domingo, 7 de setembro de 2014

Um baú de relíquias

Sem querer, em busca de uma caixa com copos ou utensílios herdados que deixei na casa da minha mãe, encontrei um tesouro. Uma caixa de madeira antiga que veio junto com uma máquina de costura da Vigorelli estava guardada num armário no quartinho do quintal. Eu já tinha visto essa caixa muitas vezes, mas por algum motivo, somente hoje resolvi dar uma espiada no que ela continha. 

Que surpresa feliz! 

Assim que abri emcontrei vários papeis amarelados pelo tempo, dobrados, meio amassados, nos quais eu conseguia ver uma ou várias caligrafias, algumas mais rebuscadas e cuidadosas, outras nem tanto, feitas um pouco na correria, além de recortes de jornais e revistas já um tanto corroídos pelo tempo e pelo arquivamento sem o devido cuidado: uma caixa de receitas! 



Coincidência ou sincronia - Ainda ontem à noite, enquanto jantávamos na casa da minha mãe, ela, a Cris, a Giovana, o Silas e eu, comentávamos sobre a receita do Bolo Flor de Maio. Lembrávamos "de cabeça" o que ia no preparo do bolo, cada uma de nós (minha irmã Cris, minha mãe e eu, que tivemos contato direto com o bolo por anos) com uma versão diferente. Eu tenho uma receita e, para cada uma delas, a versão era um pouco diferente, com manteiga, com óleo, com os dois juntos, enfim, aquilo que já sabemos sobre a culinária de família. Sempre cheia de variações e vida própria. 

Não é que o primeiro papelzinho que eu desdobrei esta manhã tinha a receita do bolo Flor de Maio? E o que é mais interessante, sem margarina, sem óleo, mas feito com manteiga e banha! E o fermento tem outra medida, são três colherinhas de fermento royal ou 1 colherinha de bicarbonato. 


Eu não podia ficar mais entusiasmada com o que encontrei porque é um verdadeiro tesouro. Não importa o que contenham as receitas, elas são a história pura e verdadeira da minha família, uma família de muitas mulheres, mais do que homens, que, pelo que consigo julgar de imediato e guardo na memória, sempre gostaram de cozinhar. 

Entre as delicadas folhas manuscritas, encontro letras feitas certamente pela tia Dionisia, pela tia Matilde, algumas assinadas, outras possivelmente feitas por algumas das crianças da época que ainda guardam como registro a tentativa de ostentar uma caligrafia que não fosse infantil. Isso é lindo! Eu fiquei e ainda estou muito emocionada. 

Segundo minha mãe ao ver parte de um caderninho com vários preparos anotados de forma muito cuidadosa, mudando inclusive as cores da caneta, deve ter sido Matilde quem escreveu e enviou para minha avó Angelina no sítio. Minha avó não sabia escrever, mas conseguia ler algumas coisas e eu sei que ela gostava muito de receitas. 

Algumas dessas receitas estão datadas o que me faz ter certeza que foram escritas na década de 30 do século passado. As "chícaras" ainda não se grafavam com x e açúcar era assucar, escrito  com ss. Nessas folhinhas rabiscadas, algumas receitas exclusivas transmitidas entre irmãs outras copiadas de algum livro de receitas da época. Algumas páginas trazem 4 ou 5 preparos de bolos e há também as que, possivelmente, foram anotadas num programa de rádio e depois de televisão. 

Desde que me conheço por gente, na minha casa sempre vimos programas de culinária e as mulheres corriam para anotar os ingredientes e o modo de fazer enquanto a Xênia, a Maria Tereza ou outra apresentadora que não me lembro acompanhavam cozinheiras como Ofélia e Etti Frazer dando espetáculo nos programas femininos. Fora isso, havia um encarte semanal do Estadão, o Suplemento Feminino, que era colecionado por causa, principalmente, das receitas que vinham com fotos ou ilustrações passo a passo sobre como fazer. 

Outra incrível constatação do meu achado foram algumas páginas retiradas da revista Cruzeiro em 1950. As receitas eram publicadas na penúltima página e a última trazia Rachel de Queiroz respondendo cartas de leitores ou escrevendo sobre turismo. 

Para meu deleite, essa página traz o expediente da revista. A presidente era Amélia Withaker Gondim de Oliveira e o diretor secretário ninguém menos que Austregésilo de Athayde, que em 1952, ganhou um prêmio da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, por sua destacada atividade jornalística

Diante dessa cápsula do tempo, em alguns meros segundos eu pude supor e imaginar histórias, relembrar rostos, vozes e cheiros da minha infância ou do que eu penso que ela pode ter sido, uma vez que a gente reconstroi memórias de muitas formas, consegui ainda visualizar redações de jornais no passado, imaginar gente nas casas recebendo a revista Cruzeiro ou escrevendo cartas para a colunista dona Rachel de Queiroz, que na época não tinha mais do que a minha idade atual. 

Vendo uma página da revista Cruzeiro, definitivamente, vejo que é muita pretensão se achar original nos dias de hoje. Tudo já foi inventado. A gente podia era copiar de um jeito bem feito, mas, muitas vezes, nem isso faz. A revista era muito bem feita! 

Só por curiosidade, tem uma folha arrancada da revista de 28 de junho de 1958. Na página da frente, vem o início de uma receita de bolo de leite de coco que continua na página seguinte, mas é intercalado por uma publicidade de aspirador de pó da Walita e o texto do anúncio é Leve como uma vassoura! Bom, não? 




Muitas ideias estão agora passando pela minha cabeça sobre como tratar todo esse material tão rico, tão simpático e cheio de emoções contidas em receitas. Sem dúvida, ganhei o dia! 

Bom dia da Independência. Hoje é 7 de setembro de 2014. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Salmão com gergelim do restaurante Athenas

Eu trabalhei nos últimos quatro anos num prédio na esquina das ruas Bela Cintra e Antonio Carlos, no Edificio Cidade III. Era lá que ficava a Secretaria de Saneamento do Estado de São Paulo, que, primeiro era também de Energia e depois deixou de ser e passou a cuidar de Recursos Hídricos. 

Para mim, essa é uma localização muito privilegiada na cidade de São Paulo porque está na região da Paulista, no quadrilátero entre a Rua Augusta e a Rua da Consolação. Fácil para chegar de metrô, de ônibus e, no meu caso, também de bicicleta ou a pé. Tem uma estação dessas do Bike Sampa, Itaú, bem perto dali. Nos últimos dias em que trabalhei já fazia uso das bicicletas, especialmente, para voltar pra casa. Confesso que acho um luxo poder contar com esse tipo de serviço agora em São Paulo. Sou fã! 

Entre os benefícios da localização, estão as lojinhas (tem de tudo por ali) e os restaurantes. Alguns não muito convidativos, do tipo engordurado ou pé-sujo, outros um tanto caros para o dia-a-dia, mas várias opções de bom padrão com preços pagáveis, ainda mais se você tem um vale-alimentação. 

Uma dessas boas opções é o Restaurante Athenas, no número 460 da rua Antonio Carlos. Existem outros dois Athenas, também na mesma rua, só que um na esquina da Augusta, mais badalado e com opções de empratados e lanches e outro ao lado da escola de idiomas Seven. Nesse último, eu nunca fui, mas deve seguir o exemplo dos demais e ter boa comida. 

Esse a que me refiro, fica num sobradinho muito charmoso de paredes em branco e azul clarinho em que os batentes das portas e as janelas são azuis também,  só que mais fortes. Se você abstrair um pouco, pode se sentir numa espécie de bistrô. Nem sempre dá para abstrair porque o restaurante vive cheio e o sistema é buffet em que o próprio cliente se serve e depois pesa o prato. 

O valor cobrado pelo quilo da comida é de R$ 49, o que não o faz um dos mais baratos da região, mas a comida é realmente boa. Além disso, você tem como prever o que vai comer porque não há grandes variações nos pratos que são servidos. 

O buffet de saladas tem sempre as mesmas opções, mas os ingredientes são sempre muito frescos, assim como são os molhos.  Os cortes são bem feitos e a comida fica bem refrigerada no local em que é servida. Eu costumo diferenciar os restaurantes por quilo entre os que têm palmito, champignon e kani, dos que não têm. Os primeiros são mais caros em geral, mas também mais cuidadosos na maioria das vezes. O Athenas está na primeira categoria. 

As poucas variações que ocorrem está na mesa de pratos quentes, mas é muito provável que você encontre lula, mussaká, cordeiro com batatas, salmão grelhado, kafta, berinjela recheada e bacalhau ao molho.  

No terceiro buffet, você pode se servir de grelhados diversos como linguiças, picanha, alcatra e logo ali ao lado de uma torta de espinafre deliciosa.  

Na hora de pesar o prato, você já escolhe o que vai beber. Tem vinho da casa e uma ou outra opção de taça de branco e tinto, quase sempre de preço baixo, mas que nem por isso é vinho doce de mesa. Há quase sempre uma opção de vinho chileno que para um almoço diário não ofende ninguém.  Nesse mesmo local, podem ser pedidos sucos, cujas variações são interessantes, mesclando por exemplo hortelã e gengibre com as frutas. 


Toda a descrição desse restaurante é apenas para que eu conte sobre uma delícia que eles servem: salmão em pedaços empanado em gergelim. Servido na mesa de saladas, esses tenros pedaços de alegria podem ser acompanhados de um molho escuro, que descobri se tratar de um molho teriaki. 

O salmão é empanado no gergelim branco e preto e em seguida grelhado. Fica macio por dentro  e crocante por fora, uma explosão de sabor. Quando acompanhado do teriaki, que é feito de aceto balsâmico, açúcar e mel, fica ainda mais gostoso. 

Houve dias em que fui ao Athenas exclusivamente por causa do salmão com gergelim. Coisa que não é rara no meu caso, porque quando gosto de uma comida, volto ao lugar sempre que posso para comer. Mas se levando em conta que os pequenos pedaços de salmão ficam numa pequena travessa junto das saladas,  ele podia nem ter sido notado. Do meu ponto de vista, deveria ter um altar de destaque, salvo o exagero, claro!




Anteontem, por ocasião do aniversário da Meire, estive no Athenas, em companhia dela e da Clarice. Fomos comemorar já que não pude ir à festa surpresa na noite anterior. Foi, como sempre, uma delícia, tanto a companhia quanto a comida. 

Que eu saiba, o tal salmão, não existe no Restaurante Athenas que fica na esquina da Rua Augusta, então, se quiser provar, vai ter que encarar um lugar por quilo. Esse, eu digo, vale a pena. 

Saiu a mega-sena acumulada? Eu não posso estar milionária, não joguei! Beijos aos queridos leitores. 

Serviço

Athenas Restaurante

Rua Antonio Carlos, 460 - São Paulo