terça-feira, 3 de junho de 2014

Uma casa com luz natural e amor

Você já parou para se perguntar o que faz um lugar, como uma casa, ser aconchegante? Por que será que há lugares onde a gente entra e o santo não bate, mas tem outros que tem tudo a ver?

Eu que não sou arquiteta, mas sou a mais animada decoradora-amadora, tenho fissura por revistas e sites com fotos de interiores. Acho os editoriais de decoração fantásticos. Sou capaz de ficar horas observando cada detalhe de uma foto que tenha uma estante, um armarinho de cozinha ou uma moldura num espelho, só imaginando um lugar em que aquilo poderia servir na minha casa ou na de alguém que eu conheço. Outra coisa que eu adoro são aqueles programas de TV que fazem modificações nos ambientes transformando-os em espaços lindos e com um tanto da personalidade do dono. Uma arte a meu ver. 

As fotos falam muito, não há dúvida. Os profissionais que trabalham nessas transformações são verdadeiros magos. Eles entendem mesmo de cor, iluminação, proporção, contraste, e tudo o mais que é técnica para atingir bons resultados na busca do aconchego.

Mas uma casa aconchegante, arrisco dizer, é aquela que tem vida. Pra mim, a vida se manifesta em cheiro de café logo de manhã, antes mesmo de abrir as janelas, no barulho do trinco girando na porta quando alguém que a gente espera está chegando, no piano repetindo uma sequência de notas quase insuportável ao ouvido que chega a parecer tortura, mas é música quando amamos quem toca, em fogão sujo de comida que acabou de ser feita porque os filhos apareceram de repente... 

A entrada de luz natural numa casa muda a qualidade de vida das pessoas para melhor. O mesmo ela faria com os deprimidos dos escritórios que não veem a cor do sol durante todo o dia,  às vezes sequer sabem se está chovendo ou nublado porque não saem nem para almoçar. 

Sempre gostei de trabalhar onde eu podia ver a luz. Agora, trabalho várias horas do dia na cozinha e outras várias no home office, que foi planejado para o Silas, mas eu fiquei com um espaço bem perto da janela, portanto tenho luz natural sempre. 

Esta manhã enquanto preparámos o café, a Bruna, o Silas, a Nina (a gata preta) e eu na cozinha, falávamos do método para alunos iniciantes de piano. A Bruna, que estuda música, dizia que isso era a coisa mais chata de se ouvir repetidas vezes. E é mesmo. Mas creio que pode irritar ou não, tudo vai depender de como você sente aquilo. Eu até disse a ela que ouvia música quando o Silas estuda piano.  Virou uma gargalhada só... 

O lance é que uma casa para ser feliz e harmoniosa precisa ter, além de luz natural, amor. 

Então, segue aqui uma receita da minha avó Angelina de um bolo branco que é só amor. 

Bolo Flor de Maio

Ingredientes

3 ovos (claras e gemas separadas)
2 xícaras (chá) de açúcar
2 colheres (sopa) de manteiga bem cheias 
3 xícaras (chá) de farinha de trigo
2 xícaras (chá) de leite
1 pitada de sal
2 colheres (sopa) de fermento 

Modo de fazer
Bata as claras em neve e reserve. Numa tigela grande bata as gemas com o açúcar e a manteiga. Depois de bem batidos esses ingredientes, tendo uma massa bem clara, alterne a farinha de trigo e o leite. Cololque a pitada de sal. Acrescente as claras batidas em neve e as duas colheres de fermento. Leve  para assar em forma retangular no forno pré-aquecido por cerca de 40 a 45 minutos, temperatura de 200 graus.  

Esse bolo, minha avó fazia todo sábado à noite, logo depois da novela das oito. Ele era batido na mão porque na casa dela não tinha batedeira. Quando nós estávamos lá, minha irmã Cristina batia a massa e eu, como era menor, as claras em neve. 


Em pé, Cris, e ao fundo,  Júnior, meus irmãos; minha avó Angelina comigo e com a Dadá no colo, e a Rose, minha prima com a flor na boca
A casa de minha avó era muito simples, de gente pobre, daquelas antigas com tijolos no chão, sem forro e com frestras por onde o frio entrava que eram tapadas com cortinas feitas por ela mesma ou cobertores enrolados no auge do inverno. Esse é o lugar mais aconchegante que eu já estive em toda a minha vida. Nenhum arquiteto ou decorador poderia reproduzir. 

Eu daria qualquer coisa para sentir de novo aquele cheiro do bolo Flor de Maio cortado em losangos servido para a tia Matilde e minha madrinha Ana junto com o cafezinho no domingo à tarde. O mesmo bolo simples que me fez ouvir outra vez,  agora enquanto escrevo, o garfo batendo num prato branco fundo lascado, enquanto eu tentava formar neve com as claras, mas era pequena demais para conseguir. 

Se fizer (o bolo), traga um pedaço! 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Caverna Bugre, impressões

Há anos eu sei da existência da Caverna Bugre, apesar de não prestar atenção nesse lugar quando passava em frente, porque não existe nada que chame atenção na fachada. 
Morei em Pinheiros mais de 16 anos. Inevitavelmente, meu caminho para subir em direção a Avenida Paulista, quase sempre, era pela rua Teodoro Sampaio, fosse de carro, ônibus ou a pé. Do mesmo jeito a volta caminhando do trabalho pra casa. 

Só que há menos de três anos estive lá pela primeira vez. Fomos jantar, Silas e eu, para comemorar alguma coisa.  Eu gostei de ter ido naquela ocasião. 


--- tags: crítica gastronômica, visita técnica, restaurante Caverna Bugre


Agora, por conta de um trabalho de avaliação de restaurantes no curso de Gastronomia, sugeri aos meus colegas de grupo que elegêssemos o Bugre para analisar suas qualidades. Embora o grupo seja formado por meia dúzia de pessoas, resolvemos que nossa visita não seria feita em conjunto. Cada um visitaria o espaço num horário e dia da semana. O objetivo era ter impressões sobre o serviço em diversos momentos, para, inclusive, discutirmos a regularidade do atendimento e se há mudanças no tipo de serviço oferecido em horários e dias distintos. 

Localização - Já falei que fica na Teodoro Sampaio, a uma quadra e meia da entrada do metrô Clínicas. De dia é uma loucura o fluxo de pessoas na rua e à noite é um lugar que transparece o que foi de dia. Tem sujeira na rua, movimento de carro e barulho de trânsito. 

Sistema de reserva - Eu estive no restaurante na sexta-feira, 23/05, para jantar. Fui com o Silas. Chegamos perto das nove da noite, sem ter feito reserva. 

Estacionamento/segurança - Não há serviço de manobrista no local, nem lugar para parar o carro na rua até às 20 horas, porque é proibido estacionar na rua Teodoro Sampaio durante o horário comercial.  Como chegamos depois desse horário, deixamos o carro a alguns metros do restaurante, na rua mesmo. 

Ambiente, decoração e serviço - Minha primeira impressão ao entrar pela segunda vez no local foi de que faz tempo que ali ninguém vê qualquer inovação, treinamento, novidade... Três garçons estavam parados em pé próximos à entrada e, ao nosso movimento de pedir uma mesa já que parte do salão estava ocupado, não se moveram. Vendo que havia lugar, nos sentamos numa mesa embaixo da janela da rua. 

Nas paredes, nenhum quadro ou enfeite. Só uma TV de plasma bem grande posicionada num canto superior perto da porta transmitia o fim do Jornal Nacional. O som da TV quase não era ouvido.

Rapidamente, vieram os cardápios de capa de couro com uma cara meio usada, com várias páginas. O Silas estava a fim de tomar uma cerveja diferente e como o restaurante serve comida alemã (apesar de ter sido fundado por um austríaco), pediu referências para o garçom. Ele não sabia informar nada a respeito. Também não se preocupou em pedir auxílio a alguém que soubesse. 

O barulho vindo de fora era tão desagradável, com aceleração dos ônibus que sobem pela rua, que mencionamos ao garçom. Ele não nos ofereceu uma troca de mesa, nem tampouco para fechar a janela. Nós é que nos levantamos e, antes que alguém pegasse a mesa do fundo, na parede oposta a que estávamos, fomos nos mudando. Assim, outro garçom passou a nos atender.  Ali devia ser outra praça, embora o restaurante seja bem pequeno. O salão tem cerca de 14 mesas apenas. 

Enxoval - Louça branca básica, toalhas brancas com cobre-manchas bege. Mise en place também básico. Tudo limpo e asseado. 




Bebida/comida Por conta própria, sem ajuda do garçom, escolhi uma água tônica e meu marido uma cerveja Eisenbahn, pilsen, porque não havia uma pale ale que a preferida dele. 

Quanto à comida, escolhemos pratos diferentes.  Eu fui no mais tradicional da casa, o filé Alpino, que segundo o site da casa, ganhou o prêmio Prato de Ouro da revista Istoé, em 1995, e o prêmio Paladar, do Estadão, em 2008. O prato do Silas foi uma filé coberto com cebolas. Para ambos foram acompanhava arroz branco e mais nada. 

Pedimos como guarnição uma porção de aspargos. Decepcionantes aspargos em conserva passados na manteiga nos foram servidos. 

Os pratos vieram em exatos 20 minutos após o pedido. Estavam quentes e saborosos. O filé alpino tem uma grande quantidade de queijo catupiry por cima de uma fatia de copa e um molho inglês onde o filé fica nadando. Os sabores se complementam até a terceira garfada. Depois, é preciso acompanhamento porque se torna um prato bem enjoativo. 

A mesma base de molho inglês veio no outro filé, que estava tão suculento e tinha o mesmo também do alpino, só que era coberto por cebolas. 

Comemos direitinho, mas eu não premiaria nenhum desses pratos, embora o serviço à mesa tenha sido feito dentro do padrão tradicional, como manda o restaurante. Fomos servidos à inglesa indireto, inclusive na reposição dos itens. Não foi usado gueridon* porque a mesa era para quatro e estávamos em dois, de modo que havia espaço sobrando para manter a comida sobre a mesa, mas não à nossa frente. 




Preço - Dado que só comemos o prato e os aspargos, não teve entrada, sobremesa, nem café e bebemos uma única cerveja e um refrigerante, a conta deu R$ 107, com a taxa de serviço, que, vamos combinar, não foi muito bom para o  dono do restaurante. O empregado pouco treinado não ofereceu bebida a contento, não sugeriu entrada, couvert ou sobremesa. Atendeu ao que foi pedido, só.  

Visite nossa cozinha - Tinha uma plaquinha, mas apesar dela, senti um paredão que constrangeu pedir para dar uma passeada no ambiente. Não dava pra pedir, seria invasivo, dá pra entender? 

Fico aqui pensando o que faz um restaurante que tem uma história, a Caverna Bugre foi fundada em 1950, portanto 64 anos, se deixar desse jeito. Talvez os donos estejam cansados, a grana curta e não haja mais uma motivação para reconstruir no dia-a-dia esse passado de sucesso. 

Foi uma experiência um pouco frustrante pra mim, porque eu queria que meus colegas tivessem uma boa impressão do lugar que eu sugeri, mas que também, desta vez, não me causou a melhor lembrança. 

A dica então é para o dono. Algumas poucas ações pontuais poderiam elevar o padrão novamente (não sei se já foi um restaurante cuidadoso antes) e seria de bom tom dar alguma graça ao lugar. Uma reforminha, uns quadros, alguma decoração fariam bem.  A localização é ruim por um lado, mas é muito boa como ponto. Deve ter muito médico das Clínicas que frequenta o lugar.  O barulho poderia ser resolvido com pouco esforço e algum investimento, nada absurdo. O cardápio revitalizado seria uma outra solução que tenderia a um bom resultado. Ah! E o site está desatualizado, pode melhorar bastante. 

Essa foi uma visita noturna. Talvez no almoço seja diferente, quem sabe melhor ou pior. 

Por enquanto, vale a comida, de vez em quando, e nada além. 

Boa semana. 


Serviço:

Caverna Bugre - Rua Teodoro Sampaio, 334 - tel. 11 3085-6984

*gueridon (fala-se guerridom) - mesa auxiliar sobre a qual o garçom prepara o prato para servir ao cliente