domingo, 3 de agosto de 2014

Um dia de bike na Holanda, nem tão fácil como se pensa

O território holandês tem 27% , ou seja, pouco mais de um quarto de suas terras abaixo do nível do mar. Como isso é possível? 

As Holandas são duas, a do Norte e a do Sul, que, na verdade, são duas das províncias dos doze Países Baixos, embora comumente chamemos a todos os que lá nascem de holandeses sem atentar muito para o que achamos que seja um mero detalhe. Detalhes à parte, gigante é mesmo a nossa falta de informação, claro! A capital é Amsterdã e a sede do Governo fica em Haia (The Hague ou Den Haag).  Quem é natural desses lugares deveria ser chamado corretamente de neerlandês, mas para não gerar mais controvérsias continuemos a lembrar disso quando nos referirmos aos holandeses. Ok! 

Cerca de 60% da população dos Países Baixos vive numa área formada por um grande delta, o delta do Reno e Mosa, boa parte do território existe devido a um sistema sofisticado de pôlderes e diques que preserva as cidades controlando a entrada das águas, evitando que fiquem submersas. Quase todo o território está a apenas um metro acima do nível do mar. São, portanto, terras muito planas. O ponto mais alto dos Países Baixos está a apenas 321 metros de altitude em relação ao mar. 

Muitas das cidades contam com lindos canais que são usados para navegação, tanto tranportando mercadorias, como há pessoas cujas residências são barcos. Eles também são usados para levar turistas, como eu, que se maravilham com a oportunidade de poder olhar as construções de cidades tão lindas e majestosas a partir de um ângulo bem diferente.  E claro, sonhar que um dia São Paulo possa ter navegação no Tietê e no Pinheiros também!

O fato de ser uma grande área plana faz com que as bicicletas sejam o mais querido meio de transporte na região e assim o ciclista é prioridade em relação, inclusive, ao pedestre, que dizer dos motorizados ônibus, bonde e do carro. Esse último quase não tem vez. 

Por isso tudo, decidimos que, como gostamos muito de bikes, parte da nossa viagem seria feita nesse tipo de veículo. 

Alugamos duas magrelas em Amsterdã ao preço inicial de 15 euros ao dia cada, mas como ficaríamos vários dias esse valor diminui facilitando a vida do ciclista. Também é preciso fazer um seguro, que não é caro.  Somados os valores, por três dias, duas pessoas, pagamos algo em torno de 80 euros. O preço de nos sentimos muito felizes e eu diria mais: completamente livres porque a sensação de liberdade que nos dá uma bicicleta, desde que somos crianças, é inigualável. Esse prazer só é possível pedalando e ele aumenta ambiciosamente quando você coloca uma mochila nas costas na qual estão apenas poucas peças de roupa e alguns víveres e toma rumo! Nenhum outro veículo proporciona essa leveza e facilidade, é felicidade! Quem anda de bicicleta sabe do que estou falando. 




Sendo assim, terreno todo plano e as bicicletas como companheiras, deixamos Amsterdã no domingo, 6/julho, de manhã, rumo a Leiden, uma cidade cerca de 35 quilômetros distante da capital. 

Fora o fato de que não tínhamos um mapa em mãos, tínhamos um GPS novinho em folha que o Silas ainda não sabia usar direito e no qual não estava registrado o nosso trajeto. Mas isso não é significativo, afinal. Nada de preocupação porque naquele país todos os caminhos contam com ciclovia. Não há lugar para onde se vá e não exista um lugar especial para que a bicicleta deslize. Isso para o holandês é algo comum. Tão comum quanto nós de São Paulo termos trânsito na capital. Além disso, nas estradinhas, beirando lindos e bucólicos canais, a cada 300 metros no máximo, há um mapa informando onde você está e com as direções para onde ir ou voltar. 



Fácil, não?  Nem tanto. 

A direção que escolhemos tinha um aeroporto no caminho: o Schipol. Um dos mais movimentados da Europa e o 9o. mais usado do mundo. Nos últimos dias, infelizmente, ouvi-se muito falar dele devido ao voo que decolou de Amsterdã rumo a Kuala Lumpur, na Malásia, e foi derrubado na Ucrânia, matando 298 pessoas. 

A extensão do Schipol é bem longa e, como não pode deixar de ser, é um grande descampado e venta muito! O passeio bucólico por campos verdes iria, portanto, demorar um pouco mais para começar. Só depois que vencêssemos grande parte do perímetro do aeroporto. Até então com um sol bem quente nas nossas cabeças. 





Isso demorou umas três horas inevitáveis.  Depois paramos, fizemos um piquenique no caminho e seguimos viagem. Para mim, não estava sendo muito divertido, não. Tenho que confessar que ficava sempre muito atrás do Silas, que é um pedalante recorrente, diferentemente de mim. Isso me fazia ter que acelerar para alcançá-lo. E ele, por sua vez, tinha que me esperar pedalando devagar como eu e depois precisava ler os mapas. Ele ama mapas! Não houve um só em todo o caminho que ele não tenha verificado. Se eu o alcançava, tinha que parar para saber se o caminho estava correto, mesmo que naquele momento eu estivesse no embalo. 

Contra mim ainda veio o vento. Soube depois de já ter feito os 54 km, que foi a distância percorrida nesse domingo a que me refiro, que pedalar contra o vento pode ser muito pior do que pedalar na subida. É mais pesado muitas vezes. 

Minhas pernas doíam muito! Eu sentia frio todo o tempo. Quando eu achava que nada poderia piorar porque o vento não desanimava em nos empurrar para o lado contrário ao que queríamos ir, começou a chover. Ui! Dureza, gente, dureza! Amar é isso. Vamos lá! 

No meio da jornada, quando a chuva começou, paramos e encontramos um oásis. Entramos numa propriedade que parecia um restaurante e era. Lá, fomos recebidos por uma mulher muito simpática que nos viu pedalando e logo nos acolheu. Ofereceu água e conversa vai, conversa vem, ela me disse que dava aulas de culinária ali mesmo. Eu contei a ela sobre o curso de Gastronomia e minha atual paixão e ela então me levou para conhecer sua linda cozinha, toda colorida, cheia de vida, de cheiros, de sabores. 





O nome dela é Susan. Conversamos um pouco sobre o privilégio que ela admitiu ter por viver ali e ter um restaurante e uma escola de culinária mediterrânea, numa estrutura tão agradável à beira de um canal maravilhoso onde estavam atracados barcos lindíssimos e obviamente muito caros. O lugar era simplesmente sensacional. Eu adorei a Susan. Falamos também dos queijos produzidos na Holanda e quão rica é a culinária brasileira. 

Um dedo de conversa depois, precisávamos voltar à ciclovia e seguir rumo a Leiden. 

Embora o caminho tenha tido vastos campos de trigo, de milho e de girassóis, além dos moinhos, marca registrada da Holanda, eu não consegui curtir. Esse foi um dia muito difícil da viagem pra mim. Quando chegamos a um hotel já em tempo de anoitecer (note-se que é verão na Europa e anoitece perto das 22 horas por lá nesse período do ano) numa cidade ao lado de Leiden, graças a uma informação incorreta que nos foi dada, eu queria tentar me secar, me esquentar, tomar um super dorflex para diminuir a dor nas pernas, comer algo e desmaiar na cama. 





No dia seguinte, haveria mais viagem de bicicleta. Deus haveria de me ajudar a conseguir vencer mais essa. E ajudou mesmo. Depois conto essa parte. A segunda-feira foi ensolarada, Leiden é uma cidade linda, linda, linda. A mais bonita que visitei na Europa nessa viagem. 

À parte, preciso contar brevemente o episódio da chegada na cidade no domingo no fim da tarde. Na Europa, especialmente em cidades pequenas, domingo não é dia de trabalho. As lojas, graças a Deus, não estão todas abertas. São respeitados o descanso e o lazer das pessoas no domingão. Então, como além disso ainda estava chovendo, não havia pessoas nas ruas para perguntarmos sobre uma hospedagem. Foi esse o motivo de entrarmos completamente molhados num café todo chique repleto de senhoras finas tomando o chá das cinco em belas xícaras cheias de design. Todas - digo, todas mesmo! - as pessoas se viraram para nós. Parecia cena de novela, mas éramos extraterrestres enxarcados entrando num recinto inapropriado. Que vexame! Agora dá até pra rir, mas na hora... vou te contar! Teve mais um episódio além desse, mas esse foi o pior. 

Enfim, conseguimos chegar num hotel Ibis, ao lado de um MacDonald's, que o Silas nem viu, tamanha era a pressa de sairmos da chuva. Ali nos instalamos. Nessa noite, eu tomei uma sopinha de tomates, muito comum na região. Foi gostoso!

Como eu estava com o Silas, valeu a pena! Para dizer a verdade, apesar de tudo, eu faria de novo! 

Por isso é que embora nem tão fácil como se pensa, um dia de bike é sempre memorável na Holanda.

sábado, 2 de agosto de 2014

A diferença entre o muro e a cerca

Viajar é uma das melhores decisões que alguém pode tomar na vida, eu não tenho dúvida alguma quanto a isso. Inclusive, como diz a Renata, criamos um mantra, o Silas e eu: "Para que precisamos de dinheiro? Para viajar!"

Mas eu que não deixo passar muita coisa sem refletir um pouco a respeito fico aqui pensando em porquê é assim tão importante para nós (e acredito que para as pessoas meio normais, como nós, rsrs) essa condição efêmera de viajantes. O que nos oferece de verdade o período em que estamos na viagem? Por que essa sensação é tão prazerosa?

Para mim, são tantos benefícios que nem consigo elencar o que não é válido num passeio por terras distantes, mesmo que elas nem sejam tantas milhas distantes assim. Entre as benesses, a oportunidade de comparar sem preconceito é a que talvez mais me encante.

Nessa longa viagem de férias que fizemos passando pela Holanda e a Alemanha, minha principal observação frente às diferenças culturais foi o que significa um muro se comparado a uma cerca.

Quando eu era criança, na casa das minhas avós, o que dividia o quintal de uma casa do de outra era uma cerca. Pra lá da cerca era a casa da dona Landa e pra cá da cerca do Seu Aldemir. Do outro lado, a Dona Maria Stuque e ao fundo, eu não me lembro, mas também tinha cerca.  Na casa da outra avó, a dona Zilda tinha um quintalzão que a gente via pelo muro baixo que depois aumentou, ficou alto porque ela tinha cachorro e minha avó galinhas. Mas púnhamos uma escada e conversávamos com o nosso amigo Alexandre pelo muro. Todo mundo sabia quem era quem e quando aparecia alguém diferente também todo mundo sabia. 

Os muros foram crescendo conforme foi aumentando a violência. Quando os ladrões de galinhas deixaram de ser meninos levados e passaram a ser assaltantes com armas em punho e a fim de fazer uma grande rapa na casa dos que não se protegem com altas grades, muros imensos com cacos de vidro que os cobrem, cercas elétricas e sistemas de segurança com câmeras por todos os lados, deixando o Big Brother parecendo uma brincadeira engraçadinha. 

Os muros cresceram porque a insegurança aumentou, o consumo demasiado gerou distâncias sociais abissais e muita revolta. Quem não tem acha que pode ter se apropriando do que é do outro. Quem tem quer cada vez mais, acumula e não divide. Acha que deve ser servido pelo que não tem e que as coisas não devem mudar. As diferenças sociais se aprofundam e para os que têm deve ser assim mesmo. "As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se não é você que está nessa prisão". 

Em países como a Alemanha e a Holanda, as diferenças sociais são menores. Os que têm menos, têm o suficiente, não são miseráveis. As pessoas trabalham, têm suas casas com jardins e cerquinhas que só ilustram a paisagem para que pareçam um desenho infantil feito em papel sulfite bem colorido. 

Andamos de bike por um trecho não muito longo no interior da Holanda e não vimos muros, só cercas bonitinhas ou nem isso. Foi igual quando vimos as cidades pelas janelas dos trens. Assim como nas cidades em que estivemos na área urbana. Na Alemanha, percorremos de carro, durante uma semana, boa parte do sul do país. Não há muros dividindo as propriedades, quando muito, há cercas. 





Antes de falar das incríveis belezas construídas pelos germânicos, tão organizados que são, quanto à infraestrutura de transporte, as rodovias, as ciclovias, os portos, a rede elétrica que não tem cabos aparentes nas áreas urbanas, os grandes reservatórios de água para garantir o abastecimento das cidades, queria falar da principal sensação que tive enquanto viajei pelos dois países. Eu senti que lá há segurança. De modo que as cercas não foram substituídas por muros. 

Seus olhos agradecem. A paisagem aparece imensamente porque desbundam extensas áreas verdes onde pastam lindas vacas leiteiras, campos de trigo de perder de vista. Nas casas com jardins quase sempre bem cuidados e floridos também há grandes janelas para aproveitar a luz do sol e nelas estão à mostra floreiras muito coloridas. 





Mais que seus olhos, o seu coração se sente mais tranquilo porque em lugares nos quais os muros não são necessários é quase óbvio que há segurança.

Como disse no início, comparar sem preconceito, e também sem inveja, é uma das oportunidades que as viagens nos dão.  É preciso um certo controle e muito discernimento para evitar dizer que um lugar é melhor que outro, apenas porque para comparar não é preciso julgar. 

Para mim, a diferença entre o muro e a cerca é a escolha que política e socialmente fazemos todos os dias em cada atitude que temos. 

Desejo a todos os meus amados leitores de quem eu estava muito saudosa, muitas viagens! Todas as que forem possíveis e, claro, que sempre possam voltar pra casa. Eu adoro voltar!