terça-feira, 2 de junho de 2015

Crumble de banana


De vez em quando rola uma coisa comigo. Eu penso que quero fazer determinada comida que nunca fiz e até que não faça não tenho sossego. Foi assim com o tal do crumble.  

Eu já tinha comido essa sobremesa e me lembrava que era algo muito crocante, mas não tinha exatamente certeza de sua natureza, se era uma torta, uma farofa ou mesmo um recheio crocante. 

Uma das traduções da  palavra crumble (pronuncia-se crâmbou) é esmilhagar. No entanto, na minha interpretação do doce acho que é uma reconstrução do que está esfarelado, mantendo a crocância. Está ficando difícil? Acho que isso já é explicação demais. 


Crumble é um prato doce de origem britânica, feito de compota de frutas picadas cobertas com uma mistura de gordura,em geral, manteiga, farinha e açúcar, assado até que a cobertura fique crocante. Muitas vezes, é servido com creme, nata ou sorvete, como uma sobremesa substanciosa após uma refeição quente.   Fonte: Wikipedia

O negócio é o seguinte: crumble é uma sobremesa, fácil de fazer, rápida e que pode ser muito saudável. Anda na moda porque pode ser feita com farinha integral, aveia e açúcar mascavo, além de frutas diversas, o que, fora a manteiga, o faria uma sobremesa perfeitamente vegana. Mas tem a manteiga! 

No domingo à noite, eu estava no carro voltando pra casa e comecei a pesquisar no celular uma receita que eu gostasse de crumble. Você também tem isso? Pois eu, quando decido fazer determinado preparo, procuro e leio inúmeras receitas. Aí, escolho a que mais se parece com o meu jeito de lidar com a cozinha. Dificilmente assumo a primeira receita que encontro. Além disso, eu ainda faço adaptações. Sempre! Não existe a menor possibilidade de que eu siga à risca uma receita. Quase sempre dá certo. Deve ser por causa do instinto cozinheiro que eu já tenho comigo desde pequena. 

Nessas variadas receitas que encontrei, a ideia era quase sempre a mesma: uma fruta como base (banana, maçã, pera, manga) e uma farofinha feita com açúcar, manteiga e farinha de trigo. Forno ou frigideira aquecidos e pronto. 

Vamos à receita e o modo de fazer  que eu adotei e deu certo.  Ficou bem gostoso. 


Crumble de banana


foto: http://www.handpickedhotels.co.uk/


Ingredientes


Quase não sobrou pra foto!
6 bananas nanicas descascadas cortadas em rodelas de mais de um centímentro
1/2 colher de canela em pó
4 castanhas do pará cortadas em pedaços
30 gramas de uvas passas brancas sem sementes
1/2 xícara (chá) de açúcar mascavo
2/3 xícara de farinha de trigo
2/3 xícara de aveia em flocos
2 colheres (sopa) de manteiga sem sal gelada



Modo de preparar

Unte com manteiga uma forma refratária ou ramequins* (caso queira fazer porções individuais). Polvilhe a canela no fundo e distribua as rodelas de banana, as castanhas e as uvas passas sem sementes.  Em outra tigela, misture o açúcar, a farinha e a aveia e acrescente pedaços da manteiga gelada. Misture com as mãos, sem deixar que os pelotinhos de manteiga se desfaçam completamente. Transforme esses ingredientes numa farofa que será polvilhada sobre as bananas, escondendo-as por completo. 
Leve ao forno pré-aquecido em 200 graus por 30 minutos. 

*ramequins


Sirva quentinho com sorvete, com iogurte ou com creme, de preferência o creme azedo (sour cream). 


***

Eu nunca tinha feito, mas fiquei fã. Agora vai ser um tal de crumble de tudo quanto é fruta aqui em casa... Já estou aqui pensando como deve ficar bom com figo... E aí pode-se substituir a castanha do pará por pinhole. Também imaginei colocar um pouco de farinha de amêndoa junto da farinha de trigo e usar parte de farinha integral... Fiz mil viagens no doce. 

O fato é que o crumble pode salvar as bananas que quase estão se estragando na fruteira, assim como salvar você numa situação em que não tem nenhuma sobremesa e chega visita, mas tem alguma fruta dando sopa por ali. É só sentir a textura da fruta e pensar na adaptação necessária quanto à quantidade de açúcar e o tempo de forno.

Entende agora porque eu nunca sigo a receita ipsis litteris? Essa sou eu! 

A propósito: acho que colocar uma pimentinha no crumble pode dar um belo realce no sabor. 

Que tal tentar? Vai que dá certo...

Até amanhã. Tem feriado chegando aí... Pé na estrada ou um bom livro novo para fazer companhia, um friozinho e umas comidinhas gostosas. Que mais a gente quer da vida, hein?! Eu, nada! Ah! Acabo de ler na internet: o Blatter renunciou! 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Voltar de viagem


"Foi pra Portugal perdeu o lugar!"



É praticamente unânime que viajar é muito gostoso. A gente vê coisas novas, gente diferente, experimenta outros sabores, sente cheiros de viagem, faz compras, lembra dos amigos e da família em cada coisa que vê, ou seja, sente mais as coisas. Dá mais atenção. 

Eu só conheço uma pessoa que declaradamente detesta viajar, é o Rodolfo, meu amigo querido, que há tempos não vejo. Outras acabam declarando com atitudes que não curtem fazer uma mala e por o pé na estrada, mas ninguém gosta de confessar que não tem alma de viajante. Devo admitir que eu até admiro que tem a quietude de permanecer no local que nasceu por toda a vida. É que costumo admirar as características que eu não tenho de jeito nenhum, a quietude é uma leveza da alma, eu gostaria de me por quieta de vez em quando. Mas, para isso, pratico ioga e é isso aí. Não conseguiria mais. 

A Lilian Liang, uma colega de trabalho dos tempos de Amcham, bem definia as pessoas que gostam tanto de percorrer outros lugares. Ela dizia que essas pessoas haviam sido picadas ou mordidas pelo "travel bug". É, o bichinho que inocula na gente essa inquietação que nos faz, de tempos em tempos, e não pode ser muito tempo, querer novamente planejar um jeito de conhecer in loco uma nova cultura, um continente, uma pracinha de outra cidade. Deve ser mesmo uma doença incurável... como um vício que se não é alimentado faz a gente sofrer. 

Ontem mesmo vi isso no olhar da minha sogra, que também tem natureza viajante. Ela já foi a tantos lugares... Nos últimos tempos, não tem podido mais viajar, mas fica radiante com as notícias que trazemos, as descrições dos lugares e situações que vivemos. 

Mas o que eu queria mesmo era falar sobre voltar de viagem.  Ninguém lembra muito de falar sobre esse momento que a mim me é tão precioso e especial. Eu gosto de viajar porque gosto de voltar! 

Quando a gente vai religando a atenção para o país de origem, para nossa terra, naquele momento que a viagem vai chegando ao fim, sempre dá uma angústia. Mas, naquela hora que o avião aterrissa e, no meu caso, eu sinto o cheiro poluído de São Paulo de novo, ah! como me sinto bem! 

A mala vem cheia de roupas sujas embrulhando presentinhos que a gente se deu ou que trouxe para alguém de quem se lembrou em determinado momento, o passaporte tem novos carimbos, o corpo está exausto porque a gente viaja na dog's class pra poder viajar mais e os pés ficaram muitas horas dependurados o que causa um inchaço malfadado, a tintura do cabelo venceu, as unhas estão por fazer, a gente vai encontrar o gato que ficou sozinho numa carência de dar dó em casa, algumas contas venceram e fatos que você soube pelo notíciário de fato ocorreram no seu mundo real, mas, apesar disso tudo, é muito bom voltar pra casa. 

Tem gente que reclama, diz que voltar é péssimo. Pensando bem, acho que isso é só jogo de cena das pessoas. Não consigo, por mais que tente, acreditar que as pessoas cheguem tristes de uma viagem de férias. Ao contrário. Pensando bem, esse sentimento de retorno agrega um conjunto de sensações que não podem ser definidas com exclusividade porque é tudo misturado: a saudade do que a gente havia deixado antes de viajar e a que a gente sabe que vai sentir do que deixou no lugar que foi visitado, o senso de pertencimento a um local ou uma comunidade, a segurança do lar, o sentir-se valorizado quando alguém nos espera na chegada, a atenção que nos é dada com as lembranças e memórias que trazemos e são só nossas, mas que só valem a pena se forem compartilhadas... 

Falando nisso, não sei dizer quando isso começou, mas foi depois que o Silas comprou um projetor, isso eu tenho certeza, na minha casa, criamos, meio sem querer, um ritual de encontro de família logo depois da viagem de alguém. Enquanto ainda a pessoa está com tudo fresco na cabeça e quer contar como foi tudo. Reúnem-se todos os que podem vir/ir, e aí,  tem comilança e exibição de fotos, comentários mil, perguntas intermináveis e relatos detalhados do que foi importante para quem viajou, É uma coisa muito gostosa de viver. Não importa se quem viajou foi um ou outro, todos dão atenção ao que traz as novidades. Isso só pode rolar no retorno, não é? 

Lisboa - Vista do Bairro Alto



O Silas e eu fizemos uma viagem há alguns dias para Portugal. Foram lindos dias de sol, muita comida boa: pão, queijos, azeitonas, bacalhau, sardinhas, carapaus, pastéis de nata, doces de ovos, cerejas e ameixas; vinho nacional (em Portugal, só vinhos nacionais!), paisagens exuberantes, gente muito hospitaleira e simpática, experiências de fé, de amizade e imensa generosidade como a do amigo Eulálio e de sua família lusitana: dona Arminda, sua mãe, a Mena (irmã) e o Coelho (cunhado) e a linda Maria João, sua sobrinha e, por extensão de sua família, da Fernanda, uma amiga e vizinha da dona Arminda. 


Há um trecho de uma música de Amália Rodrigues que diz:  
Numa casa portuguesa fica bem, pão e vinho sobre a mesa. E se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente (...) 
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar uma existência singela... É só amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho a fumegar na tigela.(...)
É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!

Certamente, voltamos pra casa com uns quilinhos a mais, e não faríamos nada diferente do que fizemos para manter a silhueta. Isso eu posso garantir. 

Nos próximos dias, conto um pouco de tudo isso com mais detalhe. Faz parte do retorno. Eu gosto de voltar porque gosto de viajar! Ou será o contrário?