segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Em Defesa da Comida

Nessas férias, eu conclui a leitura de um livro indispensável para quem quer trabalhar com alimentação e precisa entender o que significa qualidade quando o assunto é comida.


Em seu segundo livro, Em Defesa da Comida - um manifesto, Michael Pollan, jornalista americano, trata do drama que vivemos nos últimos 50 anos, período que, gradativa e premeditadamente, a comida de verdade foi sendo substituída por nutrientes, que nem sabemos direito o que são. 

Deixamos de comer frutas, verduras e legumes, plantados e colhidos no quintal;  ovos de aves criadas num galinheiro conhecido e carnes de animais cuja engorda não foi feita apenas com ração, mas com restos de alimentos, para nos alimentarmos de cereais em caixinha como Sucrilhos; molho de tomate enlatado, presunto cozido e fatiado ou apresuntado, leite e queijos pasteurizados e que passaram pelo processo UHT. Tudo com muito conservante, corante, acidulante e outros mais, inclusive, reposição de nutrientes. 

Passamos a contar as calorias, verificamos o quanto de sódio e glicose consta na tabela nutricional da embalagem e, dificilmente, somos capazes de pronunciar as palavras escritas nas caixinhas e saquinhos em letras bem miúdas, mas obrigatórias por lei, que existem com o intuito de "preservar" a saúde dos cidadãos. Informações técnicas, dados, números, percentagens e nomes científicos que ninguém entende.

Um bom exemplo para ilustrar o que acontece hoje em dia é o seguinte. Se você produz um queijo ou manteiga em casa do leite da sua fazenda ou sítio e vende para os vizinhos, está praticando economia informal. Não tem selo de procedência e qualidade. Nem segue os padrões rígidos de controle de qualidade exigidos por lei. Isso faz de você quase um criminoso, uma vez que pode contaminar irreparavelmente a saúde da sua comadre ou do seu compadre da casa em frente à sua.

No entanto, se compra margarina vegetal ou óleo de soja, se consome cereais daqueles que garantem que no próximo verão você poderá sair de biquini sem medo de mostrar o corpinho, aparentemente, está fazendo um bem para si mesmo e para sua família. Isso porque a indústria de alimentos no mundo, segue todas regras para garantir a produção, a distribuição e, claro, dos nutrientes necessários para fazer toda a sua família muito saudável. 

Enquanto isso... cada vez mais pessoas, inclusive, crianças, são diagnosticadas com diabetes, altas taxas de colesterol ruim (LDL), triglicérides, gorduras no fígado, obesidade, e outras tantas doenças que não podemos taxativamente associar à alimentação, mas temos certa desconfiança que estão, sim, vinculadas ao que comemos. Exemplo: câncer e alzheimer. 

A gastronomia, meio sem querer, mas cada vez mais conscientemente, fala a língua da comida de verdade, e não apenas a dos nutrientes. Por princípio, ela é uma arte cujo resultado é a comida em si e o que está ao seu redor como a cultura, o ritual, o tempero regional, a diferenciação do paladar, e não apenas a nutrição. 

Grandes chefs prezam alimentos de boa procedência, os mais naturais e frescos, de preferência colhidos no dia em que vão pra panela. Como isso é cada vez mais difícil, criam alternativas. Prova disso são os alimentos orgânicos, tão requisitados pelos chefs da alta gastronomia. 

Se todos pudéssemos conhecer a procedência dos ingredientes, acompanhar a produção, trabalhar com ingredientes sazonais e, claro, ter preços razoáveis, nossa alimentação seria muito mais segura do que é hoje.  

Acontece que nos últimos anos, nossas vidas foram muito facilitadas pelos supermercados. Isso é a mais pura verdade! Entramos no estabelecimento, puxamos um carrinho e colhemos de tudo em embalagens já porcionadas, provenientes de produtores que desconhecemos completamente mas que estão garantidos pela marca industrial que reconhecemos e, o que é mais grave, confiamos de olhos fechados. 

Temos fé e certeza de que a nossa colheita feita nas gôndolas dos hipermercados, dos sacolões de grife e também aquelas que fazemos nas feiras livres é a melhor possível para nossa saúde. Diante do nosso cardápio de opções, é isso mesmo. Mas o que tem por detrás? 

Produtos muito atrativos nos são ofertados diariamente, como grandes tomates, bem vermelhos e firmes. Ovos gigantes e bem limpos, de granjas cujas galinhas recebem ração ininterruptamente, dia e noite, para que botem sem cessar até que sejam rendidas pela idade e virem ração de outros bichos, vêm em caixinhas especiais associados à imagem de apresentadores de TV. As mesmas celebridades que entram nas nossas casas todos os dias nos ensinando a fazer comida.   

Quem se sente no direito de achar que isso não é alimento de qualidade? 

Michael Pollan e os pesquisadores de alimentos que ele pesquisou para poder compilar as informações constantes no manifesto Em Defesa da Comida se arriscam a ter esse direito. 

É bem nítido que autor tem uma visão crítica à sociedade americana e à construção de suas políticas públicas que favoreceram as grandes indústrias. Mas não é preciso ser muito esperto para deduzir que essas políticas causam impacto direto no tipo de agricultura que países como o Brasil praticam. Grandes propriedades produtoras em larga escala de comodities exportáveis, como soja e milho. Depois de processados e industrializados, consequentemente, são distribuídos em todo o mundo por preços convidativos para o cidadão comum. 

Não sei se tudo ou só isso é suficiente para reduzir drasticamente a agricultura familiar, a diversidade de produtos, o rodízio da terra e a manutenção da vida no campo. Sei que uma lista de bens de consumo é a paga certa para toda essa destruição social.  Muitos bens de consumo cada vez mais uniformes provenientes de muito uso de tecnologia e defensivos agrícolas. 

Sem fazer apologias, praticar dogmas culinários e  avessa a qualquer tipo de extremismo quando se trata de comer, confesso que, no mínimo, fiquei mais ligada a partir dessa leitura. Mudou bastante a minha visão sobre o que escolher para levar boca adentro.

O apelo do consumo é muito forte, o que torna quase impossível abandonar de vez hábitos tão arraigados e facilidades tão à mão por preços tão camaradas. Isso nos faz comer muito e mal. Devíamos comer menos com mais qualidade.  Isso é o que prega também o movimento Slow Food. Dia desses trato disso por aqui. 

Embora eu já tenha passado a questionar muito o que como, ainda estou longe léguas de deixar de comer farinha branca, açúcar refinado, margarina, óleo de soja, de milho ou de canola... 

Livrar-se de vícios permitidos e que nos são vendidos sob o rótulo de "abra a felicidade", como o dos refrigerantes, ou deixar de por na lancheira de nossos pequenos os biscoitos vitaminados com carinhas de traquinagem e diversão, exigem decisão acirrada. Quem decide, enfrenta abstinência, o que não é fácil, e, mais que isso, toda uma sociedade muito contaminada pelo consumo. De uma hora para outra você pode ser visto como um indivíduo eco-chato extremista e radical! Tenha cuidado. Eu sei que tem coisa pior no mundo, mas os naturebas, muitas vezes, disputam pau a pau com os eco-chatos. Sabe do que estou falando?  Então se previna, mas tome uma atitude. 

Publicado em 2008, mas ainda muito pertinente e atual, Em Defesa da Comida, de Michael Pollan, é  uma boa chance para fazer pensar. Um livro bom para abrir os olhos  e ensinar o que significam, de fato, as letras miúdas e as palavras difíceis das embalagens. Não comemos nutrientes, comemos comida. 

A partir disso, estou até pensando em plantar uns legumes sem agrotóxicos no quintal da minha mãe lá em Itu. Se der certo, prometo que divido a experiência. 

No mais, que tal, tomar a decisão de ler o primeiro livro deste ano? Essa é uma boa sugestão. 

Depois desse o autor já lançou outros vários. 

Até mais. 

Serviço:

Título: Em defesa da comida - Ano 2008
Autor: Michael Pollan - tradutora: Adalgisa Campos da Silva
Editora Intrínseca
Preço médio: R$ 29,00

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Balanço de um mês

Lá se foi janeiro de 2015.

Cheio de novidades antigas, decisões retomadas, emoções de toda natureza. Já rolou tanta coisa que parece que foi um ano e não um mês.

Amigos se foram em despedidas breves de "logo nos encontraremos de novo".  Em outras,  não tão breves, que nos fazem acreditar que a vida é uma grande roda viva, cheia de encontros efêmeros, mesmo que eles tenham durado anos.

Janeiro de preparação para o ano todo, de dias quentes e com pouca chuva nesse "mais um" ano de estiagem preocupante aqui na região. Mês de propostas de trabalho não concretizadas, de contratos não assinados, de esbarrões em voltas ao passado, de uma pintura nova na lousa da minha cozinha, de pequenos consertos que levam anos para serem decididos e horas para serem realizados.

Teve um "grande dia", o de levar a Paula para o aeroporto, abrir a portinha da gaiola e deixá-la passarinho voar...

Testei novos preparos culinários. Mudei a cara do blog. Escrevi trechos ainda não publicados.  Encontrei amigos queridos e outros, desencontrei. Namorei bastante o Silas, vimos filmes bons e ruins no cinema e na TV, cozinhamos e comemos juntos, festejamos cinco anos juntos, mais que unidos, apaixonados.


Nos últimos três dias do mês, rolou uma super faxina no barracão do quintal da casa da minha avó Leonor e meu avó Agnelo, que hoje é da minha mãe. Há anos, qualquer que fosse a necessidade, depositávamos ali tudo o que não queríamos mais, mas tínhamos dó de jogar fora. Saldo de reformas feitas em diversas casas, minha, da Cris, do Júnior, da mudança dos meus pais do sobrado para casa da rosa no jardim, por lá ficaram louças de banheiros, pias de cozinha, armários, estantes, mesas, livros em caixas, pisos e azulejos em estoque para o caso de precisar de um conserto.

Mexer naquilo tudo, tão cheio de pó, de memórias e histórias, umas lembranças vivas, claras, brilhantes, outras meio embaçadas, até construídas, quem sabe, além de um trabalho braçal árduo, foi uma lição de como nos iludimos acreditando que ao guardar objetos podemos preservar o passado. São, sem dúvida, ícones que nos ajudam a acessar o que temos na gente, o que sentimos em relação à vida que tivemos. Mas é só isso! Se não tem carinho na gente, é só mais uma coisa para jogar fora.

Quando decidi fazer a limpeza, pedi para a Bruna me ajudar. Não poderia pensar em alguém mais apropriado para executar essa tarefa comigo. Foi ela quem, por fim, mais trabalhou para deixar tudo organizado.

Teve ainda a ajuda indispensável do Rafael e do Sr. Wilson. A água que a Giovana nos levou e a comidinha pronta da minha mãe nos intervalos.

Dispensamos uma caçamba inteira de lixo, móveis estragados, badulaques meio quebrados e em desuso há mais de vários anos. Preservamos o que entendemos que devia ser preservado: cadernos de recordação de quando entramos na escola, diários que registraram o cotidiano de vidas tão especiais para nós, ferramentas que nunca se estragam porque têm qualidade (já não se fazem ferramentas assim, agora são descartáveis). Reutilizamos coisas, categorizamos, limpamos e arrumamos o quanto foi possível.  Vamos ver quanto tempo dura a organização... rsrsrs Se for pouco é porque haverá gente usando o espaço e assim ele será novamente vivo, como foi quando o vô Nelo fazia vinho ali, quando a tia Neide morou ali por uns dias ou quando meu pai fez a arrumação dele junto com a minha mãe anos atrás.

Missão cumprida.

Voltei para São Paulo porque a Nina estava aqui sozinha, presa no apartamento, esperando companhia. Ter um gato é assim. Os bichanos não nos pedem nada, mas sabemos o que temos que fazer por eles.  Eles nos ensinam a amar de verdade.


E assim fevereiro começou. Não vejo a hora que o Silas chegue de viagem porque estou cheia de saudades.