terça-feira, 26 de abril de 2016

Berinjela com gergelim


Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido,
 e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, 
mais que a morte, a que não tem limites.



Diferente de Fermina Daza, a musa de Juvenal Urbino e Florentino Ariza, no romance O Amor nos Tempos do Cólera, do saudoso Gabriel García Márquez, eu adoro berinjelas! Ela, não. Tinha náuseas. 

Uma das minhas melhores memórias do livro que lemos quase em conjunto, Fabíola e eu, à época da faculdade, é aquela que Fermina promete casamento a Florentino Ariza, desde que ele nunca a obrigue a comer berinjela.  Tão lindo... Atemporal. 

Berinjela (ou será beringela?) é um ingrediente de difícil grafia porque quase nunca lembramos se é com g ou com j.  Um dia aprendi com minha irmã (e minha professora de coisas que realmente importam como ler e dirigir automóvel) para nunca mais esquecer que o J é curvo como a berinjela por isso é a letra dela. Pronto! Não mais tive dúvida ao escrever. 

Costumo usar muita berinjela na minha cozinha. Se alguém que frequenta minha casa for registrar os pratos que são comumente encontrados por lá, seja como antepasto, entrada, prato principal ou guarnição, há de citar os preparos feitos com berinjela. 

Comumente faço ratatouille, é o jeito que mais gosto de comer berinjela, além do que é muito fácil de fazer, rende bastante e é versátil, digo, funciona em várias situações, tanto pode ser servido quente quanto frio, e pode ser feito na panela ou no forno.  A versatilidade também se dá porque além de berinjela, no ratatouille vai também abobrinha, tomate, cebola, pimentão verde, vermelho e amarelo, enfim, a vedete de casca roxa divide o palco com outros sabores. 

Hoje, no entanto, resolvi me aplicar só na berinjela. Por isso, testei um jeito diferente de fazer. Também fácil, cheiroso e, devo dizer, o resultado ficou delicioso. Usei uns segredinhos que vou contar já, já, na receita. 


Berinjela com gergelim


 


Ingredientes

2 colheres (sopa) de óleo de milho ou girassol
1 dente de alho amassado
1 cebola cortada em julienne
1 berinjela grande sem casca cortada em julienne
2 colheres (sopa) de vinagre de vinho branco
sal e pimenta do reino 
1 colher (chá) de óleo de gergelim torrado (eis o segredinho!)
1 colher (sopa) de gergelim torrado
50 ml de azeite extravirgem 
4 anchovas 

Modo de fazer

No óleo, refogue o alho e a cebola, acrescente a berinjela e o vinagre até que os ingredientes murchem e mudem de cor. Tempere com sal pimenta. Em seguida, acrescente o óleo de gergelim torrado. Dissolva as anchovas em 20 ml de azeite quente e misture no preparo. Acrescente o gergelim torrado e misture bem. Finalize com o restante do azeite. Tampe a panela e mantenha fechada por pelo menos 15 minutos. 

Essa berinjela fica muito cheirosa. Apetitosa mesmo! O óleo de gergelim tem um aroma incrível. Basta usar algumas gotas que todo o prato ganha vida.  Por sinal, dá vida a qualquer refeição, mesmo que seja aquele lanchinho fora de hora. 

Sugestões de uso: 
  • Como guarnição para um filé ou frango grelhado acompanhado de arroz integral. 
  • Para um sanduíche natural, com pão integral, maionese, cenoura ralada e alface
  • Fica ótimo como antepasto servido com torradinhas
  • Sobre uma rodelinha de pão de forma, servida como entradinha pronta do tipo canapé. Finalize com uma gota de molho de mostarda
  • Numa salada mais requintada com folhas diversas e camarão
Hummmm... Deu vontade de comer? Bora fazer!  

Na próxima vez que for à feira ou ao supermercado, pense nesse preparo e compre berinjela. Como Fermina Daza, sucumba e prove berinjela. Você pode ser surpreender. 

Até mais!!


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terça-feira, 12 de abril de 2016

Tapas espanholas



Pra quem anda cansado de tentar encontrar novidades nos restaurantes e não quer deixar de ir a um ambiente alegre e divertido e nem de comer de um jeito saudável ou que pelo menos faça valer aquela escapadinha da dieta, sugiro experimentar algo novo, tanto no paladar quanto no astral.

Que tal ir Lá em casa pra jantar?




Para quem não conhece o conceito, explico já! A ideia é simples e junta o prazer de cozinhar com o de bem receber em casa. O que já deixou de ser tendência para virar realidade e tá cheio de gente tentando fazer: jantares em casa com "gente fina, elegante e sincera". Eu já fiz e é muito bacana. 

Funciona assim: eu crio um menu com comidas gostosas, estudo direitinho as harmonizações, os equilíbrios e divulgo com data, preço e o local para acontecer. Não pode ser um evento muito distante porque a oportunidade é agora! Na data marcada, as pessoas que reservaram um lugar à mesa, vêm à minha casa para jantar. 

Na última edição em fevereiro, resolvi tematizar o encontro e escolhi um cardápio espanhol para garantir que a conversa iria rolar solta na mesa e as pessoas ficariam super à vontade. Como eu poderia garantir isso? Oras, servindo tapas e pinchos! 

As tapas são aquelas comidinhas, tipo aperitivo, que os espanhóis comem acompanhando os drinks da happy hour ou de qualquer hora. É muito comum, em bares e nos boxes de comida, por exemplo, do mercado central de Madri, as tapas rolarem praticamente o dia todo. Um canapé, um espetinho de queijo que cabe na boca, um pequeno naco de linguiça sobre uma rodelinha de pão... são muitas as opções.

Não importa se o que você vai tomar é um choppinho ou uma taça de vinho. Ah! Eu amo os vinhos rosados da Espanha. Aqui no Brasil, uma caipirinha seria uma boa pedida. Há quem prefira uma sangria, As bebidas acompanham o gosto do freguês e os pequenos bocados salgados e muitas vezes com alguma ardência, digo, um toque picante, também.

No último Lá em casa pra jantar servimos oito tapas diferentes: pantumaca*, caviar de berinjela, batatas bravas, espetadinhas de queijo, azeitona e tomate, canapé de calabresa e queijo azul, tortilla, pimenta recheada e  grão de bico torrado. Cada uma com seu charme e sua graça, todas adaptadas ou fidedignas às espanholas. Sem deixar, no entanto, de pensar na textura, no equilíbrio gustativo, na variedade, na novidade e na conversa que essas comidas iriam gerar.  

 Um segredinho de quem quer integrar pessoas é criar assuntos comuns. Comida é assunto. Ao provar algo novo, uma reação quase instantânea acontece.  Basta observar. Primeiro vem o olhar buscando cumplicidade e em seguida,  muitas vezes, as pessoas querem expressar em palavras o que sentem. Comer, neste caso, é compartilhar com seus pares a experiência, não funcionaria sem trocar uma ideia a respeito da sensação. É coletivo. Tão simples quanto um passe de mágica, a comunicação acontece. 

Corre por aí que as tapas são assim chamadas porque os copos eram "tapados"com uma iguaria qualquer pelos garçons e donos dos estabelecimentos para agradar aos clientes enquanto repousavam suas bebidas no balcão entre um gole e outro. 

As tapas e os pinchos têm a mesma função, mas a literatura chama de pinchos aqueles pequenos espetos que se comem de uma só vez nos quais quase sempre estão picles, azeitonas, ovinhos de codorna, pedacinhos de queijo, salames ou outra charcutaria. 

Por ocasião do evento que faria com tema espanhol, estudei e treinei o jeito de fazer tortillas e servi-las como tapas. As tortillas são muito comuns na Espanha e são como a nossa ou o nosso omelete (já que é um substantivo comum de dois gêneros), só que levam batata na receita. 

Confesso que como não sabia fazer tortilhas fui socorrida pela querida amiga Cris Pacino*, que é brasileira de nascimento, meio espanhola de árvore genealógica e escolheu viver na Espanha há alguns anos. Ela me ensinou passo a passo por skype como executar corretamente o prato,  inclusive a panela certa que o preparo exige a Cris providenciou para me mostrar como fazer. Que amor! 

Acho que aprendi e agora reproduzo a receita. O segredinho é usar uma panela que tenha fundo grosso e sempre ir acertando com uma escumadeira as bordas da fritada. Assim ela ficará arredondada. Mas, tenho mais uma confissão: é preciso treinar bastante. Não é simples, não! 


Tortilha Espanhola



Ingredientes

4 ovos inteiros
500 gramas de batatas cortadas em cubos de 2 cm de lado (a quem prefira em rodelas)
250 gramas de cebola fatiada em rodelas
sal a gosto
180 ml azeite de oliva

Modo de preparo

Em uma frigideira antiaderente, com fundo espesso, coloque 2/3 do azeite para esquentar  e em seguida acrescente as batatas cortadas e bem secas. Em outra panela, frite a cebola fatiada em imersão  no 1/3 restante de azeite até que fique tenra. Polvilhe um pouco de sal na cebola enquanto cozinha no óleo. 
Quando as batatas estiverem cozidas, mas ainda firmes, escorra-as para tirar o excesso de azeite. Faça o mesmo com a cebola. 
Bata os ovos sem muita força até que formem um pouco de espuma. Acrescente sal a gosto e depois as batatas e a cebola. Coloque tudo na frigideira já com azeite previamente aquecido e deixe dourar de um lado. Com a ajuda de uma tampa, vire a tortilha e deixe dourar do outro lado. Se preciso, repita a operação novamente. Isso pode ocorrer até três vezes de cada lado. Não tenha pressa. 

Para servir como tapas, a tortilla deverá estar fria. Agora, se preferir comer logo, coma quente mesmo. 

Só pra não achar que um jantar inteiro se faz de tapas, além delas, também teve salada e prato principal, sobremesa e tudo mais. Só pra constar, o prato principal foi arroz de polvo. Hummm... bom...

Quem sabe você não vai um dia Lá em casa pra jantar

Próxima edição prevista: 23 de abril. Reservas em laemcasaprajantar@gmail.com

Até mais. 


* pantumaca - pão com tomate
** Cris Pacino escreve o blog Aqui se fala portugues


(Texto escrito especialmente para o portal Top Vitrine)
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