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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Barcelona, a porta de entrada

Férias de julho 2016 - Capítulo 2


Espanha que não é Espanha: comunidades autônomas


Depois do dia agradável e da conexão feita em Frankfurt, chegamos bem ao nosso destino e, como esperado depois de cerca de 36 horas acordados, dormimos copiosamente mais de dez na nossa estalagem temporária na capital da Catalunha, Barcelona!

Como a hospedagem de Airbnb sempre reserva surpresas, encontramos um excelente anfitrião, um carioca sorridente e prestativo, numa localização ótima com instalações, nem tanto. Mas, quatro noites seriam dormidas naquele colchão de molas um tanto velho numa cama sem cabeceira de um quarto cuja janela dava para o fosso interno do prédio. Ventanas fechadas = calor insuportável; janelas abertas = aquela mistura de cheiro de cigarro e poeira de prédio antigo meio mal cuidado em região central de cidade grande. 

Sou entusiasta do jeito Airbnb de hospedar, mas devo confessar que minha experiência em Nova Iorque não foi das melhores, o mesmo rolou agora em Barcelona. Na mesma casa havia quartos de condição diferente. Demos azar. Ponto. 

Preâmbulos pra entender e depois não se fala mais nisso

Basta olhar o mapa da Europa para verificar que a Espanha tem um território grande. São mais de 500 mil quilômetros quadrados. Só pra comparar, todo o estado de São Paulo dá metade disso. Esse vasto território conta com 17 comunidades autônomas, que são, mal comparando, como os nossos 27 estados no Brasil, mas com muito mais autonomia
Uma comunidade autônoma é uma entidade territorial que, no ordenamento constitucional de Espanha, é dotada de autonomia legislativa e competências executivas, bem como da faculdade de se administrar mediante representantes próprios.
Vale lembrar que a Espanha é uma monarquia parlamentarista. Desde 2014, quando o rei Juan Carlos abdicou, seu filho Filipe, o sexto, é o rei e chefe de Estado. O chefe de Governo é o primeiro-ministro, seu nome é Mariano Rajoy.

Na Espanha é histórica a questão separatista. Várias regiões do país, apesar do que reza a Constituição de 1978 feita no período de Transição Espanhola, depois de tantos anos de ditadura de Franco, não se sentem espanhóis. É o caso de cidadãos nascidos, por exemplo, no País Basco e na Catalunha. Eles se identificam como bascos e catalães, respectivamente. Dizem que só são Espanha pela imposição de conveniências políticas e econômicas. A língua que é fator fundamental para o sentimento de pertencimento de um povo num estado-nação,  no País Basco é euskera, na Catalunha, catalão. Embora seja obrigatório o espanhol para ambos. 

Então... apesar de um destino na Espanha, Barcelona é, basicamente, a capital de um outro país. Lá, as pessoas falam catalão e o idioma, que também é oficial, é escrito nas placas, nos mapas e em praticamente todas as publicações. Há estações de rádio e canais de TV nessa língua. 

Também por lá, há características que, para um turista, por mais sensível que seja, em apenas três ou quatro dias, não será possível definir se são regionalidades ou traços de uma outra nação ou outro povo. Situação difícil pra quem vê de fora.  Eu, de minha parte, exceto pela língua, não conseguiria distinguir um catalão de um basco, mas eles juram que são diferentes em tudo! E cada qual, é ainda mais diferente do espanhol de Castela, Aragão ou da Andaluzia. 

Eles dizem que cozinham e comem de um jeito diferente, plantam de forma diferente e, quando perguntados, respondem que são absolutamente autônomos e autossuficientes financeira e economicamente para que sejam um país também diferente. 

Conversando com um catalão ele me enfatizou que não vê qualquer sentido em render honras ao rei de Espanha. "Ele não é rei para nós na Cataluñya", disse. 

Quatro dias em Barcelona 

Sem planejamento, só ideias e memórias, fizemos coisas de montão. Primeiro dia: reconhecimento da cidade, começando com a padaria onde tomamos o primeiro café da manhã, passando pelo sistema de metrô e ônibus, passeio pelas Ramblas e suas travessas de Bairro Gótico


Uma parada no mercado La Boqueria com toda a sua variedade de cores, sabores, sons, e um susto: as bancas fecham à tarde! Sim, lá pelas 14 horas o movimento cessa nas vendas de cerejas, castanhas, sucos, jamons e pimentos diversos. Ainda assim, brindamos o meu aniversário com cerveja de barril acompanhando batatas bravas e um farta porção de jamon serrano e pão com tomate. 


Ah! Os tomates mais deliciosos que já comi foram os da Espanha: doces, firmes e suculentos, bem vermelhos, nunca amarelados ou empedrados.  


  






Fomos à Catedral e ao seu entorno, descobrimos praças que já não nos lembrávamos que existiam porque a memória é seletiva e o tempo apaga ou torna turvas algumas lembranças e, entre um aqui e um ali,  logo começamos a entender o que é e porque há o período da sesta (siesta em castelhano) na Espanha. Essa tradição nos rendeu risadas, mas também muita irritação já que nossos horários (fora a questão do fuso e o irremediável jet lag) como turistas brasileiros não batem com os da fome espanhola. 

Fazia calor, muito sol e nas ruas da pulsante Barcelona, andamos, andamos, andamos... andamos. 

Chegamos ainda com muito sol à região portuária, onde está o monumento a Colón (Cristóvão Colombo) e é lá que se deitam estacionadas "pequenas embarcações" cujo tamanho e o luxo derrubam o queixo de qualquer pseudo-rico por aí viajando de primeira classe. São iates muito mais que luxuosos de milionários, sabe-se lá se do petróleo ou das grandes indústrias das tecnologias. Lugares onde, no meu imaginário, rolam festas, recepções e muita, muita, muita grana per capta.   

Nesse dia, fomos também ao Aquário, paramos um pouco para ver ao voo das gaivotas. Elas dão show nessa região. Gente, Barcelona tem mar e praia. E gaivotas. 

Nesses quatro dias, ainda "turistamos como manda o figuro" na terra de Gaudí, Picasso e Miró. Fomos à Sagrada Familia, ao Parque Guel, relembramos a Casa Batló, e a Milá ou La Pedrera, estivemos no Parque Olimpíco de Monjuic, passeamos pelas ruas do comércio chiquérrimo e também do popular com rebajas* e segundas rebajas...  Ah! Não dá pra esquecer que teve também a fonte de águas coloridas e dançantes. 





Na sexta-feira, alugamos bicicletas e isso  foi um ponto alto dessa nossa viagem. Como Barcelona é muito grande e há mais turistas no mundo do que eu gostaria, nem sempre é fácil estar numa cidade como essa em transporte convencional, digo, carro, ônibus e  metrô. A bike é uma aliada. Cansa menos do que andar, rende grandes distâncias, alivia o calor porque sempre vem um vento no rosto e dá uma sensação de liberdade, um empoderamento que só pedalando pra saber! 

Com o magrela fomos à praia,  não sem antes parar num centro cultural que já foi mercado, passando pelo arco do triunfo catalão.  Praças, parques cheios de crianças, muita gente vivendo o verão. 

Sabe, na Europa, as pessoas não se sentem culpadas por ter férias, por trabalhar menos horas, por parar num bar para tomar uma sangria com os amigos e comer umas tapas. Eles têm direito a curtir o verão e fazem isso de verdade. Sem pudores. Com crise ou sem. Nós precisamos aprender isso. 




A estada em Barcelona nos fez decidir que não seria nossa intenção ficar em cidades muito grandes, por isso, excluímos Madri do roteiro e, embora tenhamos ido a cidades grandes como Saragoça, Segóvia e Burgos, nosso foco foi visitar lugares menos tumultuados. Vimos uma Espanha delicada, gentil, solícita, cheia de gente sorridente, com vontade e disposição para um dedinho de prosa, mesmo com turistas que parecem italianos ou franceses e falam portunhol. 

Depois de Barcelona, seguimos de carro até o fim da viagem.  Primeiro, a Catalunha, os Pirineus, depois chegamos a Andorra e  fomos ao País Basco. Tem história pra vários capítulos... 

Leia também: 

  >>> Vamos falar de viagem - Férias de julho Capítulo 1


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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Vamos falar de viagem

Férias de julho 2016 - Capítulo 1


O que torna um lugar hospitaleiro?


Como prometido, vamos falar da viagem pra Espanha. Antes que as férias acabem, é bom demais pensar que o mundo é cheio de lugares lindos, pulsantes e interessantes.  Exuberantes pela natureza ou pela ação do homem, ricos por patrimônio e economia, mas também por tradição, história e cultura. É tudo de bom viajar e é bom demais voltar pra casa. Ando feliz de poder me encorujar no meu ninho.


O traslado - As conexões


Barcelona foi a nossa porta de entrada na Espanha, mas não na Europa porque fizemos uma conexão em Frankfurt, na Alemanha, e lá passamos praticamente um dia inteiro passeando e conhecendo o bonito e arrumado centro da cidade.


A propósito, olhando para o mapa, por que sair do Brasil, ir até Frankfurt e depois voltar para Barcelona? Simples. Porque a passagem é bem mais barata. Coisas da aviação. Tem vez que é assim, tem vez que não é. Precisaria trabalhar na área de precificação de passagens aéreas para entender os meandros que levam a esses aparentes contrassensos nos valores. Fato é que a diferença entre ir direto pra Barcelona era de mais de R$ 600,00 (seiscentos reais) por passagem.  Para dois, Silas e eu, seriam 1200 reais a mais e não teríamos tido um dia super divertido em Frankfurt, uma cidade cheia de história, limpa e de fácil transporte para quem tem algumas quase doze horas como nos tivemos por lá.

Chegamos a pensar em não embarcar no voo da conexão e ficar uns dias na Alemanha. Poderíamos visitar o Arthur e conhecer mais uma parte do país, mas descobrimos que isso não é possível. A Lufthansa nos informou que, caso não embarcássemos para Barcelona, o nosso bilhete aéreo seria considerado como  "no show", isto é, como se não tivéssemos feito a viagem de ida inteira. Isso nos impediria de voltar por Barcelona depois e, da mesma forma, por Frankfurt.  





Essa é uma informação importante pra quem pretende viajar: não é permitido usar somente parte da passagem com conexão. Por exemplo: passagem de ida e volta: São Paulo-Madri-Roma/ Roma-Madri-São Paulo. Não pode parar em Madri e depois ir por conta pra Roma e querer voltar com a conexão. O sistema, caso não haja o embarque de Madri pra Roma, registra "no show", ou seja, não comparecimento. Fica a dica. 


Hospitalidade


Por dever de ofício e porque amo, sempre penso em termos de hospitalidade. Questões sobre como sou recebida e tratada, se me dão um sorriso, se sou objeto de curiosidade ou de preconceito, se me dedicam atenção, enfim, coisas que faço normalmente ao me relacionar com gente. 


"... hospitalidade é a obrigação de tratar estranhos com dignidade, alimentá-los e fornecer-lhes bebidas e protegê-los. " 

Reflito agora sobre o que é uma cidade hospitaleira. Tomando Frankfurt como exemplo pode parecer fácil.  Para bem receber, apesar de muitos, são simples os itens que compõem a hospitalidade. E só pensar em quais são as necessidades de um turista ou viajante a serem atendidas: primeiro de tudo, informação é imprescindível. Uma cidade que não disponibiliza informações por meio institucional e de pessoas especializadas, mapas e placas de sinalização (de preferência em duas ou mais línguas), não é hospitaleira.  Além disso, é preciso segurança, facilidade de locomoção tanto em termos de transporte como de infraestrutura de calçadas e vias, possibilidade de acomodação e restauração (esse é o nome técnico para a alimentação = restaurar, recompor), entretenimento e, claro, aquela boa vontade de seus cidadãos para ajudar o viajante. Simples. Todas as cidades deveriam ter. Só que não têm.



Não é o caso de Frankfurt que tem. Tudo direitinho como um bom exemplar da cultura alemã. Tudo arrumado, limpo, organizado. Assim que chegamos, por um pouco de afobação, fomos para a estação de metrô que sai do  aeroporto e ficamos meio perdidos. Logo, pegamos um mapa, paramos para pensar que trem devíamos pegar e lá fomos nós: pro lado errado!  Nem bem andamos uma estação, notamos o erro e foi só risada. Voltamos e pronto! Em menos de 20 minutos estávamos no centro da cidade, sãos e salvos. Pelo valor de um passagem de metrô.

Frankfurt é uma Gramado de verdade, ops!, é que a cidade no Sul do Brasil é bonita, tem casas com um telhadinho feito sob encomenda para parecer com a Alemanha. Frankfurt é assim de verdade. E sem, nem de longe, falar mal de Gramado, não tem o lamentável apelo de compras que nos bombardeia o olhar em cada pequeno trecho de cidade. Na última vez que estivem em Gramado, em menos de duas horas, quis sair de lá o mais depressa possível.  

A cidade de Frankfurt é linda, digo, o centro da cidade é lindo. Esse eu vi. São muitas construções enxaimel* originais, construídas assim até hoje, combinadas com todos os elementos mencionados que a caracterizam como hospitaleira. Não há poluição visual, os monumentos são preservados, há calçamento nas ruas, o asfalto não tem buracos e, embora com muitos carros, não há barulho ensurdecedor. As pessoas não o enganam no troco; elas são solícitas no limite das suas perguntas, sem intromissão; há bons lugares pra comer para todo tipo de bolso; os meios de transporte não estão lotados e nem param por problemas de falta de energia, mas a placas nem sempre estão escritas em duas línguas ou mais! O que não se pode dizer dos empregados que atendem aos turistas. Eles falam alemão e inglês, pelo menos. Com a gente? Perguntavam se éramos franceses. 

Em qualquer lugar no mundo, logo que chegamos, nossa busca é imediata por uma central de informações para turistas. Nesse espaço, encontramos um mapa e pessoas treinadas para nos atender em necessidades que são muito distintas, dependendo do tipo de viajante que se é. Afinal, nós viajamos sozinhos. Para quem sempre viaja de excursão ou com um agente de viagens que  programa todo os passos a serem dados, essa não é uma necessidade. Pra nós, é básico. Temos que saber o que fazer, para que lado ir, onde é bom comer, quanto pagaremos, onde estão os principais museus, igrejas, feiras, hotéis. Não importa se estudamos muito ou pouco a região visitada, o "tourist information" é fundamental!











Há muito mais a dizer sobre esse breve período que estivemos em Frankfurt. Mas hoje fui tomada pela reflexão. Efeito-viagem! Elas, as viagens, me causam isso. 


Nós no Brasil


Daqui apenas alguns dias começam as Olimpíadas no Brasil, uau! Eu tinha que estar por aqui. Adoro! Apesar de todas as críticas, gastos, vexames, politicalha da pior natureza, as Olimpíadas são o congraçamento de todas as nações por meio do esporte. O mundo estará aqui no Brasil no próximo mês e isso é muito significativo, importante e histórico! 

Como será nossa hospitalidade? Basta a boa vontade? Temos condições de receber bem todo o contingente de viajantes que estarão aqui nesses dias? Que atitude teremos diante de um turista? 

Eu acho o brasileiro violento (todo brasileiro, não só os que comumente chamamos de marginais), sem educação, intruso e egoísta. Muitas vezes, somos o poço dos preconceitos dada a nossa grande ignorância. Somos oportunistas, racistas, sexistas, homofóbicos, em resumo, somos Casa Grande e Senzala. "O turista é alguém a ser explorado", assim pensa o brasileiro. Ah! não? Lembre apenas de quanto um evento como a Copa do Mundo gerou de inflação nesse país. Simplesmente subiram os preços porque havia otários pra comprar e eles não tinham opção. 

Mas... no fundo da minha alma cor de rosa (sou uma otimista e prezo isso), acredito que também podemos ser generosos, abrindo a cabeça e o coração. Um exercício de aceitar o diferente, ser honesto, justo, educado, gentil, hospitaleiro pode ser bom! Vem aí uma chance para mudar a nossa atitude porque o nosso marketing não anda muito bom, não. 

*enxaimel = tipo de construção na qual uma estrutura de madeiras encaixadas tem seus vãos preenchidos com tijolos ou taipa.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

1884, o restaurante de Francis Mallmann em Mendoza


(Texto especialmente redigido para o PortaTop Vitrine em 03/12/2015)


Há dias prometo esse post, mas precisava de um tempo para que a poeira baixasse e a reflexão me fizesse ser honesta e sensata nas minhas avaliações. Apesar de valorizar imensamente as emoções, em especial quando se referem a impressões sobre lugares e paladares, acho que o restaurante 1884 em Godoy Cruz, Mendoza, na Argentina, merece essa consideração. 

Com a viagem marcada, tratamos de tomar algumas providências como estudar as principais atrações do local e fazer reservas nos restaurantes mais famosos e indicados. 

Estando em Mendoza, eu não deixaria de conhecer o restaurante do chef Francis Mallmann, uma vez que o acho, no mínimo, sui generis a cozinha regional argentina e, mais que isso, simpatizo enormemente com os "cozinheiros-celebridades" que valorizam (às vezes até em demasia) suas raízes culinárias. 

Para quem não sabe quem é Mallmann sugiro assistir a um dos documentários da série Chef's Table que a Netflix lançou este ano. Dá para ter uma ideia apenas pelo trailer  do quão surpreendente pode ser o restaurante desse argentino, um tanto excêntrico e pra lá de ousado. 

Chegamos pouco antes da hora agendada e, para esperar nossos amigos que ainda estavam a caminho, fizemos uma visita de reconhecimento do lugar. 

O restaurante se chama 1884 porque esse foi o ano da construção da sede da vinícola Escorihuela Gascón, que sofreu um incêndio tendo ficado em ruínas. Foi então resgatada por Francis Mallmann que a transformou num charmoso e elegantérrimo restaurante mendocino, muito procurado por turistas e críticos de gastronomia.  Todo taxista de Mendoza, mesmo sem entender o que dizem os passageiros estrangeiros, saberá conduzi-los ao estabelecimento de Mallmann. 

Chamam atenção a decoração refinada e aconchegante do local, o que é plenamente favorecido pela iluminação indireta e o aroma da brasa e das cinzas que percorre o ambiente uma vez que é um atrativo do restaurante o preparo das carnes de frango e cordeiro à moda. 

Um grande braseiro redondo fica na área externa do restaurante próximo às mesas do jardim. Nele é feito o churrasco, mas o que é atraente é como ficam penduradas as carnes para que sofram a ação da temperatura e da fumaça. Isso lhes rende um sabor diferenciado de tudo o que se possa ter comido até então. 




O atendimento do 1884 é feito por jovens estudantes de hospitalidade e gastronomia. Todos muito descolados, cheios de tatuagens, com cortes de cabelos e barba bem pouco convencionais, assim como seus acessórios: piercings, óculos e brincos.  

Embora não seja recomendado o uso desses elementos chamativos pelas tradicionais e austeras escolas de gastronomia pelo mundo, nas escolas de marketing, com certeza, compõem o plano estratégico para atrair clientes para esse tipo de restaurante que vende profissionalismo aliado a ousadia. 

Até que tivessem sido escolhidos os pratos e o vinho, a brigada demonstrou amplo conhecimento dos pratos, desembaraço para explicar os ingredientes que compunham os preparos, sem, no entanto, sugerir nada, nem esboçar paciência ou impaciência conosco, os comensais. Mantiveram-se impávidos. A meu ver falta simpatia ou empatia com o cliente, deixando uma ponta de arrogância no ar do atendimento. Apesar do padrão internacional, a brigada falava espanhol. Ponto. 

Nem mesmo o vinho para a harmonização nos foi sugerido. É bom dizer, no entanto, que, apenas diante da minha menção de uma garrafa com determinadas características, entre as quais o preço (eu pedi que não fosse alto demais), o maitre sommelier nos indicou um blend, como eles chamam por lá, ou assemblage, como chamamos por aqui, de malbec, cabernet sauvignon, syrah, merlot e petit verdot para acompanhar os pratos.  Nada barato, mas delicioso. Tomamos um gran vin Cuvelier Los Andes, safra 2010. 

Para um cliente desavisado, o atendimento pode ser considerado um pouco hostil. A carta de vinhos é enorme, são várias páginas de muitos rótulos, safras e uvas. Ouso dizer que a maior parte dos visitantes da casa não deve ser formada por profundos conhecedores de enologia. O que me faz crer que a postura dos garçons e do maitre não os teria ajudado. O que não significa que não sejam preparados para o que fazem, nem que sejam pouco treinados para fazer boas vendas porque sabem conduzir o cliente a pagar por uma garrafa sempre um pouco além do que gostariam. 

Estávamos em cinco pessoas e diante da exigência de consumirmos pratos individualmente, sem que pudéssemos reparti-los, pedimos cinco pratos. Sobrou comida, claro! Isso não é bom. Caracteriza um descuido do restaurante com o meio ambiente porque comida que vai para o lixo é comida desperdiçada. Dá impressão que é só o lucro que importa, ou seja, se o cliente estiver disposto a pagar, não é preciso informá-lo que os pratos são grandes, mesmo que ele tenha perguntado, como foi o nosso caso. 

As entradas surpreenderam ao paladar. Pedimos empanaditas com salada  e salada com queijo de cabra. Ambas muito saborosas, com destaque para o gosto levemente queimado das empanadas. Esse fundinho queimado dos preparos é, de fato, muito aconchegante e dá uma sensação de casa quentinha e acolhedora quando degustamos. 

Quatro dos pratos pedidos foram costeletas de "corderos" feitas na brasa, em grandes espetos, algo um tanto curioso para quem não é acostumado a esse tipo de  cocção. O cordeiro assado compunha a sugestão do dia. Esse prato é considerado a principal prata da casa, tanto que todos ficamos muito entusiasmados com ele. 

O outro dos cinco pratos foi um "chivito" (cabrito), este cozido por longas horas na panela em vinho malbec. Servido com batatas, tinha um tempero incrível, realmente memorável. Para voltar e repetir ou guardar para sempre nas melhores lembranças gustativas. 

Algo interessante é o serviço de água com e sem gás. Você paga um determinado valor e seu copo será sempre reabastecido. 

Aqui faço algumas observações e ressalvas sobre como foi o nosso atendimento no 1884. A partir de uma determinada hora, logo que foi servido o prato principal, nossos copos tanto de água quanto de vinho deixaram de ser enchidos. Fomos esquecidos. Assim como também esqueceram de colocar alguma iluminação como uma velinha ou abajur na nossa mesa. Eu não gosto de comer no escuro sem ver o que como, isso não é nada confortável. 

Quando tentamos ter a atenção dos garçons, a menos que subíssemos na mesa e dançássemos kan kan, havíamos nos tornamos de uma hora para outra completamente transparentes aos olhos da brigada.  Decepcionante para o cliente num lugar como esse. 

Depois de decidirmos não pedir sobremesa, solicitamos o café e a conta.  

O lugar não aceita reais, nem dólares. Somente pesos e cartão de crédito. Também não tem maquininha que vai à mesa. Os pagadores com cartão precisam dirigir-se ao caixa para quitar suas dívidas. 

Perguntei em algum momento pelo chef Francis Mallamann. Gostaria de conhecê-lo pessoalmente. Segundo Maria, a hostess da casa, ele não aparecia por lá há cerca de um mês. Pena! 


Quando se trata de hospitalidade, a experiência de ir a um restaurante como o 1884 gera expectativa até mesmo aos mais desinformados clientes. É um estabelecimento reconhecido, afamado, com referências em guias turísticos com legendas que levam vários cifrões. E, pode acreditar, a conta faz jus aos cifrões.  Não se espera pouco, portanto. Quem vai quer ser surpreendido. Para isso, se apronta e se apruma, como nós fizemos. O esquecimento e o descuido da brigada do restaurante é imperdoável. 


O restaurante é bonito, a decoração elegante, a comida tem qualidade, a carta de vinhos extensa e valiosa. O atendimento, contudo, vai da euforia à depressão. 

Não gosto de dar nota, só opinião, e a minha é que faltou um olhar mais atento do todo no dia em que estivemos lá. E ainda completaria: menos marketing feito de carinhas jovens e descoladas e  mais atenção ao cliente de um jeito simples, humano e menos técnico, fariam a experiência inesquecível para os cinco sentidos.  

Em outra oportunidade, quem sabe seja diferente. 

Serviço:

1884  Restaurante Francis Mallmann

Aberto todos os dias a partir das 20h30.

Belgrano 1188 - Godoy Cruz
Mendoza - Argentina
Tel: 261 424-3336
261 424-2698

http://1884restaurante.com.ar/


Leia também: 

>>> Mendoza vem aí: preparação
>>> Mendoza, vá preparado


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mendoza: vá preparado

Se você pretende ir para a Argentina e não quer se restringir à capital Buenos Aires, vá a Mendoza! Mas, vá preparado porque são muitas as opções, os preços não são os mais convidativos e se refletir e planejar não vai assustar com nada e poderá escolher o que quer fazer. Será maravilhoso!

Vou contar um pouco das minhas impressões sendo que fiquei lá somente uma semana. Não voltaria amanhã porque ando um pouco cansada já que viajar dá um certo trabalho e eu acabei de voltar. Mas voltarei um dia porque há muito para desfrutar naquele lugar.








A cidade é bonita, fica aos pés do que eles, lá, chamam de Pré-Cordilheira (dos Andes). O clima é bom, apesar de seco. Faz frio no inverno (e nas Altas Montanhas, mesmo que seja primavera) e calor no verão.  Há uma boa infraestrutura para o turista, o atendimento é caloroso e quase sempre bastante solícito. Além disso, em nada aparenta ser um lugar inseguro. Ao contrário, apesar do agito dos bares, restaurantes e lojas, parece um lugar de tranquilidade, com muitas pessoas nas ruas, incluindo muitas crianças, tanto em carrinhos de bebês como correndo pelas praças e andando nos ônibus ao saírem das escolas, nem sempre acompanhadas de adultos.






A infraestrutura a que me referi para o turismo diz respeito a itens como aeroporto, rede hoteleira para todo tipo de poder aquisitivo, agências de viagem que oferecem passeios padrão e também personalizados para conhecer os principais atrativos da região (tanto as vinícolas quanto as montanhas), locadoras de veículos, bus tour que passa pelos principais pontos turísticos da cidade no sistema hop on hop off, rua de comércio de suvenires e outros que agora não me ocorrem.

Tudo começa com grana

Como disse, vá preparado. A questão do valor do dinheiro pode assustar, especialmente se você viajar para Argentina, achando que lá  não teve inflação nos últimos anos e, mais ainda, se não estiver atento ao que ocorreu com o câmbio brasileiro em 2015. Logo, a dica é: vá preparado para não se chocar com os preços.

No momento, a nossa moeda está muito desvalorizada e, como diz o Silas, acabou a farra do consumo exagerado da classe média brasileira que aprendeu nos últimos anos a viajar para o exterior com moeda super valorizada, ou seja, valendo quase o mesmo que o dólar que é moeda de país forte economicamente.

Quem converte não se diverte - Esse é um ditado recorrente, mas é só um dito popular que pode levar muita gente a se endividar à toa. Dá, sim, pra se divertir e será ainda melhor se você for prático e rápido o bastante para calcular o quanto vale cada coisa que vai fazer ou comprar. Claro que ninguém viaja para ficar olhando o frango girando na televisão de cachorro em frente à padaria. O que não significa que tudo o que vir pela frente deve ser comprado.

Na Argentina, ainda funciona a pleno vapor o câmbio negro de moeda estrangeira, em especial, dólares, euros e também reais, devido à proximidade do Brasil e a quantidade de turistas brasileiros por lá.  Cambiar moeda no paralelo, ou seja, no câmbio não oficial tem riscos, mas é uma prática comum nas regiões turísticas argentinas.

A cotação oficial para câmbio é de $ 9,53 (pesos argentinos) para cada US$ 1 (dólar) e $ 2,50 para cada real.  Assim, quando cobrarem por uma coca light no restaurante o valor de 37 pesos, você estará pagando oficialmente R$ 14,80 por uma garrafinha de refrigerante de 290 ml.

Deu pra entender que é preciso escolher o que se quer consumir, certo? Há mil formas de lidar com isso. Eu, pessoalmente, não vou me endividar bebendo coca light!

Deixando um pouco de lado a questão financeira, as atrações são muitas em Mendoza.

Vinícolas

Há três regiões vitivinicultoras definidas em Mendoza que são: Maipu, Valle del Uco e Luján del Cuyo. Em todas elas há vinícolas de vários portes, oferecendo um visual memorável dos parreirais e dos vinhedos, do sopé da montanha ao céu azul limpo sem uma só nuvem porque o clima é seco, com bodegas, visitas e degustações, guias super preparados para explicar como e quanto se produz, além de restaurantes, passeios de bicicleta, chás da tarde etc.

Chama mesmo a atenção a quantidade de vinícolas da região. São 1200, segundo o motorista do sistema remis que usamos assim que chegamos para ir do aeroporto até o hostel onde nos hospedamos no centro da cidade, bem ao lado da avenida Las Heras (a principal do comércio das lembrancinhas).


Minha xará Cláudia era quem alugava as bikes, ela nos fotografou!
Nós, Silas e eu, junto com outros amigos, alugamos bicicletas e rodamos por algumas vinícolas. No entanto, embora a região seja plana e fácil para pedalar e o visual estonteantemente lindo, o sol castiga muito e depois da segunda degustação de vários vinhos, a gente já está um pouco "borracho" para dirigir qualquer veículo.  Mas é só alegria, só risada e descontração.




Vinícola Mevi, em Maipu


Noutro dia, fomos de ônibus e depois caminhando até o Museu do Vinho. Esse vale um post exclusivo.

Altas Montanhas

Fizemos um passeio inesquecível à Cordilheira dos Andes. Partindo de Mendoza, fomos primeiro a Potrerillos, em seguida a Uspallata, depois visitamos a Torre del Incas e subimos, subimos e subimos, até ficarmos cara a cara com o maior pico da América Latina: o Monte Aconcágua. Lembrei-me da dona Sandra, minha primeira professora de Geografia. Foi com ela que aprendi que o ponto mais alto do Brasil é o Pico da Bandeira e o maior da América do Sul é o Aconcágua: simplesmente magnífico. São 6.962 metros de altura acima do nível do mar.


De todas as viagens que faço tenho memórias de lugares esplêndidos. Só por brincadeira comigo mesma, eu costumo ter um ranking das primeiras colocações por ordem do quanto fiquei impressionada com um determinado visual, lugar ou mesmo um prédio, uma obra de arte, enfim, algo que dê conta da emoção.

Quando vou a uma nova localidade, nem sempre penso em mudar meu ranqueamento. Os Top Five são sempre os mesmos, eu diria. Agora foi diferente. Diante do Serro Santa Helena, no meio da Cordilheira dos Andes, que antes eu só tinha visto do avião e em fotos, eu pensei em desbancar as Cataratas de Foz do Iguaçu - que, sem dúvida, até então, era o lugar mais lindo que eu já tinha visto.
Mas para mudar o ranking preciso analisar se essa imagem permanecerá em mim. Aí, quem sabe, mudo a ordem dos primeiros lugares. Ainda é cedo pra dizer porque estou anestesiada pelo impacto de tamanha beleza diante dos meus olhos.

Quem puder ir um dia, vá! Vá preparado porque a emoção é enorme.









Como se fosse pouco, a descida das Altas Montanhas foi pelos "carocoles", a estrada antiga que levava os mendocinos ao Chile. São 365 curvas do tipo cotovelo com uma vista espetacular. É tão lindo que a gente ri à toa.


Na descida, por primeiro arbustos enfeitados com neve
Caracoles - Caminho de Vila Vicenzio



Um "zorro" nos fez companhia na estrada


E várias famílias de guanacos podem ser vistas por ali



Restaurantes 

Mendoza tem muitos restaurantes. Para muitos gostos e todos os bolsos. Estivemos em alguns que terão posts específicos. No primeiro dia da viagem fomos ao 1884, o restaurante do chef Francis Malmann. No último dia, almoçamos no recomendado e surpreendentemente bom La Melesca, em Maipu. De ambos, tenho observações a fazer com mais detalhes em outra ocasião.





Uma cidade com praças -   O uso do espaço urbano pelos cidadãos argentinos é reconhecido internacionalmente. Buenos Aires é uma cidade linda, com parques onde as pessoas vão para passar o dia inteiro. Lá se divertem com amigos, comem, descansam, leem, jogam bola, cantam, dançam... Embora tenhamos um pouco disso no Brasil, nem de longe usamos o espaço como nossos hermanos portenhos.



Plaza San Martin
Em Mendoza é igual a Buenos Aires. Tanto que a cidade nova é recheada de praças. Aqui é preciso um parêntese para explicar a cidade nova. Em 1861, Mendoza foi totalmente destruída por um terremoto. Sobraram ruínas. A reconstrução da cidade após esse abalo sísmico resultou na chamada cidade nova.


A Plaza Independência fica no centro da cidade e em cada uma de suas quatro extremidades há outras praças que são: San Martin, España, Chile e Itália.  Isso é muito marcante na cidade. Todas as praças são lindas, muito arborizadas, com decoração e paisagismo próprios. Sempre muito bem ocupadas por pessoas de idades e interesses diferentes: bebês com mamães, homens conversando, namorados se encontrando, skatistas, pintores, artistas, artesãos, expositores de artesanias, turistas... de tudo.
Silas desfrutando de um charuto em Peatonal Sarmiento

Ah! Diferente no entanto de Buenos Aires é que em Mendoza é clara a miscigenação da Argentina, principalmente indígenas e europeus. Mas há também negros, que são mais raros na capital.

Há muito mais para contar. Por hoje, chega. Quem sabe escrevo depois outros capítulos, como fiz com Cuba. Então, fique preparado!