sábado, 29 de novembro de 2014

A Graça da Vila das Meninas

Sempre achando motivos para comemorar, ontem, sexta-feira, 28/novembro, o Silas me convidou para jantar no restaurante Vila das Meninas já que o Blog da Gavioli atingiu 10 mil visualizações! Além disso, a semana foi exaustiva, pesada de afazeres, todos cumpridos, mas depois dos quais tínhamos mesmo que relaxar um pouco. 

A ideia do Vila das Meninas rolou porque a Graça, sommelier da casa, é aluna do Silas, no curso de Direito da Unip. Naquelas de conversa vai, conversa vem, ela comentou com ele sobre o restaurante e a função que tem na estrutura. Na curiosidade e também para prestigiar a aluna, combinamos de nos encontrar lá para jantar, sem fazer reservas (tolinhos e desavisados) às 22 horas, já que antes eu fiz as duas últimas provas do semestre na faculdade. 

- tags: crítica gastronômica, restaurantes

Imagine o seguinte: você chega de carro numa rua cuja esquina abriga o Pirajá, um dos bares mais barulhentos da cidade, não porque tenha som alto, mas porque as pessoas bebem muito, falam alto demais, gargalham e devido à forte alegria alcoolica invadem a calçada e até mesmo a rua. Não há um só lugar para estacionar. Você tem que dar duas, três voltas e, com sorte, vai parar a uns 150 metros do seu destino. Aí, desce do carro, caminha meio quarteirão procurando pelo número 139 e encontra um corredorzinho. Passou da entrada, deu dois ou três passos, e toda balbúrdia e confusão ficam lá de fora. É quase como adentrar o portão do paraíso ou avistar um oásis urbano logo adiante.

Da entrada estreita por um corredor coberto de flores, passando pelo jardim-quintal requintado com direito a delicadas mesinhas de madeira e ferro debaixo da mangueira, mais um tanquinho de pedras e a meia iluminação cheia de charme e elegância, até a porta de entrada de madeira e vidro é tudo bem cuidado e harmonioso. 

Assim que passamos a porta  fomos vistos pela Graça. Ato contínuo ela veio imediatamente ao nosso encontro. Nunca fui tão bem recebida num restaurante. A recepção não era bem pra mim, era para o Silas, mas recebi por extensão todo o carinho dela. 

O espaço é todo bem pensado porque não parece que foi pensado, é natural se sentir bem ali. A decoração mistura elementos rústicos e modernos com perfeita adequação. Você se senta numa confortável poltrona art deco recoberta com tecido colorido, olha para uma parede descascada de propósito para por à mostra os tijolos da construção antiga, avista um balcão de madeira de demolição, um lustre antigo repaginado com cores, mas tudo é moderno, clean, elegante. Pé direito alto, portas e janelas de madeira e vidro, iluminação indireta saída da distante tinta vermelha do teto ou da parede negra,  e um quadro que só consigo classificar como arte novaiorquina (não sei porquê)... É fácil querer morar ali. 

O vinho ficou por conta da escolha da Graça, que é uma graça. A Graça da Vila das Meninas. Ela é da Paraíba e pra lá pretende voltar em breve. Já tem até data marcada. Dia 21 de dezembro é o dia de partir, voltar para o lar. Foi bom ter estado em São Paulo, para ela e para nós. Para mim, por esse breve encontro, tão delicado, cheio de sabores e sutilezas, declarações de admiração e afeto pelo professor Silas. 

Comemos bem. Primeiro uma entradinha de pasteis de angu servidos com geleia de pimenta. Depois, de 14 pratos do cardapio, optamos por camarão servido no coco e peixe (um robalo) com mollho de banana. Ótimas escolhas. 

Os pratos, talheres e toda indumentária usada no serviço de mesa tinha a sofisticação do que é simples quando bem combinado e com qualidade. 

O cardápio é um livro lúdico, entremeado de informações sobre comidas e pratos com valores que no fim da sua estada por ali você vai pagar. Mas o que importa e agrada nele são mesmo os dizeres, impressões, as liberdades poéticas. Um jeito de comunicar afeição numa peça inesperada que poderia ser fria e meramente informativa. 

Tivemos a honra de visitar a cozinha e ser apresentados ao chef Paulo. Mas diz o bom senso que a visita deve ser breve para que não se atrapalhem os que estão na labuta, suando ao lidar com as panelas. Foi breve, mas sensorial o suficiente essa ida à área da cozinha. 

Perdoe-me a Graça não render linhas de elogios merecidos ao seu conhecimento na arte da enologia.  Poderia também fazer aqui uma avaliação crítica de uma visita técnica, mas é que estou muito encantada para criticar tecnicamente qualquer pouca coisa como um ar condicionado muito frio para minha sinusite. 
Foto do site da Vila das Meninas


Quando entra num lugar como esse a gente fica pensando o que faz dele um empreendimento de sucesso...

Estou convencida que muito trabalho, investimento, tempo, dedicação, tudo que contribui imensamente na fórmula do dar certo. Mas o que pega de verdade é o encantamento que causa. Arrisco dizer num trocadilho planejado que tem a ver com as graças da Vila das Meninas: as que podemos ver na decoração, no ambiente, na comida e na bebida e, mais que isso, também aquelas que, só às vezes, afortunadamente, encontramos pela vida, como a Graça, aluna do Silas. 



Vá conhecer! Se puder, antes de dia 21 de dezembro. Ou vá depois, acho que vai gostar de qualquer maneira.

Bom sábado. 


Serviço

Vila das Meninas
Tel. 11 2364 2122
Rua Padre Carvalho, 139 - Pinheiros - São Paulo - SP

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O segredo do franguinho de panela

Domingo, um dia depois do feriado sem sair de São Paulo, ontem foi um dia de almoço de família. Desta vez, na casa da minha sogra. 

Felizmente, quatro dos cinco filhos da dona Dora, estavam na cidade e isso já é motivo o bastante para pensar num almoço para reunir todo mundo, ainda mais que dois dos netos também estavam por perto. Foi uma tarde de muita conversa, risadas e, como não podia deixar de ser, de comida boa.  Simplesmente porque a minha sogra cozinha bem. Além do que ela faz um frango na panela, que ninguém consegue copiar. Ninguém! Olha que não foi só um ou outro que tentou se igualar, mas a receita (que não tem receita) ela conta, sem problemas, só que o resultado sai diferente. 

A Clara, sua neta, diz que ela esconde uma carta na manga, que não conta o pulo do gato, mas no fundo todos sabemos que não é isso. É o jeito de fazer, o capricho, o amor, a certeza de que para aquele preparo haverá bocas salivando e estômagos famintos loucos para saborear aquele temperinho... 

Como ainda mais que nos outros almoços, o franguinho de ontem estava espetacular, um show, os ingredientes e o modo de fazer foram assunto para uma boa parte da conversa da tarde, cujos temas embora variados, volta e meia, iam para comida. O que é inevitável quando juntamos a dona Dora, o Warté, meu cunhado, marido da Irene, e eu. 

Qual é o segredo do franguinho de panela? 

Ingredientes do frango de panela da dona Dora

12 sobrecoxas de frango

2 peitos de frango picados com osso
óleo, o quanto baste (de preferência de milho, algodão ou canola)
cebola o quanto baste
alho (um bom tanto)
sal 
pimenta do reino (não muita)
água fervente

Modo de fazer
Aqueça uma panela grande (ou duas se não tiver uma panela grande o suficiente para todo o frango) e nela coloque os pedaços de frango já limpos e sem a pele. Deixe-os selar longamente. Quando estiverem quase grudando na panela, já bem caramelizados, junte o sal, o alho amassado, a cebola e o óleo. Não tema usar óleo nessa receita. Deixe fritar os temperos e que se juntem ao frango. Acrescente água fervendo até cobrir os pedaços todos. Tampe a panela e deixe cozinhar em fogo alto até secar a água, cheirar bem e dar uma boa queimadinha no fundo da panela. Isso vai levar mais de um hora.  

É isso! Tem segredo? 

O Warté chegou à conclusão que esse frango de panela fica bom porque tem bastante óleo. O que não significa que tudo será incorporado ao frango ou servido à mesa. Quando a carne estiver bem macia, dourada e já se tiver formado o molho roti, o óleo será descartado. 

Eu, de minha parte, acredito numa alquimia, fruto da experiência de quem já repetiu esse preparo milhares de vezes. Isso não tem como ensinar. É a mão do cozinheiro. Técnica, claro que tem. Mas é empírica e individual, personificada! Um contrassenso? Nem de longe! Cada um tem um jeito de fazer. Tem coisa que não dá pra explicar, o fato é que fica bom. Eu repeti duas vezes, fora que fui autorizada a passar um pãozinho no fundo da panela para pegar o grudadinho. Só de lembrar, encheu minha boca d'água. 

Gosto bastante do meu frango de panela. Gosto também imensamente do que a minha mãe faz, embora eu tenha preferência quando ela faz do tipo galinhada, cozinhando o arroz junto.  Fica um pouco empapado e com sabor de mãe, é tudo! Mas o franguinho da sogra, ah! esse não tem mesmo igual. 

Que delícia! 

Bom inicio de semana, com feriado para dar uma descanso. 

Um beijão. 

À esquerda, o frango de panela. Á direita, rondele.

Saladas. Destaque para a de flores do jardim da Irene e do Warté

Também tinha carne na mesa, pra mim, sem chance já que tinha o frango!