segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sobremesa de família - 2

Cheguei a ficar com saudade de escrever. Nos últimos três dias, por mais que eu tenha me esforçado, não tive como me sentar em frente ao computador e escrever para o blog. 

Primeiro porque estou providenciando tudo pra a viagem, como contei no texto Malas Prontas. Depois, eu inventei de, no sábado, juntar o jogo do Brasil contra o Chile com uma comemoração antecipada de aniversário aqui em casa. Foi uma delícia, mas, para receber pessoas é preciso providenciar coisas. No domingo, fui levar a Nina, minha gata, pra casa da minha mãe em Itu. Ela vai ficar lá durante a minha viagem, com a vovó (rsrs). Lá, dia 29 de junho, meu aniversário, com meus irmãos e sobrinhos, comemoramos com uma maravilhosa feijoada feita pela D. Neuza. Minha mãe não existe, é inventada, porque ela cozinha melhor que  a tia Anastácia do Sitio do Pica-pau Amarelo. 

Desta vez, a sobremesa foi o bolo de aniversário que ganhei da Bruna, minha amada sobrinha e afilhada. Não teve a dupla caçarola italiana e manjar branco. Mas como prometi na semana passada, hoje eu vou publicar a receita do manjar com calda de vinho tinto e ameixas. 

Particularmente, eu gosto mais de raspar a panela do manjar quando ele termina de sair do fogo, do que da sobremesa pronta. Coisa de disputa infantil entre irmãos. Desde que quem fazia o manjar era minha avó e depois a minha mãe, sempre houve uma concorrência para saber quem ficava com a panela ainda quente e as sobras deliciosas daquele mingau incrível. 


E a cena, invariavelmente, conta, até hoje, com a frase orgulhosa da minha mãe cozinheira, diminuindo o poder da alquimia que ela faz quando prepara a receita:

- Que bobagem brigar para raspar a panela,  é só um mingau de maisena!

Mas não é.

O manjar varia de tamanho conforme o número de pessoas que vai comer, mas nunca é pequeno porque tem que sobrar para aquele momento gula da tarde e, de preferência, para um dia ou dois depois quando o branco do doce já tem uma cor de rosa, já que ficou embebido um tempo na calda adocicada do vinho tinto. Fica ainda mais gostoso e, em geral, está bem gelado. Mais que no dia que é feito e servido.

Como falei de um casal de sobremesas - manjar e pudim - uma dica interessante para conhecer o paladar desses doces de uma maneira inusitada é colocá-los no mesmo prato e deixar que se mesclem ou se complementem. Neste caso não é heresia, só gordice familiar. Dá super certo. A calda do manjar enobrece o sabor do pudim, deixando-o mais leve já que a caçarola não é um doce com calda rala, mesmo sendo feita em assadeira caramelizada com açúcar derretido. O caramelo fica bem escurinho e denso. Não tem nada a ver com o pudim de leite condensado, só o formato.

De criança eu só comia o miolo do pudim, ou melhor, da caçarola italiana. A parte mais doce e molinha. Depois arrisquei comer as bordas mais escuras e durinhas que são a parte onde  o caramelo se une com a massa. Tempos depois, as ameixas no vinho me conduziram até o manjar. Hoje entendo o expressão "manjar dos deuses", porque como ambos. Muitas vezes, juntos. 

Na casa da minha avó havia um lugar, um quartinho de passagem da cozinha para a porta de dentro do banheiro, onde havia uma prateleira debaixo da janela na qual se guardavam as panelas. Quando a caçarola italiana saía do fogo, até que chegasse a hora de servir, o que podia acontecer no dia seguinte ao que tinha sido feita, ficava guardada ali. Aquele doce exalava um cheiro tão incrível que justificaria uma das crianças atacá-lo antes da hora. Não me lembro de ter acontecido nenhuma vez. Essa é a prova de que era uma casa com mais meninas que meninos, porque, quase sempre, os moleques são mais gulosos e endiabrados. Nós éramos quatro netos, mas só um menino. No fundo, a verdade é que fomos crianças bem comportadas e sempre soubemos ouvir "nãos".

A família continuou com mais mulheres que homens. Meus sobrinhos são cinco, mas só um rapaz. Dá até pra imaginar o quanto ele tem chance de abrir a boca, não? O mulherio fala que não para. Quando o Gabriel era pequeno, uma vez, atordoado com tanta falação, ordenou em alto e bom som um "cheeeeeeeega" e levou as mãozinhas às orelhas tentando não ouvir mais nada. Por um segundo houve silêncio. Não mais que um segundo, eu garanto!

Na cozinha da minha mãe, a gente fala muito. Conta causos, reflete sobre política, conta o enredo da novela ou divide o capítulo que a outra não assistiu. São longas e intermináveis conversas. Eu tenho esse enorme privilégio porque sempre fui a assistente mais frequente da minha mãe na cozinha.

Por isso, sei, graças a Deus, como ela faz o manjar. 


Manjar Branco

Ingredientes 

Massa do manjar
1 1/2 litro de leite
1 vidro de leite de coco
2 xícaras (chá) de açúcar
6 colheres (sopa) de amido de milho - bem cheias

Calda
1 1/2 xícara de vinho tinto
4 colheres (chá) de açúcar
água
ameixas pretas com caroço

Modo de fazer: 

Ponha o leite para ferver, acrescente o açúcar e o leite de coco. Quando levantar fervura, acrescente o amido de milho dissolvido numa pequena reserva do leite. Mexa sem parar. Quando começar a engrossar, continue mexendo para que não grude demais no fundo da panela. Serão cerca de 5 minutos para o cozimento da maisena. Desligue o forno e despeja numa forma de buraco molhada com ameixas distribuídas no fundo.  Deixe endurecer por cerca de 2 horas ou até esfriar. Desenforme no recipiente em que vai servir. Deve ser fundo o suficiente para que a calda que será colocada por cim não derrame. 
Para fazer a calda, junte todos os ingredientes numa leiteira e leve ao fogo, até dar ponto de calda. Depois de fria, derrame sobre o manjar. 

Dica: De preferência, deixe na geladeira e sirva no dia seguinte. 

Na sua casa deve ter uma comida que se repete por que é preferência geral, não tem? Eu gostaria de conhecer a receita e, até mais que isso, o segredo da tradição.  Por que você não me manda? Eu adoro as histórias de comida, em especial porque elas têm emoções contidas que as fazem ser muito mais que saborosas. São mágicas, têm o poder de abraçar a alma da gente e enternecer nossos corações. Para mim, são manifestações de amor puro, genuíno.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Malas prontas

Na semana que vem, quarta-feira, embarcamos de férias para a Holanda e Alemanha. 

Toda e qualquer viagem exigem planejamento, mesmo que seja uma preparação mental, interna. De você para você. É preciso abrir o coração para o que virá de novo, porque não há viagem sem novidade, sem situações diferentes às do dia-a-dia.  

O Silas e eu somos completamente viciados em viajar, mas nem assim deixamos de nos surpreender em cada nova empreitada que inventamos, seja num bate e volta para uma cidade próxima a São Paulo, uma aventura de fim de semana ou durante férias longas, como as que teremos agora em julho. 

Minha colega Lilian Liang, quando trabalhávamos juntas na revista Update da Amcham, lá no início do século, em 2001 e 2012, dizia que esse vício é o vírus inoculado por um bichinho chamado travel bug, ou o inseto da viagem. Se ele picar, bye, bye, você estará infectado para sempre! 

Até hoje na minha vida, conheci poucas pessoas que não gostam de viajar. Preferem o conforto do que é conhecido e amam a rotina. Meu pai era uma dessas pessoas. No entanto, numa certa ocasião, meu tio precisava buscar uma camionete que ele havia mandado colocar cabine dupla no sul do Brasil e chamou meu pai para acompanhá-lo. Eles ficaram viajando cerca de cinco dias, eu acho. Foi suficiente para meu pai nunca mais deixar de falar daquele acontecimento da vida dele. E os olhos brilhavam quando lembrava das estradas, das lindas gaúchas que ele viu num hotel em que ficaram e estavam hospedadas candidatas do concurso de miss Rio Grande do Sul. O travel bug não o picou. Meu pai não se tornou um viajante, mas ele foi definitivamente modificado por aquela experiência. Era como um sonho real ao qual ele podia recorrer sempre que queria se sentir feliz. 

Quando trabalhei na Sabesp em 2009, conheci um amigo queridíssimo, o Rodolfo. Ele é muito especial, uma das pessoas mais inteligentes que conheço, devo a ele muito do que sei sobre saneamento, sistemas de produção de água e tal. O Rodolfo odeia viajar.  Como o conheço e o amo, é um amigo e tanto, entendo e aceito os argumentos dele, mas, sinceramente, pra mim, é surpreendente que alguém não goste de ver e experimentar in loco culturas diferentes. É o jeito de cada um. Respeito. 

Como o assunto hoje é a preparação, especialmente para uma viagem de férias em outro país, há muito em que pensar e providenciar. Alguns dias atrás, falei do passaporte. Neste caso, um item indispensável. Mas longe de ser o único, como ele  muitas outras providências devem ser tomadas para que a viagem seja melhor aproveitada. A seguir, listo algumas providências que, caso você não tome, vai, no mínimo, ter prejuízos, pagar multas e se sentir  culpado em algum momento. 




- Documentos: vistos e  passaportes válidos
- Dinheiro: providencie o câmbio de moeda e cartões de crédito ou saques internacionais
- Passagens
- Seguro viagem
- Malas ou mochilas - devem ser adequadas ao tipo de viagem e à sua capacidade de carregar, bem como ao peso permitido pela companhia aérea
- Roupas adequadas aos programas que fará e ao clima do local
- Sapatos, idem às roupas
- Protetor solar!!!
- Necessárie (sabonete, shampoo, cremes, escova e creme dental)
- Primeiros socorros -  inclua comprimidos para dor de cabeça e para enjoo, nem sempre é possível comprar remédios como no Brasil, depende do seu país de destino
- Guias e informações sobre os lugares que vai visitar. Caso esteja numa excursão, você estará assistido nesse quesito. Do contrário, estudar o que fazer com antecedência poupa um tempo precioso da viagem 
- Roteiro - é bom para quem viaja e pode ser deixado com alguém da sua confiança, caso imprevistos ocorram e você precise ser acessado
- Máquina fotográfica
- Telefone celular - roaming internacional, ligue na operadora e pergunte tintim por tintim o que você tem que fazer, quanto vai pagar e aprenda como proceder antes de embarcar
- Operadora do cartão de crédito - informe a viagem para evitar que a operadora não libere alguma compra devido a mudança do perfil de compra. O seu cartão de crédito, muitas vezes, sabe mais do seu comportamento de compra do que você imagina!
- Reservas de hospedagens (ao menos no dia da chegada, se não fizer, vá preparado para ter algum stress)
- Se você tem  um bicho de estimação,  com quem ele vai ficar? Ou você vai levar? Que regras devem ser seguidas para que o animal possa ser transportado? 
- Suas contas mensais estão todas em débito automático? Caso não, como fará para pagar?
- Se é mulher, marcou depilação, manicure, cabeleireiro ou vai viajar de qualquer jeito e cuidar de fazer isso onde estiver? Os dias correm e as unhas e pelos crescem.
- Durante os dias da viagem, a sua casa vai ficar fechada? Quem vai cuidar das plantas? 
- Vai a casa de amigos? É delicado pensar em levar regalos para os seus anfitriões. 
- Pretende alugar carro ou bicicleta? É bom dar uma olhada na internet para conhecer as opções existentes e quanto custam
- Transporte para o aeroporto: taxi, carro (providencie estacionamento para o veículo, caso não tenha motorista), metrô e ônibus

Já tem muito o que providenciar só com esses itens, não?  Outras providências dependem, claro, de cada um. De qual é o seu trabalho e quantos dias tem de férias, por exemplo. 

Ah! Esqueci de sugerir: leve um livro para ler durante a viagem. Depois me conte o que aconteceu. 

Uma coisa que parece meio absurda e que ninguém gosta de pensar é que viagens têm risco, inclusive de morte. Deixar cópias de documentos, números e senhas em local que possam ser encontrados por alguém de confiança em casos extremos é uma decisão consciente. 

Enquanto escrevo o fim desse texto, já voltei várias vezes para acrescentar mais itens na lista. É melhor parar por aqui. 




A partir da semana que vem, devo escrever o blog com assuntos da viagem. Pode ser que em alguns dias não seja possível escrever. Mas vou me esforçar, já que, pra mim, isso aqui é mesmo uma grande viagem!!!

Um beijo, mande um cartão postal quando viajar! ihhhh que fora de moda! rsrs