parte dos moradores. Isso é característico nas festas populares muito tradicionais do interior e atrai turistas de toda parte, curiosos dessas manifestações artísticas. 





Mas o entretenimento vai além. Tem igrejinhas históricas, comércio de souvenirs, de artesanato e de tapeçaria e roupas de casa; tem sorveterias, restaurantes e bares para diversos gostos e bolsos; tem uma riqueza histórica de dar gosto e uma exuberante natureza que a rodeia, com uma cadeia de montanhas que são os Pireneus do Brasil (nada a ver com os Pireneus na Europa, ver post) e a característica vegetação do Cerrado, que, não falta muito, se tornará apenas pastagem para o gado, já que isso é o que os donos desse país mais valorizam e eu lamento. 




No Cerrado, não raro, se encontram ilhas de vegetação características da Mata Atlântica. Ele é o bioma intermediário entre a faixa litorânea e o território da Amazônia e, bem por isso, tem importância fundamental para a preservação de um sem número de espécies animais e vegetais que só existem em função dessa área de transição.  

Há muito pra ver e comentar sobre a pequena e acolhedora Pirenópolis, mas não pretendo me deter em características históricas, que isso já houve quem tenha escrito com mais conhecimento e competência que eu. Só por curiosidade, vale dar uma navegada nesse site

Eu quero mesmo é contar que por lá tem um restaurante que é antiquário ou um antiquário que é restaurante. Melhor que isso, é que só se serve bacalhau. Sim!!! Um cardápio com seis pratos de bacalhau no qual há uma incrível moqueca com um toque bem baiano, já que leva coentro e azeite de dendê. 

Causa estranheza uma moqueca feita de bacalhau?  E um antiquário onde todos os itens à venda são usados pelos clientes do restaurante, tais como pratos, copos, talheres, mesas e cadeiras? 

Às vezes a gente se espanta com o que algumas pessoas são capazes de criar ou recriar só porque é algo pouco comum. Esse lance de antiquário/restaurante nem é tão inédito assim, mas com eu amo gente que inventa e consegue fazer acontecer, acho que vale um post só pra contar com detalhes nossa experiência no restaurante e antiquário da Bibba!. 

Quem sabe amanhã?  

De toda sorte, fica a dica sobre o turismo pelo Brasil. Que tal sair da caixa e pensar mais amplo? Praia é legal, mas toda vez? Pirenópolis vale a pena! Vá, se puder! 


sábado, 26 de novembro de 2016

Cuba e o mundo se despedem de Fidel

Primeira notícia que li assim que acordei neste sábado foi a morte do líder cubano Fidel Castro. 

Inevitável. 

Pensei no tempo de cada um e nos papeis que temos na história, alguns pequenos quase sem importância, outros grandes como os do comandante que manteve a ilha de Cuba, a Pérola do Caribe, resistente contra o domínio do Imperialismo americano. 


Home Uol 26-nov-2016


Estive em Cuba no ano passado (2015), ainda em tempos de não abertura, enquanto o país ainda respirava a revolução, mesmo depois de 56 anos. 

Fui buscar meus textos sobre as impressões de Cuba. Uma boa lembrança. 

Que na morte descanse em paz Fidel Castro. Sua história é imortal. 

Viagem - Cuba 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Berga - Na Catalunha, rumo aos Pireneus

Férias de julho 2016 - Capítulo 4

Depois de Barcelona, olhando no mapa, subimos pela Catalunha em direção aos Pireneus.  Aquela cadeia de montanhas belíssimas que separam a Espanha da França tem esse nome e, pelo que aprendi na viagem, sempre foi uma região bastante disputada já que é uma cordilheira que separa a Península Ibérica (Espanha e Portugal) do restante da Europa. 


A razão é até simples de entender. Pense numa extensa barreira natural com cerca de 430 quilômetros de comprimento. Se de um lado há interessados em conquistar o outro lados, por questões religiosas e políticas, ela terá que ser atravessada independentemente do quão difícil seja o trajeto. Isso ocorreu inúmeras vezes na história. 

Nessa região, brincamos que em cada topo de morro há uma igreja românica, restaurada, preservada ou em ruínas. Essa é a prova de que por ali já houve domínio mouro muçulmano e que, a partir do século X ou XI, houve uma retomada cristã católica.  


Atualmente, há algumas rotas do Caminho de Santiago de Compostela que passam por ali. Por isso, a gente vê muitos peregrinos pelas estradinhas, especialmente naquelas em que, graças a beleza estonteante,  paramos para um piquenique durante nossa trajetória feita de carro. 


Antes de chegar aos Pireneus, já no caminho, paramos numa cidade muito acolhedora: Berga (se diz Bergá). Lá se fala catalão e espanhol, as pessoas são muito gentis, há passeios de subida de morro super interessantes de serem feitos, esportes como esqui e asa delta, e, o que mais me interessa, comida boa, muito boa! 

Num domingo, nosso passeio foi ao Santuário de Queralt, onde, após termos subido um trecho alto de carro, tomamos um funicular e depois continuamos subindo a pé mais cerca de 15 minutos, tivemos uma vista esplêndida da grandiosidade do que seriam os Pireneus.  






Ao descer, percorremos as ruas do centro histórico, uma vilinha bem medieval, e depois paramos num restaurante na praça. 

Um pouco reticentes devido ao nome Frankfurt, logo fomos convencidos por uma das donas do lugar que ali poderíamos comer bem. Ela se dedicou a nos explicar de ponta a ponta todos os itens do cardápio, parando em alguns pontos para nos sugerir o que melhor se encaixaria na nossa fome, bolso e necessidade de experiência. Isso é hospitalidade, o resto é conversa. 

Foi ali que pedimos, pão com tomate e uma salada com foie gras, para o Silas, tortilla de bacalao. Para acompanhar, sangria, a típica bebida que os espanhóis fazem deliciosamente, bebem deliciosamente, dão para os filhos ainda pequenos e para os turistas se alegrarem. Depois disso, só nos restava voltar ao nosso albergue para descansar já que foi um esbaldar de sabores o que nos foi oferecido. 








Não há muito mais a dizer, só uma recomendação básica. Esqueça a ideia de que a Espanha é feita apenas de Madri, Barcelona, Córdoba, Sevilha e Granada. Essa região que é pouco falada nos guias aqui no Brasil é linda, romântica e muito saborosa. 

Em Berga fomos super bem tratados e, além disso, nessa cidade, numa noite enluarada de sábado, as pessoas dançaram (e deu a impressão de que dançam com frequência) uma espécie de ciranda na praça. Ali, há um senso de comunidade e de pertencimento invejáveis para qualquer cidadão do mundo, em especial, para quem deixou uma cidade pequena para viver numa grande em que mal os vizinhos se cumprimentam. É o meu caso. 


As fotos falam o resto. 


Boa viagem aos Pireneus da Espanha

Leia também: 

>>>  Vamos falar de viagem
>>> Barcelona, a porta de entrada
>>> Can Margarit, jantando com os locais

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Can Margarit: jantando com os locais

Férias de julho 2016 - Capítulo 3

Era 29 de junho, meu aniversário e estávamos em Barcelona. Combinamos um jantar especial. 

Nossa ideia era ir ao restaurante Quatre Gats.  Há mais de 15 anos estive em Barcelona e jantei nesse lugar. Por isso, cheguei até a reservar mesa. O 4Gats é badalado e super conhecido porque era o lugar frequentado por Pablo Picasso, um dos mais ilustres barceloneses de todos os tempos. Foi ele quem desenhou a capa do cardápio do restaurante em tempos de sua inspiração boêmia. 



O jantar é o que interessa



Por fim, decidimos mudar. Queríamos algo mais despojado, com um jeito catalão de verdade, isto é, menos pra turista. Sempre buscamos isso nas nossas viagens, mas é difícil encontrar sem a referência de alguém que vive ali. Por sorte, o Silas tinha lido sobre o Can Margarit num blog e quando leu o post pra mim, sentimos que era esse. 

Ponto pra intuição! 

Fomos caminhando até o lugar que, aparentemente, não nos pareceu uma rua badalada, a calle de la Concordia, embora o bairro Poble Sec tenha tido uma afeição especial do público alternativo e "in" de Barcelona. O caminho nos pareceu distante do turistal  (um jeito meio maldoso pelo qual chamamos o turista típico da CVC e seus semelhantes em viagens pelo mundo todo). Aliás, andando pra chegar lá, comentamos que as ruas pareciam com o Palermo em Buenos Aires, mas com menos pessoas. 


Em plena quarta-feira, lá pelas nove da noite (que lá ainda era de tarde porque os dias estavam longos de verão europeu) chegamos a uma taverna das mais simples e simpáticas. 

Mesa pra dois. Antes de sentar nos mandaram pegar um copo cada um que era para nos servirmos de vinho diretamente nos barris de madeira que ficam na área de espera bem na entrada do restaurante. 

Mesmo sem espera, já que ainda estava meio vazio, só com umas três mesas ocupadas, não nos tiraram o prazer de "abrir os serviços" com um copinho de vinho. Que gentil! 

De cara você se sente abraçado com essa demonstração de hospitalidade. Soa como generosidade dos donos. Aqui pelo Brasil, deixamos há tempos essas gentilezas. Tudo é cobrado, até a água da torneira. Aliás, agora há muitos restaurantes e bares em São Paulo que cobram 13 a 15% de taxa de garçom. Inflação em número percentual! Mas esse é assunto pra outra conversa.

No Can Margarit conhecemos literalmente uma taverna rústica. Sem nenhuma frescura, das cadeiras e mesas de madeira sem toalha, aos pequenos copos que mais pareciam com "cristais de geleia cica" (só que sem a borda grossa), e às louças e cerâmicas nas quais nossos pedidos vieram servidos, até a decoração nas paredes, tudo bem com cara de celeiro de sítio de antigamente. `



A iluminação, que sempre é uma preocupação para quem tem restaurante, era clara, mas tinha umas velinhas e não dava aquela sensação de branco hospital, que é desagradável demais. 

Pra ser sincera, senti como se esses elementos todos não tivessem qualquer importância. Tudo parecia tão casa da avó, que foi uma delícia passar quase três horas lá sentada na cadeirinha com assento de taboa. 

Comemos uma salada de bacalhau com batatas, pimentões e azeitonas de entrada. Que coisa gostosa! Melhor ainda porque também pedimos pão com tomate. Por sinal, comemos esse pãozinho com tomate praticamente em todas as principais refeições que fizemos na Espanha, não só na Catalunha.  




Depois veio a estrela da noite, o prato principal, o carro-chefe da casa. No cardápio está em caixa alta, digo, letras maiúsculas: conill a la Jumillana. Uma receita de coelho frito com cebola, alho, louro, hortelã, tomilho, alecrim, orégano, erva-doce. Digna, muito digna! 



Eu não gosto de alho. Se posso não comer, não como. Já o Silas, é o meu oposto. Ama! Nesse prato, que eu continuo elogiando, tinha tantos dentes de alho fritos em imersão de gordura que o Silas se esbaldou. Mais de 20, ainda com a casquinha em volta, era só tirar e degustar, como um creme, segundo ele. Eu fiquei com as cebolas caramelizadas. Boas que só vendo! E o coelho, qual é o jeito de fazer? Pela explicação do chef,  "a passarinho", só que como é coelho...  


Bebemos vinho rosado e água gasosa (ambos em copinhos como os de nutella) para acompanhar essa iguaria da cozinha do sul da Espanha, que é feita com esmero nessa taverna quase rural em plena cidade grande do nordeste do país. 





Sobremesa: creme catalão? Não, um pudim. O meu de laranja, o do Silas de coco. Nada a ser ufanado, deveras! 

Na taverna não tem café expresso, mas tem um licorzinho de vinho como digestivo... Hummm, bom! 








A conta foi bem econômica. Cerca de 40 euros para nós dois. Já o jantar foi memorável, pra dizer o mínimo. 

Ah! Se todos aprendêssemos que a graça está na simplicidade, no sorriso, na generosidade. Tudo iria bem melhor. 

Saímos de lá alegres pelo vinho, pela comida, pela comemoração, pela viagem e, mais que tudo, pela delicadeza com que fomos tratados. Pense num lugar que você não se vê como cliente, mas como um amigo distante que é bem vindo. Pensou? 

Pra quem vai a Barcelona e quer fugir do burburinho, a taverna Can Margarit é uma boa recomendação. Mas é bom saber que quando nós já íamos embora, o lugar estava com as mesas todas ocupadas. Merecido sucesso de um lugar que, depois pesquisei, tem 40 anos. 


Serviço: 

Taverna Can Margarit
Calle de la Concordia, 21. Barcelona 
Tel. +34934416723

De segunda a sábado, desde 20h30.